quinta-feira, 8 de outubro de 2026

As margens e o rio

 


Brecht lembrava, em versos que a memória guarda sem esforço, que se chama violento ao rio que transborda e nunca às margens que o comprimem. Em França, a lição dá-se em direto.

Os liceus ferveram em setembro, a começar em Créteil, com professores em falta, turmas sobrelotadas, edifícios a desfazerem-se. Da fagulha fez-se incêndio, e o incêndio ficou notícia pelas piores razões: mais de seis mil e quinhentos detidos, a maioria menores, um adolescente de quinze anos sem uma mão, granadas suspensas só depois da mutilação. Houve violência de manifestantes, ninguém o nega. Mas o enquadramento mediático fez do rio o culpado e das margens simples paisagem.

Lecornu tenta apagar o fogo que ajudou a atear. Matignon falou em manobra dos Insubmissos, como se bastasse a ignição, sem combustível nem comburente. O combustível está nas escolas degradadas, o comburente no empobrecimento sem solução à vista. E muito graças ao ministro do Interior, Laurent Nuñez, tão obcecado com o principal partido da esquerda que carrega a acusação de, semanas atrás, ter acreditado, perante jornalistas, numa droga imaginária no saco da eurodeputada Rima Hassan. Negou a fuga, mas saiu chamuscado.

A marcha de terça-feira reuniu 256 mil pessoas, segundo o Ministério do Interior, e 450 mil, segundo os organizadores: estudantes, pais, professores, sindicatos. A insatisfação juvenil já não caminha sozinha.

Augusto Santos Silva vê nisto caldo de cultura para Le Pen e admite que ela pode ser travada se os adversários não forem estúpidos. Receio de timorato, que toma o termómetro pela febre. Situações propícias à rutura podem dar em retrocesso, como em França, onde junho de 68 trouxe uma maré gaullista às urnas e 1969 a eleição de Pompidou. Mas o retrocesso eleitoral não apagou o essencial: muitos dos valores de maio acabaram por impor-se, social e culturalmente, nos anos seguintes. Outras vezes, a rutura dá transformação política efetiva, como na Rússia de 1917, onde uma minoria organizada, de programa claro e disciplina firme, tomou a condução do processo e conquistou a maioria nos sovietes.

Le Pen, favorita nas sondagens de abril, cresce com o desencanto de quem vê o Estado cortar na escola e acenar com a ordem. Trava-a quem oferece alternativa.

Que o rio transborde, desde que se reconstrua o leito.

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