Num
domingo à noite, sob velas televisivas, Pedro Passos Coelho ergueu-se da cova
para o castelo de Maria João Avillez. A anfitriã, noiva de Drácula na
hospitalidade com que recebe quem regressa debaixo da terra, serviu o convidado
com o desvelo de sempre: ninguém sai magoado de um castelo assim.
Em
fevereiro, garantira ao ECO que não tinha desforras para tirar nem andava à
procura de nada. Em outubro, anuncia que regressa se o PSD for malsucedido.
Resume-se: quem não procura nada confessa, de dentes à mostra, que reza pelo
insucesso do próprio partido, esse alheio de que se diz de bem com a vida.
O
programa em que se declarou “executivo” mereceu resposta de Mário Centeno, com
a graça seca de quem sabe contas: há mais de dez anos que não executa nada.
Poderia, sugeriu, ter começado por uma tese de doutoramento. Faltou executar a
tese, sobrou a ementa de coveiro.
A
entrevista deu ainda a medida do apetite. Passos admite que Ventura pode
derrotar o PSD e defende um acordo de regime com o Chega e a IL, enquanto
coordena um estudo de reformas para entregar ao Governo e ao Presidente.
Montenegro, entre amuado e aflito, lembrou que o partido não deve andar
acorrentado ao que está à sua direita. A ADEGA, de Daniel Oliveira, já só lhe
faltava um sommelier.
Há quem o
compare a Franz von Papen, o conservador que julgava domesticar os radicais,
como lembrou Miguel Prata Roque. É exagero: Papen, ao menos, chegou a
chanceler. Passos, se tudo correr como sonha, poderá aspirar a ministro das
Finanças de Ventura, que não é mau para quem se recusava a ser coveiro de si
próprio.
O
sebastianismo precisa de nevoeiro, e outubro tem-no, mas os mortos-vivos temem
a luz do dia. À luz do dia há quem se lembre dos anos da troika: os salários
cortados, as pensões cortadas, os filhos emigrados. O alho e o crucifixo são
para os filmes. Para esta cripta, basta a memória.

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