Ventura
falou sozinho. A moção de censura teve o destino que já se sabia ao início:
cento e quatro votos contra, sessenta a favor — os do próprio Chega — e o resto
em abstenção silenciosa. Nenhum partido lhe deu a dignidade de uma pergunta,
todos lhe deram o desdém de um adjetivo. É a única unanimidade possível nesta
legislatura: a de tratar o folclore como folclore.
Montenegro,
esse, aproveitou o palco alheio para o discurso próprio. Um bónus de
quatrocentos milhões para pensionistas, uma descida de IRS de outros tantos,
anunciados como dádiva na hora exata em que convinha mudar de assunto.
Oitocentos milhões, no total, que soam a muito e valem pouco: menos de metade
dos mais de dois mil milhões que o mesmo Governo arrecadou, nestes dois anos,
com impostos sobre combustíveis e com o IVA que a inflação lhe foi entregando
de bandeja. Devolve-se moedas do que se cobrou em notas, e chama-se a isso
contas certas.
O Estado sabe menos da água que temos do que
dos centros de dados que promete atrair — um só, em Sines, vai consumir tanta
eletricidade como três, quatro, cinco cidades médias, sem que o plano nacional
lhe exija sequer declarar o que gasta.
Três
histórias, um só fio: o poder a gerir a atenção pública com a mesma
desenvoltura com que evita geri-la na realidade. Ao Chega, dá-se o silêncio que
os seus argumentos merecem. Aos pensionistas, dá-se o bónus que os números não
justificam. À água que resta, não se dá preço nem medida — porque essa conta,
ao contrário das outras duas, ninguém a quer fazer antes de a seca a apresentar
em camiões-cisterna.

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