Brecht
lembrava, em versos que a memória guarda sem esforço, que se chama violento ao
rio que transborda e nunca às margens que o comprimem. Em França, a lição dá-se
em direto.
Os liceus
ferveram em setembro, a começar em Créteil, com professores em falta, turmas
sobrelotadas, edifícios a desfazerem-se. Da fagulha fez-se incêndio, e o
incêndio ficou notícia pelas piores razões: mais de seis mil e quinhentos
detidos, a maioria menores, um adolescente de quinze anos sem uma mão, granadas
suspensas só depois da mutilação. Houve violência de manifestantes, ninguém o
nega. Mas o enquadramento mediático fez do rio o culpado e das margens simples
paisagem.
Lecornu
tenta apagar o fogo que ajudou a atear. Matignon falou em manobra dos
Insubmissos, como se bastasse a ignição, sem combustível nem comburente. O
combustível está nas escolas degradadas, o comburente no empobrecimento sem
solução à vista. E muito graças ao ministro do Interior, Laurent Nuñez, tão
obcecado com o principal partido da esquerda que carrega a acusação de, semanas
atrás, ter acreditado, perante jornalistas, numa droga imaginária no saco da
eurodeputada Rima Hassan. Negou a fuga, mas saiu chamuscado.
A marcha
de terça-feira reuniu 256 mil pessoas, segundo o Ministério do Interior, e 450
mil, segundo os organizadores: estudantes, pais, professores, sindicatos. A
insatisfação juvenil já não caminha sozinha.
Augusto
Santos Silva vê nisto caldo de cultura para Le Pen e admite que ela pode ser
travada se os adversários não forem estúpidos. Receio de timorato, que toma o
termómetro pela febre. Situações propícias à rutura podem dar em retrocesso,
como em França, onde junho de 68 trouxe uma maré gaullista às urnas e 1969 a
eleição de Pompidou. Mas o retrocesso eleitoral não apagou o essencial: muitos
dos valores de maio acabaram por impor-se, social e culturalmente, nos anos
seguintes. Outras vezes, a rutura dá transformação política efetiva, como na
Rússia de 1917, onde uma minoria organizada, de programa claro e disciplina
firme, tomou a condução do processo e conquistou a maioria nos sovietes.
Le Pen,
favorita nas sondagens de abril, cresce com o desencanto de quem vê o Estado
cortar na escola e acenar com a ordem. Trava-a quem oferece alternativa.
Que o rio
transborde, desde que se reconstrua o leito.

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