segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Nem fatalismo, nem milagre

 


Admito que a noite brasileira me caiu mal. Flávio Bolsonaro à frente, Lula atrás, mais de dois milhões de votos de diferença e um resultado pior do que o de 2022. Ainda falta a segunda volta, a 25 de outubro, mas o susto não se disfarça.

Tentemos perceber, sem dramatismo. Quem vive de salário não come estatísticas. Com juros altos e a vida cara, o prato vazio pesa mais do que qualquer indicador favorável, e a prudência orçamental, pensada para sossegar os mercados, deixou muita gente de esquerda a esperar pelo prometido.

Depois, o país mudou. O operário, com sindicato e carteira assinada, cedeu lugar ao ao biscateiro. Muitos encontraram na igreja evangélica o que ninguém lhes oferecia: comunidade, ajuda nas horas más, uma promessa de prosperidade. Podemos torcer o nariz, mas a direita chegou lá primeiro, e a esquerda ficou a olhar.

Entretanto, a fábrica de mentiras trabalhou sem descanso, e Jair Bolsonaro, preso, virou mártir para os seus. O PT, por seu turno, governou de mãos dadas com o centrão, trocando mudança por governabilidade. Pagou o preço de ter deixado esfriar a base que o levou ao poder.

Mas calma, que o jogo não acabou. Em 2022 Lula venceu a segunda volta por um fio, e agora quem ficou de fora, a chamada terceira via, recusa apoiar qualquer dos dois. Vai ser outra eleição, com outras contas, e muita gente continua a rejeitar o apelido Bolsonaro.

E depois de outubro? Marx lembrava que fazemos a nossa história, mas nunca nas circunstâncias que escolhemos. Gramsci a escrever numa cela fascista, deixou a divisa certa para dias assim: pessimismo da inteligência, otimismo da vontade. A Europa, aliás, dá alento: a Suécia e Berlim mostram que a maré da extrema-direita não é lei da natureza.

Mesmo perdendo, a esquerda brasileira não fica de mãos vazias. Tem sindicatos, os sem-terra, associações de bairro, milhões de militantes. Uma desfeita nas urnas só se torna derrota de classe se se desistir de a organizar.

O materialismo histórico nunca prometeu vitórias fáceis. Pede, isso sim, que se arregacem as mangas.

Sem comentários:

Enviar um comentário