sábado, 24 de outubro de 2026

Não dá mais

 

Hoje há manifestações pela habitação em Lisboa, no Porto, em Coimbra, em Braga, em Aveiro, em Faro. Os cidadãos saem à rua depois de uma semana de acampadas, cargas policiais e detenções, e levam a razão que os números lhes dão. O INE mediu o preço mediano das casas em 2445 euros por metro quadrado, mais 18,4% num ano e quase o dobro em cinco. Subiu em mais de nove em cada dez concelhos, e em quase metade subiu mais de vinte por cento. Os jovens portugueses saem de casa dos pais aos 28,8 anos, dois anos e meio depois da média europeia. Não é falta de sacrifício, é falta de casa.

Perante a rua, António José Seguro convocou os partidos a Belém para dia 29 e o Conselho de Estado para 2 de novembro, a pedir ao Governo e à oposição um entendimento para medidas urgentes e duradouras. O tema oficial é a coesão social, mas o endereço ninguém o ignora. O Presidente fez o mínimo que dele se esperava, e falta quem governa responder.

Quem governa passou à clandestinidade. O primeiro-ministro está há dias sem agenda pública, faltou ao Conselho de Ministros, visitou uma escola “de surpresa” sem comunicação social, e o ministro da Presidência explicou que ele gosta de visitas com reserva. No fundo anda onde não o encontrem os problemas dos portugueses.

Entretanto, o presidente do IHRU, Benjamim Pereira, antigo autarca de Esposende pelo PSD, nomeado para um cargo que paga mais de 7600 euros brutos por mês, duvidou da disponibilidade dos jovens para o sacrifício dos seus próprios avós, que emigraram para ter casa. No dia seguinte aceitou que as expressões não foram felizes e negou ter sugerido a emigração. A frase, porém, ficou: quem ganha 7600 euros pede a quem ganha mil que aguente mais.

O Governo reconhece que as preocupações são legítimas e mantém a lei das rendas, a que acelera despejos e acaba com o travão às subidas. O ministro da Presidência, arrogante mas pífio como é seu timbre, prometeu não recuar assacando culpas ao PS, cujas costas largas já arcam com este tipo de acusação como se não tivessem passado já dois anos e meio de governação AD. Legítimas as preocupações, ilegítima a mudança. Os sessenta governantes têm, juntos, 436 imóveis, e é do alto dessa fartura que decidem como se despeja.

As reivindicações cabem numa tenda: retirar a lei, travar despejos sem alternativa, mais habitação pública, recuperar o que está devoluto, rendas que se paguem. Quem as faz não pede sacrifício a ninguém, pede casa.

Não dá mais, dizem as tendas. Dá para mudar e, para começar, que o Governo retire a lei.

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