Hoje há
manifestações pela habitação em Lisboa, no Porto, em Coimbra, em Braga, em
Aveiro, em Faro. Os cidadãos saem à rua depois de uma semana de acampadas,
cargas policiais e detenções, e levam a razão que os números lhes dão. O INE
mediu o preço mediano das casas em 2445 euros por metro quadrado, mais 18,4%
num ano e quase o dobro em cinco. Subiu em mais de nove em cada dez concelhos,
e em quase metade subiu mais de vinte por cento. Os jovens portugueses saem de
casa dos pais aos 28,8 anos, dois anos e meio depois da média europeia. Não é
falta de sacrifício, é falta de casa.
Perante a
rua, António José Seguro convocou os partidos a Belém para dia 29 e o Conselho
de Estado para 2 de novembro, a pedir ao Governo e à oposição um entendimento
para medidas urgentes e duradouras. O tema oficial é a coesão social, mas o
endereço ninguém o ignora. O Presidente fez o mínimo que dele se esperava, e
falta quem governa responder.
Quem
governa passou à clandestinidade. O primeiro-ministro está há dias sem agenda
pública, faltou ao Conselho de Ministros, visitou uma escola “de surpresa” sem
comunicação social, e o ministro da Presidência explicou que ele gosta de
visitas com reserva. No fundo anda onde não o encontrem os problemas dos
portugueses.
Entretanto,
o presidente do IHRU, Benjamim Pereira, antigo autarca de Esposende pelo PSD,
nomeado para um cargo que paga mais de 7600 euros brutos por mês, duvidou da
disponibilidade dos jovens para o sacrifício dos seus próprios avós, que
emigraram para ter casa. No dia seguinte aceitou que as expressões não foram
felizes e negou ter sugerido a emigração. A frase, porém, ficou: quem ganha
7600 euros pede a quem ganha mil que aguente mais.
O Governo
reconhece que as preocupações são legítimas e mantém a lei das rendas, a que
acelera despejos e acaba com o travão às subidas. O ministro da Presidência,
arrogante mas pífio como é seu timbre, prometeu não recuar assacando culpas ao
PS, cujas costas largas já arcam com este tipo de acusação como se não tivessem
passado já dois anos e meio de governação AD. Legítimas as preocupações,
ilegítima a mudança. Os sessenta governantes têm, juntos, 436 imóveis, e é do
alto dessa fartura que decidem como se despeja.
As
reivindicações cabem numa tenda: retirar a lei, travar despejos sem
alternativa, mais habitação pública, recuperar o que está devoluto, rendas que
se paguem. Quem as faz não pede sacrifício a ninguém, pede casa.
Não dá
mais, dizem as tendas. Dá para mudar e, para começar, que o Governo retire a
lei.

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