sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Orçamento sem almofada

 


Miranda Sarmento apresentou o Orçamento para 2027 com a inquietação de quem sabe a despensa vazia. Excedente de 0,1%, tão raso que o próprio ministro avisa que qualquer medida sem contrapartida atira o país para o défice. Juros da dívida a subirem 23%. Inflação de 2,9% este ano e de 2,3% no próximo. E o fim do PRR, que em 2027 já não existe para tapar buracos: o investimento público, com a bolsa europeia incluída, cai 31%.

Entre a almofada herdada dos governos socialistas e o dinheiro de Bruxelas, a festa foi larga. A conta chega agora, com margem estreitíssima, e com as guerras a encarecer a energia. O ministro e o seu chefe veem os céus escurecer, e as nuvens não vão soprar para outro lado.

Na hora de enfrentar a tempestade, pesa a demagogia com que se quis disfarçar a falta de visão. Baixam-se o IRC e o IRS para a fotografia, enquanto o dinheiro europeu acaba. O PS já garantiu a abstenção, e as nuvens, por ora, não aceleram tanto quanto a instabilidade politica potenciaria.

Convém que as esquerdas aproveitem a pausa para se reforçarem e, no momento certo, encontrarem condições para repetir a Geringonça, desta vez sem a atitude de quem, a contragosto, a formou na esperança de dar um abraço de urso aos parceiros. Aprenda-se com a vizinhança: em Espanha, PSOE e Sumar governam em coligação há quase sete anos, entre tensões e conspirações judiciais e mediáticas. Sanchéz convocou agora eleições para 29 de novembro, com a habitação no centro da campanha, e as sondagens não lhe sorriem. Ninguém garante vitória a quem governa unido, mas a alternativa à união tem-se mostrado pior.

Sobretudo, porque o Governo da AD, sendo de direita, é-o como nenhum outro desde 1974 tão próximo da extrema-direita. Fez dela bengala, e dela se fez bengala, na lei dos estrangeiros, na da nacionalidade e agora na dos despejos. Os banhos de realidade que tais governos proporcionam não deixarão de juntar nas ruas e avenidas os que foram enganados e depressa se sentirão desenganados. Quem então estiver pronto, com programa e unidade, colherá o que a demagogia semeou.

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