Há-de
chamar-se a alguém outra coisa que não aquilo que ele é? A pergunta ficou no ar
depois de Hugo Soares ter chamado aldrabão a André Ventura em pleno hemiciclo,
e de o momento ter dividido opiniões no podcast do Público: Ana Sá Lopes
bateu palmas, Helena Pereira chocou-se com uma atitude tão pouco habitual nos
partidos do outrora chamado arco da governação.
Comece-se
pela ironia óbvia: dificilmente será o líder parlamentar do PSD a figura de
maior legitimidade moral para tal arremesso, ele que tantas vezes reserva a mal
educada picardia para as esquerdas, poupando ao Chega o tratamento equivalente.
Não falta, porém, razão a Ana Sá Lopes em aplaudir o momento, ainda que viesse
de quem viesse.
Porque há
um público que precisa de ser confrontado com a sua deplorável condição: a de
apoiante acéfalo de um... aldrabão. Repita-se, sem eufemismos, que é disso
mesmo que se trata, e não de outra coisa que a linguagem contemporizadora
costuma inventar para não ofender quem já devia estar ofendido consigo próprio.
Ruben
Martins questionava se seria necessário mergulhar na imundície com um porco
para por ele se fazer entender. A pergunta é legítima, mas a resposta é
simples: sim, às vezes é preciso, porque o porco não entende linguagem de
salão, e o eleitorado iludido do Chega tão-pouco costuma reconhecer-se em
eufemismos parlamentares.
Talvez
essa forma de os despertar da sua adesão à pocilga lhes dê, finalmente, vontade
de um longo e higiénico banho. Não é garantido, note-se: há quem se instale na
lama por gosto, não por ignorância, e a esses nenhuma palavra, por mais
certeira, devolve a vergonha que nunca tiveram.
Mas aos
outros, aos que seguem Ventura por desespero social mal direcionado, por raiva
sem norte que a esquerda devia ter captado e não captou, a estes talvez sirva
ouvir, dito sem rodeios, por quem quer que seja, mesmo por quem não tem toda a
legitimidade para o dizer: o homem que seguem é um aldrabão. Chamar-lhe outra
coisa seria a verdadeira indelicadeza, o verdadeiro desrespeito — não para com
ele, que esse já perdeu qualquer direito a consideração, mas para com a
inteligência de quem o ouve.

O adjectivo é á escolha, mas no caso faltou acrescentar o que eu acrescento. O tipo é um ALDRABÃO, mas É O ALDRABÃO DELES.
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