(Terceiro
de uma série de textos sugeridos pelo excelente podcast de Mariana Mortágua no
“Publico” – “ Senhores do Algoritmo” - que muito informou sobre o tema)
Se nos
dois primeiros capítulos analisámos a génese teórica e o projeto político do Dark
Enlightenment, cumpre agora examinar a sua materialização concreta.
O
Iluminismo das Trevas deixou de ser uma especulação de fóruns marginais para tornar-se
o credo operacional de uma casta de bilionários do ecossistema de Silicon
Valley. No topo dessa pirâmide sobressaem duas figuras tutelares: Peter Thiel e
Elon Musk.
Eles não
representam apenas a acumulação sem precedentes de capital financeiro; encarnam
uma mutação do poder soberano. Ao contrário dos capitães de indústria do século
XX, que operavam dentro do enquadramento e do controlo regulatório dos
Estados-nação, estes novos barões tecnológicos construíram impérios que
monopolizam os meios de comunicação, transporte, exploração espacial e
inteligência artificial da humanidade. São os arquitetos de uma nova ordem neofeudal,
onde a autoridade pública é progressivamente eclipsada pela vontade individual
de megaproprietários inimputáveis.
Se o
movimento neoreacionário precisasse de uma declaração de fundação assinada por
um magnata, ela seria a afirmação categórica feita por Peter Thiel em 2009: "Já
não acredito que a liberdade e a democracia sejam compatíveis".
Cofundador
do PayPal, da Palantir Technologies e um dos primeiros investidores do
Facebook, Thiel traduziu o pensamento neoreacionário em práxis financeira e
política. A sua tese é límpida: o processo democrático, ao permitir que a
maioria decida sobre a tributação e a regulação, sufoca a inovação e o
capitalismo de rotura. Para Thiel, a "liberdade" não é um direito
coletivo exercido na praça pública, mas sim a prerrogativa absoluta do
indivíduo excecional de operar acima da lei e das instituições.
Através
da Palantir — empresa de processamento de dados e vigilância preditiva que
fornece serviços ao Pentágono, às agências de informação e às forças policiais
—, Thiel construiu o sistema de controlo informacional que o Estado-Empresa
necessita. Ao mesmo tempo, financia sistematicamente candidatos e movimentos
políticos dedicados ao enfraquecimento das estruturas democráticas por dentro,
promovendo a criação de "jurisdições livres" (seasteading,
enclaves privados e cidades autónomas) onde as corporações possam governar sem
interferência estatal.
Enquanto
Thiel atua frequentemente como o ideólogo discreto, Elon Musk é a face pública
e espetacular desta nova oligarquia. O seu vasto império — SpaceX, Tesla,
Starlink, xAI e a rede social X (anteriormente Twitter) — não constitui apenas
um conjunto de empresas altamente lucrativas, mas sim uma infraestrutura
crítica de governação global.
A
aquisição do Twitter/X por Musk forneceu um exemplo paradigmático de como o
poder oligárquico molda o espaço público. Sob o pretexto de uma "liberdade
de expressão absoluta", a plataforma foi reconfigurada para amplificar
narrativas de extrema-direita, desmantelar os mecanismos de moderação de dados
e atacar sistematicamente as instituições democráticas e o escrutínio
jornalístico. O algoritmo da rede tornou-se um megafone pessoal e ideológico,
demonstrando como a esfera do debate público pode ser privatizada e capturada
pela vontade de um único homem.
Mais
grave ainda é o domínio exercido através da rede de satélites Starlink e da
SpaceX. Ao deter o monopólio de facto das comunicações orbitais e do
transporte espacial, Musk passou a exercer um veto geopolítico sobre conflitos
militares e decisões de soberania nacional, decidindo unilateralmente que
países ou forças armadas têm acesso à conectividade em momentos vitais. Quando
um indivíduo privado possui o poder de ligar ou desligar a infraestrutura
estratégica de nações soberanas, a democracia já foi ultrapassada pelo
absolutismo tecnológico.
A
consolidação do poder destas figuras desenha um mapa social que recupera a
estrutura do feudalismo medieval.
Neste
modelo, os utilizadores das plataformas digitais e os cidadãos dependentes
destas redes atuam como os novos servos da gleba. Não possuem a terra (os
servidores, os dados, a infraestrutura), mas pagam-lhe tributo diário com atenção,
dados pessoais e trabalho imaterial. Os oligarcas são os senhores feudais que
detêm os castelos digitais e as rotas de comércio, oferecendo
"proteção" e funcionalidade em troca de submissão total às suas
regras privadas e arbitrárias.
A transição para este novo absolutismo não se faz por um golpe militar tradicional, mas pela entrega progressiva das funções soberanas do Estado às empresas destes barões tecnológicos. Ao abdicar do controlo sobre a moeda, a informação, a defesa e a infraestrutura, a sociedade democrática prepara a sua própria dissolução, curvando-se perante uma elite de bilionários que se veem a si mesmos como os únicos legítimos herdeiros e governantes do futuro humano.

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