Um senhor
que ganha o equivalente ao orçamento de uma câmara municipal a dar pontapés
numa bola, e que ultimamente falha mais do que acerta, decidiu afastar-se da
seleção, ou talvez ainda não, ou talvez sim — os jornais, por hábito, nunca
distinguem bem a notícia do boato. O país, esse, decidiu tratar o episódio como
luto nacional.
Compreenda-se
a confusão de prioridades: há quem confunda o resultado de um jogo com o
destino da pátria, e esse equívoco tem nome antigo. Samuel Johnson já dizia, há
séculos, que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas. Não precisava de
imaginar quanto a formulação ganharia em exatidão aplicada a um país que
discute em horário nobre o estado de espírito de um avançado, enquanto ignora
olimpicamente a inflação que lhe esvazia o carrinho de compras.
Porque
há, de facto, assuntos a merecer o tempo de antena que se gasta a especular
sobre lesões, convocatórias e adeuses por confirmar. O aquecimento global não
espera pela próxima Liga das Nações para continuar a desregular estações,
incendiar florestas e afogar cidades. As guerras, que os noticiários despacham
em três minutos antes de dedicarem vinte à crise existencial de um balneário,
continuam a matar gente que não tem o privilégio de ser notícia.
O futebol
tem uma vantagem sobre a realidade: não exige ao espectador que pense, apenas
que grite. Oferece inimigo fácil, o árbitro, o adversário, o selecionador;
oferece herói disponível, o capitão; oferece drama sem consequência real,
porque, perdido o jogo, amanhã há sempre outro, e a vida de quem perdeu
continua exatamente igual à de quem ganhou — ao contrário do que sucede a quem
perde a casa ou o salário.
Não se
trata de negar o talento de quem passou duas décadas a fazer o que poucos fazem
com uma bola nos pés. Trata-se de recusar que esse talento, em declínio normal
e previsível como o de qualquer carreira que chega ao fim, seja promovido a
assunto de Estado.
Que o
senhor se reforme quando entender e descanse em paz competitiva. O país devia
reformar-se urgentemente do hábito de confundir o relvado com o que
verdadeiramente importa.

Sem comentários:
Enviar um comentário