Numa
entrevista a José Luís Carneiro, a jornalista do Público Ana Sá Lopes notou,
com a pena de quem lamenta um costume perdido, que já ninguém fala de luta de
classes. Tem razão, ninguém fala. Mas devia, porque a coisa nunca foi tão
visível.
Warren
Buffett, que não é suspeito de marxismo, resumiu-a há anos: há luta de classes,
sim, e a sua classe, a dos ricos, está a ganhá-la. Os números de 2026 deram-lhe
razão. A riqueza dos bilionários cresceu mais de 16% em 2025 e atingiu os 18,3
biliões de dólares, o valor mais alto de sempre, e desde 2020 subiu 81%,
segundo a Oxfam. Elon Musk, só nas intercalares americanas, já pôs 276 milhões
de dólares no tabuleiro republicano. Isto não é azar de calendário, é
investimento de classe.
Em
Portugal, o governador do Banco de Portugal veio dizer que faltam trezentas mil
casas e que temos o menor investimento em habitação social de toda a OCDE.
Entretanto, as rendas dos novos contratos subiram mais de 10% num ano, enquanto
o salário médio subiu cerca de 5%, e mais de um em cada cinco contratos paga
exatamente o salário mínimo.
Dirão que
os salários nunca pesaram tanto no PIB, e é verdade: o Conselho de Finanças
Públicas prevê 48,5% em 2026, o máximo desde 1995. Mas isso prova o contrário
do que insinuam. O que se ganhou foi conquistado, não oferecido, e as rendas já
o estão a devolver ao senhorio.
A luta de
classes não exige barricadas nem bandeiras. Exige o inquilino, o senhorio, o
trabalhador e o patrão, quatro personagens que a gramática política decidiu
retirar do elenco. Em seu lugar apareceram o “empreendedor”, o “mercado” e o
“consumidor”, figurantes sem classe nem culpa.
Há quem
prefira dizer “desigualdades”, palavra cómoda porque dispensa culpados. A
desigualdade acontece, a luta de classes tem protagonistas. Uma é fenómeno, a
outra é política.
Deixar de
nomear a luta não a termina. Garante apenas que um dos lados a continue a
travar sozinho. Que a esquerda dê o nome aos bois, não para ressuscitar um
vocabulário, mas para reconhecer o que ele sempre descreveu. A classe que a
nega é, por norma, a que a está a ganhar.

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