O Nobel
da Paz atribuído a Navi Pillay, foi mais um chapadão em quem insiste em não
ver, ouvir ou ler as notícias que se acumulam sobre Gaza. A jurista
sul-africana presidiu à comissão da ONU que concluiu ter Israel cometido
genocídio.
Como
resposta os criminosos falaram de libelos de sangue, e os Estados Unidos
sancionaram o Tribunal Penal Internacional. A resposta ao juiz é sempre a
mesma: pretender rebentar-lhe com o tribunal.
Durante
muito tempo espantámo-nos com quem vivia ao lado dos campos de concentração
nazis, via chegar comboios cheios e partir vazios, e cheirava o fumo das
chaminés. Libertos os campos, jurava, “inocentemente”, de nada ter suspeitado.
Assim se
comportam hoje muitos, apostados em negar o evidente e em acusar de
antissemitas os que tentam despertá-los do torpor cúmplice. Antissemita não é
quem denuncia um Estado e o seu exército. Não o são os judeus corajosos que o
fazem, mormente os realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor, autores de Naza,
documentário onde vinte e quatro militares e agentes de informações, sob
anonimato, descrevem o que fizeram.
O título
é a sigla de que o exército se serve para as baixas civis: mais cómodo dizer
que morreram vinte nazas do que vinte pessoas, mulheres e crianças incluídas.
Um dos depoentes recorda a autorização para matar pelo menos quinhentos danos
colaterais num só ataque, sem saber quantos eram crianças. A linguagem
burocrática serve sempre o mesmo fim: tornar suportável o insuportável.
O álibi é
velho: cumpriam ordens. Foi o argumento de alguns dos criminosos julgados nos
tribunais do século passado, e viram-no rejeitado esperando-se que a lição
ficasse irrepetível. Não ficou.
Foi em
Nuremberga, na sala onde se recusou a desculpa das ordens cumpridas, que Navi
Pillay soube do prémio. Não se encomenda um simbolismo assim. Quem agora olha
para o lado terá de se explicar mais tarde, e a história já sabe a que
perguntas vai ouvir as mesmas respostas.
Ninguém
poderá dizer que não viu, não ouviu, não leu.

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