As esquerdas não devem complacência a Luís Neves só porque, antes de ministro, disse o que os números comprovam: a imigração não explica a criminalidade, e a insegurança alimenta-se de desinformação e de televisões a repetirem crimes em ciclo. Foi aplaudido por isso, e bem. Mas aplauso não é salvo-conduto vitalício.
Convidado
por Montenegro para o Governo, aceitou. Groucho Marx recusava pertencer a
qualquer clube que o admitisse como sócio. O antigo diretor da Judiciária, bem
menos desconfiado, entrou no clube sem perguntar quem o admitira, o que sugere
conforto com a companhia.
O resto
veio depressa. As obras em Odemira, as explicações trapalhonas, o
secretário-geral do ministério demitido, que fala em pressões ilegítimas, e o
ministro a negar. O PS e a IL pediram audições urgentes. O ministro que dizia
reger-se pelos números vive agora de versões.
Nos
últimos dias, mostrou o perfil por inteiro. Para justificar a ação policial
sobre as acampadas pela habitação, agarrou-se a um decreto-lei de 1974,
anterior à Constituição, que Teresa Violante diz ter preceitos
inconstitucionais se lidos à letra. Insiste que a lei é para cumprir,
esquecendo que a Constituição também o é, e a mais alta. No Porto, uma
intervenção policial deixou perto de quarenta feridos. Em Lisboa, cinquenta e
cinco detidos. Pedro Duarte, na mesma onda, falou em “extremistas mais
radicais”, vocabulário que remete para o tempo em que tudo o que incomodava era
subversivo.
A
coerência não é problema para quem se mede pela conveniência. O ministro que
desmente a ligação entre imigrantes e crime é o mesmo que manda tirar à força
os que dormem numa praça a pedir casa. Não há contradição, há uma regra: o
cuidado com os factos pára onde começa a ordem.
A
contagem decrescente para a provável demissão tem já tantas razões quantas as
polémicas. Falta saber quem carrega no botão. Chegou depressa ao cargo, e é de
esperar que saia ainda mais depressa.

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