sábado, 31 de outubro de 2026

O capital que já não pesa

 


Algum tempo atrás, discutindo com alguém próximo sobre a pertinência ou não das teses de Marx e de Engels, vi-me perante quem defendia elas estarem datadas por os meios de produção tenderem a ser imateriais numa sociedade dominada pela Inteligência Artificial. Que assim não é foi o que me propus demonstrar.

Em 1857, numa Londres sacudida por uma crise que julgava a última, Marx escrevia de noite, entre credores e artigos de jornal, uns cadernos destinados a só décadas depois serem lidos por inteiro.

Num deles, a páginas tantas, via as máquinas a tornarem-se cérebro e o saber social em força produtiva direta: o “intelecto geral”.

Estranharia a Inteligência Artificial? Pouco. Era a sua hipótese, com melhor memória.

Dir-se-á que os meios de produção, outrora de ferro e tijolo, passaram a nuvem e o capital, enfim, se evaporou. Aparência. A nuvem tem chaminé: centros de dados a beber energia e água, minas onde se arrancam os metais dos chips, legiões de classificadores de imagem e texto (no Quénia, a menos de dois dólares à hora, revelou a Time em 2023). O fetichismo da mercadoria, em versão atualizada, esconde as relações sociais por trás do brilho do ecrã.

Há mais. O modelo alimentou-se de séculos de saber coletivo (poemas, teses, receitas, orações) e devolve-o, mediante assinatura, como propriedade privada. Marx chamar-lhe-ia bloqueio: os baldios da inteligência vedados por quem chegou primeiro com o capital.

A dificuldade teórica é, ainda assim, séria. Treinado o modelo, copiá-lo custa quase nada, e o valor, medido em tempo de trabalho, esvai-se. O capital passa então da produção à renda, a que Varoufakis chamou tecnofeudalismo. Marx discutiria o nome (há marxistas a sustentar que a renda é só outra maneira de repartir a mais-valia), mas reconheceria a sombra: onde o lucro vem do acesso e não da fábrica, a classe rendeira volta a ditar a lei.

Quanto ao trabalho, a contradição agrava-se. A IA encurta o tempo necessário para produzir, e um sistema habituado a medir a riqueza em horas converte essa libertação em desemprego e precariedade. As forças produtivas socializam-se à escala do planeta, enquanto a propriedade continua privada. O velho nó, apenas mais fino.

(Dirá o otimista que a máquina trabalha por nós. Pergunta-se: e quem recebe o salário?)

Material ou imaterial, o capital nunca foi uma coisa, foi sempre uma relação. Máquinas que pensam não dispensam a pergunta de sempre: de quem são, e a favor de quem?

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