Algum
tempo atrás, discutindo com alguém próximo sobre a pertinência ou não das teses
de Marx e de Engels, vi-me perante quem defendia elas estarem datadas por os
meios de produção tenderem a ser imateriais numa sociedade dominada pela
Inteligência Artificial. Que assim não é foi o que me propus demonstrar.
Em 1857,
numa Londres sacudida por uma crise que julgava a última, Marx escrevia de
noite, entre credores e artigos de jornal, uns cadernos destinados a só décadas
depois serem lidos por inteiro.
Num
deles, a páginas tantas, via as máquinas a tornarem-se cérebro e o saber social
em força produtiva direta: o “intelecto geral”.
Estranharia
a Inteligência Artificial? Pouco. Era a sua hipótese, com melhor memória.
Dir-se-á
que os meios de produção, outrora de ferro e tijolo, passaram a nuvem e o
capital, enfim, se evaporou. Aparência. A nuvem tem chaminé: centros de dados a
beber energia e água, minas onde se arrancam os metais dos chips, legiões de classificadores
de imagem e texto (no Quénia, a menos de dois dólares à hora, revelou a Time
em 2023). O fetichismo da mercadoria, em versão atualizada, esconde as relações
sociais por trás do brilho do ecrã.
Há mais.
O modelo alimentou-se de séculos de saber coletivo (poemas, teses, receitas,
orações) e devolve-o, mediante assinatura, como propriedade privada. Marx
chamar-lhe-ia bloqueio: os baldios da inteligência vedados por quem chegou
primeiro com o capital.
A
dificuldade teórica é, ainda assim, séria. Treinado o modelo, copiá-lo custa
quase nada, e o valor, medido em tempo de trabalho, esvai-se. O capital passa
então da produção à renda, a que Varoufakis chamou tecnofeudalismo. Marx
discutiria o nome (há marxistas a sustentar que a renda é só outra maneira de
repartir a mais-valia), mas reconheceria a sombra: onde o lucro vem do acesso e
não da fábrica, a classe rendeira volta a ditar a lei.
Quanto ao
trabalho, a contradição agrava-se. A IA encurta o tempo necessário para
produzir, e um sistema habituado a medir a riqueza em horas converte essa
libertação em desemprego e precariedade. As forças produtivas socializam-se à
escala do planeta, enquanto a propriedade continua privada. O velho nó, apenas
mais fino.
(Dirá o
otimista que a máquina trabalha por nós. Pergunta-se: e quem recebe o salário?)
Material
ou imaterial, o capital nunca foi uma coisa, foi sempre uma relação. Máquinas
que pensam não dispensam a pergunta de sempre: de quem são, e a favor de quem?

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