quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O que não se diz continua a existir

 


Numa entrevista a José Luís Carneiro, a jornalista do Público Ana Sá Lopes notou, com a pena de quem lamenta um costume perdido, que já ninguém fala de luta de classes. Tem razão, ninguém fala. Mas devia, porque a coisa nunca foi tão visível.

Warren Buffett, que não é suspeito de marxismo, resumiu-a há anos: há luta de classes, sim, e a sua classe, a dos ricos, está a ganhá-la. Os números de 2026 deram-lhe razão. A riqueza dos bilionários cresceu mais de 16% em 2025 e atingiu os 18,3 biliões de dólares, o valor mais alto de sempre, e desde 2020 subiu 81%, segundo a Oxfam. Elon Musk, só nas intercalares americanas, já pôs 276 milhões de dólares no tabuleiro republicano. Isto não é azar de calendário, é investimento de classe.

Em Portugal, o governador do Banco de Portugal veio dizer que faltam trezentas mil casas e que temos o menor investimento em habitação social de toda a OCDE. Entretanto, as rendas dos novos contratos subiram mais de 10% num ano, enquanto o salário médio subiu cerca de 5%, e mais de um em cada cinco contratos paga exatamente o salário mínimo.

Dirão que os salários nunca pesaram tanto no PIB, e é verdade: o Conselho de Finanças Públicas prevê 48,5% em 2026, o máximo desde 1995. Mas isso prova o contrário do que insinuam. O que se ganhou foi conquistado, não oferecido, e as rendas já o estão a devolver ao senhorio.

A luta de classes não exige barricadas nem bandeiras. Exige o inquilino, o senhorio, o trabalhador e o patrão, quatro personagens que a gramática política decidiu retirar do elenco. Em seu lugar apareceram o “empreendedor”, o “mercado” e o “consumidor”, figurantes sem classe nem culpa.

Há quem prefira dizer “desigualdades”, palavra cómoda porque dispensa culpados. A desigualdade acontece, a luta de classes tem protagonistas. Uma é fenómeno, a outra é política.

Deixar de nomear a luta não a termina. Garante apenas que um dos lados a continue a travar sozinho. Que a esquerda dê o nome aos bois, não para ressuscitar um vocabulário, mas para reconhecer o que ele sempre descreveu. A classe que a nega é, por norma, a que a está a ganhar. 

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