As férias
acabaram, as escolas retomaram os seus ciclos e a política regressa à rua a par
do que se passa no Parlamento.
O Chega
escolheu a porta de casa de Luís Montenegro para protestar contra o preço dos
combustíveis, com o rigor habitual de quem trata os problemas reais como
pretexto para a fotografia: pouca gente, muito microfone, direito garantido a
peça no telejornal. A extrema-direita já percebeu que a rua, para ela, vale
sobretudo como cenário.
Mais
substância têm os que se preparam para outubro. A CGTP anuncia já a
manifestação nacional que dará corpo às reivindicações adiadas de um ano
inteiro de braço-de-ferro laboral. O Livre, por seu turno, promete disputar
palmo a palmo o espaço público a uma extrema-direita que o vem ocupando com
cartazes pagos por patrocinadores que preferem manter-se na sombra do dinheiro
que gastam.
Contra
essa campanha de outdoors, imóvel e bem financiada, intenta-se responder
com agitprop: ação, não propaganda estática, para desmontar as mentiras
de Ventura peça a peça e travar a inversão de sinais que tem feito de qualquer
posição moderada uma acusação de "perigoso esquerdismo". A gramática
do salazarismo sempre soube disfarçar-se de bom senso.
Durante
décadas, quem simpatizava com esse legado escondeu as opiniões, receoso da
vergonha a que a sociedade o condenava — e fazia bem em recear, porque a
vergonha pública é, ainda hoje, um dos poucos instrumentos que resta à decência
coletiva.
É tempo
de repor essa vergonha no seu lugar, devolvendo ao pensamento de
extrema-direita o acantonamento social de que nunca devia ter saído.
Não se
trata de silenciar ninguém, trata-se de recusar a normalização. A rua serve
precisamente para isso: para mostrar, através dos números e da persistência,
que a maioria não comprou o discurso do ódio disfarçado de bom senso — para
dizer, com a força que só a presença física garante, que o espaço público não
se abandona a quem o paga em cartazes.
A
esquerda tem condições históricas – as tais que Marx dizia “materiais” - para
retomar a primazia que foi hesitantemente cedendo. Falta-lhe apenas decidir-se
a ocupá-la.

Sem comentários:
Enviar um comentário