quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O vento muda de direção

 


A greve geral em França, a mobilização pelo direito à habitação em Espanha, as insónias dos republicanos em Estados como o Iowa, que costumavam considerar seus e agora sentem a pender para os democratas, conjugam-se com a crise da Argentina, que leva o homem da motosserra a peregrinar pela Europa a mendigar investimento.

Sabíamos que não há mal que sempre dure. Faltava a confirmação empírica, e esta semana trouxe-a de várias direções ao mesmo tempo.

Vale a pena recordar a futilidade das certezas de outrora. Os comentadores da direita, com a mesma convicção de Fukuyama há umas boas décadas quando anunciou o fim da história, garantiam que a tendência dos últimos anos se prolongaria indefinidamente, como se as marés obedecessem a decretos ideológicos e não a movimentos sociais que se acumulam até transbordar.

Não se trata de anunciar vitórias, muito menos de baixar a guarda: os retrocessos instalados não desaparecem por decreto de otimismo, e os indícios de refluxo levam tempo a tornar-se maioria consolidada. Mas os indícios existem, e ignorá-los seria tão ingénuo quanto foi a certeza contrária.

A história, ao contrário do que Fukuyama previu, continua a escrever-se. E, desta vez, parece escrevê-la com letra diferente da que os arautos do fim da história esperavam.

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