Há
discursos que só ganham sentido completo quando se sabe onde foram proferidos.
Luís Montenegro foi a uma escola falar sobre ética, integridade e prevenção da
corrupção, e escolheu para isso Espinho, terra onde nasceu, onde presidiu à
JSD, e onde o Ministério Público investiga a construção da sua própria casa.
Não há,
sublinhe-se, prova de crime contra o primeiro-ministro, nem contra o seu
ministro da Administração Interna, cuja gestão do episódio das obras em Odemira
foi tudo menos a de um profissional seguro de si: contradições, versões
sucessivas, um atrelado ligado a tráfico de droga a complicar o enredo de uma
simples reforma doméstica. Mas entre a ausência de prova de crime e a presença
de integridade vai a distância que separa um tribunal de uma conferência de
imprensa, e nessa segunda, ambos ficaram a dever explicações.
Fica por
isso a pergunta que o ditado popular já tinha formulado antes de qualquer
cronista: não é o prevaricador sempre tentado a voltar ao local onde
prevaricou? Montenegro voltou a Espinho para falar de ética. A ironia
escreveu-se sozinha.
E há
mais. Como recorda Susana Peralta em crónica no Público, este é o mesmo
primeiro-ministro que recebeu de António Costa o Mecanismo Nacional
Anticorrupção pronto a avançar, e que o tem privado dos recursos humanos e
materiais que o próprio presidente do organismo reclama há anos.
Não é
preciso provar crime para reconhecer negligência: um instrumento de combate à
corrupção reduzido a caricatura de si próprio, por falta de meios que dependem
exclusivamente de quem agora discursa sobre o tema em escolas, diz mais sobre
prioridades reais do que qualquer alocução.
Falar de ética custa pouco. Dotá-la de meios, esse sim, parece ser o verdadeiro teste que este Governo prefere adiar indefinidamente.

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