sábado, 10 de outubro de 2026

Nuremberga, outra vez

 


O Nobel da Paz atribuído a Navi Pillay, foi mais um chapadão em quem insiste em não ver, ouvir ou ler as notícias que se acumulam sobre Gaza. A jurista sul-africana presidiu à comissão da ONU que concluiu ter Israel cometido genocídio.

Como resposta os criminosos falaram de libelos de sangue, e os Estados Unidos sancionaram o Tribunal Penal Internacional. A resposta ao juiz é sempre a mesma: pretender rebentar-lhe com o tribunal.

Durante muito tempo espantámo-nos com quem vivia ao lado dos campos de concentração nazis, via chegar comboios cheios e partir vazios, e cheirava o fumo das chaminés. Libertos os campos, jurava, “inocentemente”, de nada ter suspeitado.

Assim se comportam hoje muitos, apostados em negar o evidente e em acusar de antissemitas os que tentam despertá-los do torpor cúmplice. Antissemita não é quem denuncia um Estado e o seu exército. Não o são os judeus corajosos que o fazem, mormente os realizadores Yuval Abraham e Rachel Szor, autores de Naza, documentário onde vinte e quatro militares e agentes de informações, sob anonimato, descrevem o que fizeram.

O título é a sigla de que o exército se serve para as baixas civis: mais cómodo dizer que morreram vinte nazas do que vinte pessoas, mulheres e crianças incluídas. Um dos depoentes recorda a autorização para matar pelo menos quinhentos danos colaterais num só ataque, sem saber quantos eram crianças. A linguagem burocrática serve sempre o mesmo fim: tornar suportável o insuportável.

O álibi é velho: cumpriam ordens. Foi o argumento de alguns dos criminosos julgados nos tribunais do século passado, e viram-no rejeitado esperando-se que a lição ficasse irrepetível. Não ficou.

Foi em Nuremberga, na sala onde se recusou a desculpa das ordens cumpridas, que Navi Pillay soube do prémio. Não se encomenda um simbolismo assim. Quem agora olha para o lado terá de se explicar mais tarde, e a história já sabe a que perguntas vai ouvir as mesmas respostas.

Ninguém poderá dizer que não viu, não ouviu, não leu.

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