segunda-feira, 7 de setembro de 2026

A aritmética da inocência

 


Mais uma segunda-feira, mais um aumento nos combustíveis. Os portugueses já sabem de cor o gesto: encher o depósito ao domingo à noite, como quem foge de uma tempestade anunciada.

José Luís Carneiro fez as contas, e as contas não perdoam. Mil e quarenta e oito milhões de euros embolsados pelo Governo em impostos sobre combustíveis, só entre 2024 e 2025. Mais mil e setenta milhões de IVA extra, só entre janeiro e julho deste ano, por cortesia da inflação que o próprio Governo diz combater. Dois anos, dois números, uma só direção: a dos cofres do Estado, a partir do bolso de quem enche o depósito para ir trabalhar.

A resposta do Governo não desmentiu um único algarismo, preferiu mudar de assunto. Hugo Soares acusou Carneiro de viver no passado, de estar mal habituado aos tempos de António Costa. Não explicou por que motivo um Governo que critica o passado insiste em repetir-lhe a então verberada receita, cobrando mais quanto mais cara fica a vida a quem já pouco tem. Defendeu o ISP como resposta social, calado quanto ao IVA que este mesmo Governo recusou, por três vezes, reduzir na Assembleia da República.

Há um desnorte próprio em quem ataca sem argumento, como o elefante que entra na loja de porcelanas convencido de estar a limpá-la. Move-se muito, quebra tudo à volta, e no fim gaba-se de ter deixado a loja mais arrumada. Assim se defende este Governo: não pelos números, que não tem, mas pelo ruído, que sobra.

Entretanto, chega segunda-feira, e com ela o aumento de nos combustíveis. As contas certas de que tanto se orgulha o Governo são, afinal, as contas de outros: dos que pagam mais por litro de gasóleo e de gasolina, para que a folha de balanço do Estado continue a parecer saudável. Contas certas por fora, buraco por dentro, tapado com o dinheiro de quem menos tem para tapar buracos alheios.

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