Há um ano
morriam dezasseis pessoas no Elevador da Glória. Há uma semana, dezasseis
blocos de calcário e uma oliveira centenária vieram substituir-lhes a memória,
com pompa e a devida distância dos jornalistas, mantidos nas imediações por
indicação da Câmara.
Carlos
Moedas falou de dever, de gratidão, de nunca esquecer nenhum nome. Não falou
dos relatórios técnicos que não chegaram, dos processos disciplinares que não
avançaram, das indemnizações que não saíram. Não falou, sobretudo, do ano de
silêncio que as próprias vítimas e familiares vieram denunciar em carta aberta,
um dia antes da cerimónia: contactados uma única vez pela autarquia, para
receberem o convite da inauguração.
É neste
desencontro entre a palavra e o gesto que Moedas melhor se revela. Um autarca
que confunde memória com escultura, luto com fotografia, responsabilidade com
oliveira. Perante a carta das famílias, foi parco em explicações; perante as
câmaras, generoso em comoção. A um ano de distância, o rosto compungido
repete-se com a pontualidade de quem sabe exatamente quando a tragédia rende
mais em imagem do que em obrigação.
Não há
aqui contradição, há método. O mesmo homem que gere a cidade sem lhe resolver
os problemas de fundo, geriu o luto sem responder às perguntas de fundo: as das
vítimas, as das sequelas físicas e psicológicas dos sobreviventes por comprovar
em indemnização.
A Moedas,
dezasseis blocos de pedra e um discurso sobre memória, cuidadosamente
cronometrado para a véspera de outra qualquer notícia.
Fica a
cidade com um monumento. Ficam os sobreviventes sem resposta. E fica o autarca,
entre um e outros, a gerir aquilo que sempre geriu melhor: não a tragédia, mas
a sua exposição pública.

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