Houve um
tempo em que a escola pública garantia duas coisas: professor e lugar. Este
ano, o Ministério de Fernando Alexandre já não assegura nenhuma das duas, e o
PS, entre eufemismos habituais, resolveu finalmente chamar-lhe o pior ministro
da Educação da democracia.
Os
números não deixam margem para a retórica ministerial do costume. Na semana de
sete a onze de setembro, as escolas lançaram 1453 horários por preencher, mais
do que os 1372 do ano anterior, enquanto entre setembro e outubro se reformam
1102 professores, duzentos a mais do que em igual período do ano passado. A
Fenprof estima em cento e dez mil os alunos afetados só por esta via.
O
agravamento não fica pelos horários vazios. Em Sintra há 744 alunos sem vaga,
em Lisboa 576, crianças que não chegaram ontem a Portugal, apenas mudaram de
morada ou quiseram trocar de escola — direito básico que a rede pública, este
ano, simplesmente não consegue cumprir.
A raiz do
colapso tem nome técnico e efeito devastador: a extinção da Dgeste e a sua
substituição pela Agência para a Gestão do Sistema Educativo esvaziou o
Ministério do pessoal que fazia a máquina funcionar, sem que a nova estrutura,
mais autónoma no papel, tenha ganhado capacidade real de decisão. As escolas
podem matricular, mas não podem abrir turmas nem vagas; a Agência, com menos
funcionários do que a Dgeste, já não tem quem atenda presencialmente os
encarregados de educação que antes encontravam porta aberta.
O
ministro que, sobre os exames digitais falhados, assumiu a responsabilidade
final por decisão própria, repete agora o mesmo padrão: geriu mal, sozinho, sem
rede. Desta vez não há outsourcing de consultores que resolva o
problema, porque ele é precisamente a falta da estrutura humana que geria estes
processos sem precisar de consultor nenhum.
O PS já
ameaça com comissão de inquérito, o PCP fala em enfraquecimento deliberado da
escola pública, o Livre e o Bloco perguntam quantos alunos continuam sem
colocação. Cada partido escolhe o seu ângulo de indignação, mas o diagnóstico
converge: um ministério que se desmantelou a si próprio e agora finge
investigar as consequências da própria demolição.
Não é
falta de professores apenas, é falta de Estado. E um Estado que se recusa a
administrar-se deixa, no fim, a criança em casa à espera de resposta, enquanto
o ano letivo já decorre sem ela.

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