domingo, 13 de setembro de 2026

A necessidade de reocupar a rua

 


As férias acabaram, as escolas retomaram os seus ciclos e a política regressa à rua a par do que se passa no Parlamento.

O Chega escolheu a porta de casa de Luís Montenegro para protestar contra o preço dos combustíveis, com o rigor habitual de quem trata os problemas reais como pretexto para a fotografia: pouca gente, muito microfone, direito garantido a peça no telejornal. A extrema-direita já percebeu que a rua, para ela, vale sobretudo como cenário.

Mais substância têm os que se preparam para outubro. A CGTP anuncia já a manifestação nacional que dará corpo às reivindicações adiadas de um ano inteiro de braço-de-ferro laboral. O Livre, por seu turno, promete disputar palmo a palmo o espaço público a uma extrema-direita que o vem ocupando com cartazes pagos por patrocinadores que preferem manter-se na sombra do dinheiro que gastam.

Contra essa campanha de outdoors, imóvel e bem financiada, intenta-se responder com agitprop: ação, não propaganda estática, para desmontar as mentiras de Ventura peça a peça e travar a inversão de sinais que tem feito de qualquer posição moderada uma acusação de "perigoso esquerdismo". A gramática do salazarismo sempre soube disfarçar-se de bom senso.

Durante décadas, quem simpatizava com esse legado escondeu as opiniões, receoso da vergonha a que a sociedade o condenava — e fazia bem em recear, porque a vergonha pública é, ainda hoje, um dos poucos instrumentos que resta à decência coletiva.

É tempo de repor essa vergonha no seu lugar, devolvendo ao pensamento de extrema-direita o acantonamento social de que nunca devia ter saído.

Não se trata de silenciar ninguém, trata-se de recusar a normalização. A rua serve precisamente para isso: para mostrar, através dos números e da persistência, que a maioria não comprou o discurso do ódio disfarçado de bom senso — para dizer, com a força que só a presença física garante, que o espaço público não se abandona a quem o paga em cartazes.

A esquerda tem condições históricas – as tais que Marx dizia “materiais” - para retomar a primazia que foi hesitantemente cedendo. Falta-lhe apenas decidir-se a ocupá-la.

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