terça-feira, 20 de outubro de 2026

A tenda e os imóveis

 


A Constituição diz que todos têm direito a uma habitação. O Governo, sem solução para cumprir o direito, resolveu cumprir outro “dever”: desmontar tendas. Pouco antes das seis da manhã desta terça-feira, a PSP deu ultimato aos acampados do Rossio e da Praça D. João I. Em Lisboa houve cinquenta e cinco detidos por desobediência, e os manifestantes falam em agressões a quem dormia. A polícia chama-lhe operação “necessária, adequada e proporcional”.

Luís Neves explicou que a lei tem de ser cumprida e que o direito de manifestação é respeitado por todos. Pedro Duarte falou em “circos mediáticos” e declarou reposta a “normalidade democrática”. Repor a normalidade democrática retirando quem protesta é fórmula que não resiste ao primeiro dicionário.

Quem nasceu antes de Abril reconhece o cheiro: madrugada, ultimato, polícia, gente a manifestar-se. Não se diz fascismo, mas o nariz não se engana, e a memória tem narinas longas.

A explicação para tanta pressa veio, na mesma semana, nas páginas do Público. Dos sessenta membros do Governo, só dois não declaram um único imóvel. Somam 436, perto de 23 milhões de euros, e o primeiro-ministro, só ele, tem 55. Somando as bancadas de PSD, Chega, IL e CDS, são 220 políticos com 1.039 imóveis, entre os quais 41 senhorios e 31 investidores imobiliários, e todos eles estão a rever a lei do arrendamento.

Nada disto é ilegal, e nenhuma regra os obriga a declararem-se impedidos. É apenas o retrato de um Governo que decide a lei das casas do lado de quem as tem. Quando quem garante o direito à habitação já a tem garantida, o interesse e o dever sentam-se à mesma mesa e entendem-se depressa. Quem monta uma tenda não tem casa. Quem a manda desmontar tem muitas.

Gritava-se no Rossio que o Governo vai cair. Que a indignação perante a violação do direito legal ao protesto engrosse, e que a contestação ganhe o fôlego que lhe falta aos que governam com um olho nas rendas.

Há nódoas que a benzina não tira. Há governos que só saem com o pano inteiro, que, nestes casos, é o voto.


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