segunda-feira, 30 de março de 2020

KWY (Cá Vamos Indo)


Cá passámos outra semana num mundo que julgaríamos improvável conhecer. E sem fim à vista, porque os números continuam a impressionar pela dimensão: já se registaram mais de seiscentos mil infetados por todo o mundo, onde mais de um milhar de milhões de pessoas estão a cumprir diversos tipos de quarentena.
Dano colateral são as perguntas imbecis de muitos jornalistas e, provavelmente, nem tenho ouvido  as mais idiotas já que me escuso a ver a CMTV ou a TVI. Mas ainda há bocado assistia à entrevista a um especialista português, também a trabalhar nos EUA, que demonstrava uma sensatez e uma capacidade de comunicação invulgares perante um Rodrigo Pratas (na SIC Notícias) a brindá-lo com questões de tal quilate, que facilmente se adivinhava o esforço de contenção do interlocutor para manter um discurso inteligente e assertivo.
Outra das ideias feitas disseminadas por muitos desses comunicadores dos telejornais é a da superior capacidade da China para ultrapassar a crise do covid-19, atribuindo implicitamente à especificidade do regime de Pequim uma maior habilidade para corresponder às circunstâncias. Parece que por tais cabecinhas pensadoras não passou a hipótese de haver nos governos asiáticos um saber de experiência feito à conta do que vivenciaram em anteriores epidemias, mormente com a gripe aviária (H5N1) em 1997 ou com o SARS em 2003, que pouparam a grande maioria os europeus. Embora não faltassem alertas quanto à possibilidade de novas pandemias prevaleceu no Velho Continente o síndroma do Pedro e do Lobo, não havendo líder político, nem governo preparado para o que estamos a enfrentar. Por isso em nenhum país existe a capacidade de fazer tantos testes quanto pretendem os tais comunicadores televisivos ou os entrevistados a que instam para que concordem com a sua prévia insinuação de subsistir tal «falha» na resposta à crise. Só gente mal intencionada pode afirmá-lo, porque dependendo a produção mundial de máscaras, ventiladores e outros itens fundamentais do equilíbrio entre a oferta e a procura os fabricantes tardam em reequilibrar a súbita assimetria causada rápida propagação do vírus.
O que não tem escapado à grande maioria dos portugueses é a súbita conversão dos mais furiosos liberais à intervenção pública. Aqueles que tanto defenderam a privatização da saúde aparecem agora como paladinos do SNS. Falta-lhes a vergonha de se penitenciarem por quanto contribuíram para enfraquecer um bastião, que os cidadãos quererão ver ainda mais valorizado, quando este transe for ultrapassado. Porque se pensarem no que sucederia acaso o primeiro-ministro fosse Passos Coelho, ou um dos seus apaniguados, facilmente concluem que o enfraquecimento da resposta pública teria sido tal, que encararíamos a presente guerra com uma terrível falta de munições...

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