quarta-feira, 17 de abril de 2019

Neossindicalismos aparentados a outros neos


Se acreditasse em bruxas eu diria que tudo teria começado à beira de um caldeirão com um espírito malfazejo a  misturar asas de morcego, veneno de cobra e pele de lagarto, juntamente com outros ingredientes que resultassem no surgimento de novíssimos e reivindicativos sindicatos dispostos a azucrinarem a paciência aos partidos das esquerdas em geral, e ao governo em particular. Explicar-se-ia assim que, em questão de poucos meses, enfermeiros ou camionistas de mercadorias perigosas, criassem estruturas de classe com irrisórias centenas de associados, mas capazes de infernizarem a vida dos portugueses. É que, num e noutro caso, temos «sindicatos» surgidos como alternativos aos da CGTP-IN, dados como ineficientes na defesa dos seus anseios corporativos.
Como não acredito em bruxas parece-me evidente outra explicação: existe quem à direita ande a observar os comportamentos sociais e a conjeturar formas de os explorarem a seu favor. Não importa que essas lutas façam de enfermeiros ou de camionistas aguerridos soldados de uma guerra cujos objetivos só são do conhecimento dos seus generais. Que a bastonária dos primeiros tem claros intuitos partidários na forma como usa e abusa dos meios colocados à sua disposição pela Ordem, que tomou de assalto, já poucos duvidarão. Que estes camionistas surjam representados por um advogado, igualmente apresentado como vice-presidente da Associação sindical - será que concilia a atividade na barra dos tribunais com o volante de algum pesado de mercadorias? - diz muito sobre o que aqui está em causa. Sobretudo quando uma breve consulta na internet dá para perceber que, além de partilhar um blogue com Bruno de Carvalho - e bem sabemos quanto a ultradireita na sua principal claque foi acarinhada no seu consulado à frente do Sporting - também o vemos como especialista na área dos investimentos financeiros.
Estamos, pois, perante uma estratégia concertada em vários setores de atividade para utilizar o neossindicalismo como veículo de movimentos inorgânicos numa variante dos coletes amarelos, com quem estes grupos parecem inquietantemente aparentados. Daí que faça votos para que o apelo à serenidade por parte de António Costa seja mais questão de retórica do que real. Porque os perigos inerentes a estes movimentos são demasiado sérios para que sejam encarados com passiva complacência. Até porque não esquecemos Salvador Allende e a forma como motoristas de pesados foram arregimentados para prepararem o clima propício ao golpe de Estado, que poria Pinochet à frente de odiosa ditadura.

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