sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Lição de ética, com casa própria por explicar

 


Há discursos que só ganham sentido completo quando se sabe onde foram proferidos. Luís Montenegro foi a uma escola falar sobre ética, integridade e prevenção da corrupção, e escolheu para isso Espinho, terra onde nasceu, onde presidiu à JSD, e onde o Ministério Público investiga a construção da sua própria casa.

Não há, sublinhe-se, prova de crime contra o primeiro-ministro, nem contra o seu ministro da Administração Interna, cuja gestão do episódio das obras em Odemira foi tudo menos a de um profissional seguro de si: contradições, versões sucessivas, um atrelado ligado a tráfico de droga a complicar o enredo de uma simples reforma doméstica. Mas entre a ausência de prova de crime e a presença de integridade vai a distância que separa um tribunal de uma conferência de imprensa, e nessa segunda, ambos ficaram a dever explicações.

Fica por isso a pergunta que o ditado popular já tinha formulado antes de qualquer cronista: não é o prevaricador sempre tentado a voltar ao local onde prevaricou? Montenegro voltou a Espinho para falar de ética. A ironia escreveu-se sozinha.

E há mais. Como recorda Susana Peralta em crónica no Público, este é o mesmo primeiro-ministro que recebeu de António Costa o Mecanismo Nacional Anticorrupção pronto a avançar, e que o tem privado dos recursos humanos e materiais que o próprio presidente do organismo reclama há anos.

Não é preciso provar crime para reconhecer negligência: um instrumento de combate à corrupção reduzido a caricatura de si próprio, por falta de meios que dependem exclusivamente de quem agora discursa sobre o tema em escolas, diz mais sobre prioridades reais do que qualquer alocução.

Falar de ética custa pouco. Dotá-la de meios, esse sim, parece ser o verdadeiro teste que este Governo prefere adiar indefinidamente.

Sem comentários:

Enviar um comentário