Álvaro
Santos Pereira, o antigo ministro dos pastéis de nata, voltou aos holofotes. Em
2012, perguntava por que razão não havia um franchising de pastéis para
combater o défice e a dívida externa. Agora, governador do Banco de Portugal,
avisa que faltam trezentas mil casas, o equivalente a uma Lisboa inteira, e que
o país não encara o problema com a “urgência necessária”, nem no investimento
público nem no privado. Desta vez, em abono da verdade, acerta no diagnóstico.
Acerta
também, sem querer, na acusação. Portugal tem os mais baixos indicadores de
investimento em habitação social de toda a OCDE, diz o governador, que
classifica a habitação como o principal risco interno da economia, sobretudo
social. Um Governo que enfrenta tal risco com a pressa de quem espera o comboio
ouve e arruma o aviso na gaveta.
O
governador receita construir mais, e ninguém o contradirá, mas construir leva
anos e as famílias não esperam. Há alternativa à mão. Os Censos de 2021
contaram quase quarenta e oito mil casas vagas no concelho de Lisboa, cerca de
quinze por cento do parque, e mais de cento e cinquenta mil na área
metropolitana. Mais de metade não estava à venda nem para arrendar.
Parte,
bem entendido, é herança por partilhar ou prédio à espera de obra. Parte é
opção de quem prefere o imóvel fechado à casa habitada, porque comprou como
quem compra um ativo e não como quem acolhe uma família. Só em Lisboa, as vagas
alojariam, em média, mais de cem mil pessoas, quase uma Setúbal.
Pô-las no
mercado exigiria taxar o abandono, obrigar a arrendar, premiar quem ocupa e
castigar quem especula. Contraria os interesses que sustentam este Governo, e
que dele esperam a garantia de continuarem a enriquecer na especulação
imobiliária. Por isso a conversa é toda sobre construir e quase nada sobre
ocupar.
Faltam
trezentas mil casas, dizem-nos, e há quarenta e sete mil fechadas só na
capital. Faltou ao governador acrescentar o essencial: não falta só construir,
falta querer.

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