sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O folclore e a água que ninguém mede

 

Ventura falou sozinho. A moção de censura teve o destino que já se sabia ao início: cento e quatro votos contra, sessenta a favor — os do próprio Chega — e o resto em abstenção silenciosa. Nenhum partido lhe deu a dignidade de uma pergunta, todos lhe deram o desdém de um adjetivo. É a única unanimidade possível nesta legislatura: a de tratar o folclore como folclore.

Montenegro, esse, aproveitou o palco alheio para o discurso próprio. Um bónus de quatrocentos milhões para pensionistas, uma descida de IRS de outros tantos, anunciados como dádiva na hora exata em que convinha mudar de assunto. Oitocentos milhões, no total, que soam a muito e valem pouco: menos de metade dos mais de dois mil milhões que o mesmo Governo arrecadou, nestes dois anos, com impostos sobre combustíveis e com o IVA que a inflação lhe foi entregando de bandeja. Devolve-se moedas do que se cobrou em notas, e chama-se a isso contas certas.

Entretanto, o país seca, e não por acidente. Um jornalista teve de fazer dez pedidos de informação e ir a tribunal para descobrir o óbvio: a Agência Portuguesa do Ambiente não sabe quem consome a água nem quanta. As subterrâneas continuam propriedade de quem tem o terreno por cima, pagam taxas simbólicas e não têm medição. Assim se explica que a Sonae Arauco beba sozinha um oitavo da água de Mangualde, enquanto o concelho vizinho recorria a camiões-cisterna, e que um resort algarvio, a 1500 euros a noite, exiba um selo de sustentabilidade por oferecer água engarrafada aos

hóspedes que lhe esvaziam o aquífero.

O Estado sabe menos da água que temos do que dos centros de dados que promete atrair — um só, em Sines, vai consumir tanta eletricidade como três, quatro, cinco cidades médias, sem que o plano nacional lhe exija sequer declarar o que gasta.

Três histórias, um só fio: o poder a gerir a atenção pública com a mesma desenvoltura com que evita geri-la na realidade. Ao Chega, dá-se o silêncio que os seus argumentos merecem. Aos pensionistas, dá-se o bónus que os números não justificam. À água que resta, não se dá preço nem medida — porque essa conta, ao contrário das outras duas, ninguém a quer fazer antes de a seca a apresentar em camiões-cisterna.

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