sábado, 5 de setembro de 2026

A arte da comoção agendada

 


Há um ano morriam dezasseis pessoas no Elevador da Glória. Há uma semana, dezasseis blocos de calcário e uma oliveira centenária vieram substituir-lhes a memória, com pompa e a devida distância dos jornalistas, mantidos nas imediações por indicação da Câmara.

Carlos Moedas falou de dever, de gratidão, de nunca esquecer nenhum nome. Não falou dos relatórios técnicos que não chegaram, dos processos disciplinares que não avançaram, das indemnizações que não saíram. Não falou, sobretudo, do ano de silêncio que as próprias vítimas e familiares vieram denunciar em carta aberta, um dia antes da cerimónia: contactados uma única vez pela autarquia, para receberem o convite da inauguração.

É neste desencontro entre a palavra e o gesto que Moedas melhor se revela. Um autarca que confunde memória com escultura, luto com fotografia, responsabilidade com oliveira. Perante a carta das famílias, foi parco em explicações; perante as câmaras, generoso em comoção. A um ano de distância, o rosto compungido repete-se com a pontualidade de quem sabe exatamente quando a tragédia rende mais em imagem do que em obrigação.

Não há aqui contradição, há método. O mesmo homem que gere a cidade sem lhe resolver os problemas de fundo, geriu o luto sem responder às perguntas de fundo: as das vítimas, as das sequelas físicas e psicológicas dos sobreviventes por comprovar em indemnização.

A Moedas, dezasseis blocos de pedra e um discurso sobre memória, cuidadosamente cronometrado para a véspera de outra qualquer notícia.

Fica a cidade com um monumento. Ficam os sobreviventes sem resposta. E fica o autarca, entre um e outros, a gerir aquilo que sempre geriu melhor: não a tragédia, mas a sua exposição pública.

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