domingo, 25 de outubro de 2026

A fogueira e o óleo

 


Às duas da manhã, a polícia avançou ao mesmo tempo sobre o Rossio e a Praça D. João I, de escudos e bastões, depois de horas de avisos para desmontar as tendas. A PSP conta onze feridos e trinta e um detidos por desobediência. A organização do Porto fala em trinta e sete feridos, sete deles graves. A mesma PSP, horas antes, saudava a forma cívica e responsável da manifestação de sábado. A PSP diz que apreendeu no Porto um petardo, tinta e gás pimenta. Mesmo que se tome tudo por verdade, é o balanço de uma noite de desobediência civil, e a resposta foram bastões sobre gente a dormir numa praça.

Foi preciso um evidente desamparo de razões para mandar escudos e bastões, às duas da manhã, contra jovens que pedem casa. O ministro, garantindo o cumprimento da lei, pode estar sossegado: cumpriu-se, à bastonada. Cada carga é petróleo atirado para uma fogueira que ainda estava longe de se apagar, e o movimento já disse que amanhã estará lá.

Emigrar, como a evocação do presidente do IHRU deixou no ar? Para onde? Em França, os liceus estão em luta por escolas degradadas e professores em falta. Em Espanha, a rua e o despejo de uma idosa abriram eleições. Na Grécia, estudantes acampam em Salónica, Ioannina e Patras a pedir residências e limites às rendas. A geração que mandam emigrar luta, em toda a Europa, pelas mesmas razões e causas.

Este capitalismo, que trocou as ilusões sociais-democratas e democratas-cristãs por versões fascizantes teleguiadas pelos donos dos algoritmos, só deixa aberta uma porta: a da alternativa, que alguns diabolizam para meter medo aos timoratos. Há quem pague 276 milhões para vencer eleições e quem lhes chame Iluminismo, esquecendo as Trevas.

O futuro ou será o da subserviência aos títeres desses senhores ou passará por uma revolução, no sentido em que as palavras ainda querem dizer mudança de fundo.

Uma revolução a devolver às novas gerações a esperança nas ideologias igualitárias, longe de ser, como dizia o outro, um convite para jantar.. Mas que se faz, como estes jovens a fazem, de mãos vazias, com tendas e assembleias. Quem leva escudos e bastões à praça não é quem a faz.

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