terça-feira, 13 de outubro de 2026

O regresso do morto-vivo

 


Num domingo à noite, sob velas televisivas, Pedro Passos Coelho ergueu-se da cova para o castelo de Maria João Avillez. A anfitriã, noiva de Drácula na hospitalidade com que recebe quem regressa debaixo da terra, serviu o convidado com o desvelo de sempre: ninguém sai magoado de um castelo assim.

Em fevereiro, garantira ao ECO que não tinha desforras para tirar nem andava à procura de nada. Em outubro, anuncia que regressa se o PSD for malsucedido. Resume-se: quem não procura nada confessa, de dentes à mostra, que reza pelo insucesso do próprio partido, esse alheio de que se diz de bem com a vida.

O programa em que se declarou “executivo” mereceu resposta de Mário Centeno, com a graça seca de quem sabe contas: há mais de dez anos que não executa nada. Poderia, sugeriu, ter começado por uma tese de doutoramento. Faltou executar a tese, sobrou a ementa de coveiro.

A entrevista deu ainda a medida do apetite. Passos admite que Ventura pode derrotar o PSD e defende um acordo de regime com o Chega e a IL, enquanto coordena um estudo de reformas para entregar ao Governo e ao Presidente. Montenegro, entre amuado e aflito, lembrou que o partido não deve andar acorrentado ao que está à sua direita. A ADEGA, de Daniel Oliveira, já só lhe faltava um sommelier.

Há quem o compare a Franz von Papen, o conservador que julgava domesticar os radicais, como lembrou Miguel Prata Roque. É exagero: Papen, ao menos, chegou a chanceler. Passos, se tudo correr como sonha, poderá aspirar a ministro das Finanças de Ventura, que não é mau para quem se recusava a ser coveiro de si próprio.

O sebastianismo precisa de nevoeiro, e outubro tem-no, mas os mortos-vivos temem a luz do dia. À luz do dia há quem se lembre dos anos da troika: os salários cortados, as pensões cortadas, os filhos emigrados. O alho e o crucifixo são para os filmes. Para esta cripta, basta a memória.

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