Talvez
seja reflexo das simpatias juvenis pela versão que o Diário da China dava de si
própria, antes de virem a lume os desvarios da Revolução Cultural, mas a
estadia durante dois meses em Xangai em 1998 e algumas visitas episódicas a
Pequim justificaram a admiração por certas características do povo chinês,
mormente a milenar paciência e a determinação em chegar a objetivos que lhe
pareceriam vedados.
Há vinte
e oito anos espantei-me com a rapidez investida na transformação daquela grande
metrópole na foz do Iansequião. E com a curiosidade nunca satisfeita dos
intérpretes que nos apoiavam, sequiosos de saber tudo sobre os avanços
ocidentais.
Acredito
que a reação das autoridades de Pequim ao alvoroço dos últimos dias, esse que
levou Dario Amodei, da Anthropic, secundado por Sam Altman e por Elon Musk, a
proporem travões ao desenvolvimento da inteligência artificial, foi lida em
Washington como oportunidade, não como ameaça. Para as empresas
norte-americanas, ainda na liderança da IA, seria cómodo dotarem-se de regras
que lhes preservassem essa dianteira, replicando os manuais gastos da Guerra
Fria: primeiro assusta-se o mundo, depois regula-se em proveito próprio.
Não contam,
porém, com as tais idiossincrasias chinesas. É questão de meses até a DeepSeek
ou a Kimi rivalizarem com quem hoje surfa o anúncio catastrofista saído da
demissão de Jacob Coxon, o investigador que abandonou a Anthropic a acusar os
laboratórios de "apostarem com as nossas vidas".
E há uma
ironia que os arautos do apocalipse tecnológico preferem não sublinhar:
soube-se, por estes mesmos dias, que já existem armas em órbita da Terra — e
são norte-americanas. A Força Espacial confirmou-o, pela primeira vez, sem
adiantar detalhes.
Enquanto
se pede ao mundo que tema o algoritmo alheio, guarda-se em silêncio o arsenal
próprio, já lançado, operacional, apontado a quem quer que ouse disputar a
supremacia.
A
paciência chinesa, essa que Xangai me ensinou a respeitar, não se mede em
trimestres de resultados nem em comunicados de imprensa apocalípticos. Mede-se
em décadas. E é essa a variável que os profetas do medo, tão apressados a
regular os outros, continuam a subestimar.

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