sábado, 3 de outubro de 2026

O Iluminismo das Trevas IV - A Economia Política da Guerra

 


(Quarto de uma série de textos sugeridos pelo excelente podcast de Mariana Mortágua no “Publico” – “ Senhores do Algoritmo” - que muito informou sobre o tema)

 

Na tradição do Iluminismo clássico, a paz universal e a estabilidade do direito internacional eram vistas como o horizonte ético indispensável para o progresso humano. Pelo contrário, para a ontologia do Dark Enlightenment e do Aceleracionismo que o sustenta, a paz perpétua é encarada como um estado de estagnação, uma entropia metabólica que amolece as sociedades e desacelera o desenvolvimento tecnológico.

Na visão neoreacionária, a guerra não é uma tragédia a evitar, mas o mais potente catalisador de seleção natural e de inovação. É no teatro de destruição que os sistemas tecnológicos são testados até ao limite, que as regulações éticas do Estado de Direito são suspensas e que a alocação de capital ganha uma urgência absoluta. A guerra surge como o modelo de negócio perfeito para o capitalismo de rotura: um mercado de consumo destrutivo onde a obsolescência da mercadoria é imediata e a procura por rearmamento é infinita.

A conversão da guerra num ativo económico primordial marca a consolidação de uma nova necroindústria, onde o sofrimento humano e a desestabilização geopolítica são convertidos em margens de lucro para os oligarcas da tecnologia.

Durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria, o complexo militar-industrial clássico assentava na cooperação entre governos e grandes multinacionais de armamento sob estrito controlo estatal. No entanto, na última década, assistimos a uma mutação decisiva: a privatização do próprio núcleo intelectual e tecnológico da defesa através de startups de Deep Tech financiadas pelo capital de risco de Silicon Valley.

Empresas como a Anduril Industries (fundada por Palmer Luckey, apoiado pelo ecossistema de Peter Thiel), a Palantir, a Shield AI e a SpaceX redefiniram o campo de batalha. O armamento pesado e estático do século XX deu lugar a sistemas integrados de inteligência artificial, enxames de drones autónomos, redes de vigilância por satélite e ferramentas de guerra cibernética preditiva.

Esta nova classe de empresários do setor militar opera abertamente sob a ideologia do Iluminismo das Trevas. Promovem a ideia de que a segurança das nações não deve depender de tratados internacionais, diplomacia ou exércitos conscritos, mas sim do algoritmo proprietário e da superioridade tecnológica privada. Ao fundirem a cultura de disrupção de Silicon Valley com a indústria da morte, estas empresas desmantelaram os travões éticos da guerra convencional.

A eficácia da nova necroindústria assenta num tríptico infraestrutural que reconfigurou a própria natureza da soberania estatal:

·        A Malha Orbital (Satélites): O controlo do espaço orbital tornou-se a condição de possibilidade de qualquer operação militar moderna. Redes de satélites de órbita baixa — como a Starlink de Elon Musk — fornecem a espinha dorsal de comunicações, navegação e inteligência em tempo real. O facto de o comando estratégico militar depender de constelações de satélites pertencentes a empresas privadas confere a um pequeno grupo de indivíduos o poder de ditar o resultado de guerras e de chantagear governos soberanos.

·        A Automação do Homicídio (Drones): A introdução de enxames de drones governados por inteligência artificial remove o fator humano da decisão de matar. O algoritmo de reconhecimento facial e de deteção de padrões passa a selecionar alvos e a executar ataques com uma frieza matemática. Elimina-se o custo político da perda de vidas de soldados próprios, tornando a guerra psicologicamente mais aceitável para as elites políticas e financeiras.

·        A Guerra da Informação (Algoritmos e Data Centers): A dimensão física da destruição é permanentemente acompanhada pela guerra psicológica digital. Os mesmos algoritmos e data centers que processam dados no campo de batalha são utilizados para manipular a perceção pública, desinformar populações e desestabilizar adversários geopolíticos a partir de dentro, apagando as fronteiras entre o estado de paz e o estado de guerra.

A economia política da guerra no contexto do Dark Enlightenment exige a perpetuação da instabilidade. A paz prolongada e a cooperação multilateral representam um risco existencial para a valorização bolsista da nova necroindústria.

Ao capturarem a infraestrutura de defesa dos Estados, os oligarcas da tecnologia garantem a instauração de um estado de exceção permanente. Sob o pretexto da ameaça iminente e da competição geopolítica, as garantias constitucionais dos cidadãos são erodidas, a vigilância em massa é normalizada e os orçamentos públicos de saúde, educação e proteção social são canalizados para o financiamento sem fundo da máquina militar-tecnológica.

A guerra, que no passado era encarada como o fracasso da política, converteu-se na realização máxima da política neoreacionária: uma ordem social disciplinada pelo medo, governada por algoritmos de sobrevivência e dominada por uma elite proprietária que lucra com a própria destruição do planeta.

 

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