Notícias funcionam como aviso, mesmo havendo quem prefira lê-las como se fossem de outro planeta. Enquanto em Espanha o despejo de uma mulher de oitenta e sete anos, arrancada de casa onde vivera setenta, levava centenas de milhares de pessoas à rua e obrigava o governo a equacionar um decreto com o nome dela, na Assembleia da República, a AD e o Chega entenderam-se para facilitar precisamente o mecanismo que a vitimou.
Não é
coincidência de calendário, é contraste de civilização política. De um lado,
uma sociedade que reconhece no corpo de uma idosa retirada de maca o rosto de
uma crise estrutural, e responde com indignação de massas. Do outro, um
parlamento que olha para a mesma crise e decide que o problema é a lentidão dos
despejos, não a sua existência.
Nada tem
de surpreendente a aliança entre o partido do governo e a extrema-direita para quem
acompanha o padrão: já se tinha repetido na lei da nacionalidade, na lei dos
estrangeiros, repete-se agora na habitação. Sempre que se trata de reforçar
quem já tem poder sobre quem já tem pouco, a direita tradicional encontra no
Chega um parceiro disponível, por mais que se distancie dele nos microfones.
Fica a
pergunta incómoda: quantas Maricarmens portuguesas serão precisas, e quantos
despejos com oposição policial, até que o país reaja como reagiu o vizinho? Ou
preferimos continuar a admirar à distância, com o comentário condescendente de
costume sobre o "temperamento espanhol", enquanto por cá se aprova em
silêncio parlamentar aquilo que lá incendeia as ruas?
A indignação não precisa de passaporte. Precisava apenas de atravessar a fronteira a tempo de impedir a lei. Chegou tarde, ou talvez nunca estivesse destinada a chegar — e essa é, afinal, a diferença entre os dois países que esta semana a notícia expôs sem rodeios.

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