Miranda
Sarmento apresentou o Orçamento para 2027 com a inquietação de quem sabe a
despensa vazia. Excedente de 0,1%, tão raso que o próprio ministro avisa que
qualquer medida sem contrapartida atira o país para o défice. Juros da dívida a
subirem 23%. Inflação de 2,9% este ano e de 2,3% no próximo. E o fim do PRR,
que em 2027 já não existe para tapar buracos: o investimento público, com a
bolsa europeia incluída, cai 31%.
Entre a
almofada herdada dos governos socialistas e o dinheiro de Bruxelas, a festa foi
larga. A conta chega agora, com margem estreitíssima, e com as guerras a
encarecer a energia. O ministro e o seu chefe veem os céus escurecer, e as
nuvens não vão soprar para outro lado.
Na hora
de enfrentar a tempestade, pesa a demagogia com que se quis disfarçar a falta
de visão. Baixam-se o IRC e o IRS para a fotografia, enquanto o dinheiro
europeu acaba. O PS já garantiu a abstenção, e as nuvens, por ora, não aceleram
tanto quanto a instabilidade politica potenciaria.
Convém
que as esquerdas aproveitem a pausa para se reforçarem e, no momento certo,
encontrarem condições para repetir a Geringonça, desta vez sem a atitude de
quem, a contragosto, a formou na esperança de dar um abraço de urso aos
parceiros. Aprenda-se com a vizinhança: em Espanha, PSOE e Sumar governam em
coligação há quase sete anos, entre tensões e conspirações judiciais e
mediáticas. Sanchéz convocou agora eleições para 29 de novembro, com a
habitação no centro da campanha, e as sondagens não lhe sorriem. Ninguém
garante vitória a quem governa unido, mas a alternativa à união tem-se mostrado
pior.
Sobretudo,
porque o Governo da AD, sendo de direita, é-o como nenhum outro desde 1974 tão
próximo da extrema-direita. Fez dela bengala, e dela se fez bengala, na lei dos
estrangeiros, na da nacionalidade e agora na dos despejos. Os banhos de
realidade que tais governos proporcionam não deixarão de juntar nas ruas e
avenidas os que foram enganados e depressa se sentirão desenganados. Quem então
estiver pronto, com programa e unidade, colherá o que a demagogia semeou.

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