quarta-feira, 16 de setembro de 2026

A paciência milenar e o pânico ocidental

 


Talvez seja reflexo das simpatias juvenis pela versão que o Diário da China dava de si própria, antes de virem a lume os desvarios da Revolução Cultural, mas a estadia durante dois meses em Xangai em 1998 e algumas visitas episódicas a Pequim justificaram a admiração por certas características do povo chinês, mormente a milenar paciência e a determinação em chegar a objetivos que lhe pareceriam vedados.

Há vinte e oito anos espantei-me com a rapidez investida na transformação daquela grande metrópole na foz do Iansequião. E com a curiosidade nunca satisfeita dos intérpretes que nos apoiavam, sequiosos de saber tudo sobre os avanços ocidentais.

Acredito que a reação das autoridades de Pequim ao alvoroço dos últimos dias, esse que levou Dario Amodei, da Anthropic, secundado por Sam Altman e por Elon Musk, a proporem travões ao desenvolvimento da inteligência artificial, foi lida em Washington como oportunidade, não como ameaça. Para as empresas norte-americanas, ainda na liderança da IA, seria cómodo dotarem-se de regras que lhes preservassem essa dianteira, replicando os manuais gastos da Guerra Fria: primeiro assusta-se o mundo, depois regula-se em proveito próprio.

Não contam, porém, com as tais idiossincrasias chinesas. É questão de meses até a DeepSeek ou a Kimi rivalizarem com quem hoje surfa o anúncio catastrofista saído da demissão de Jacob Coxon, o investigador que abandonou a Anthropic a acusar os laboratórios de "apostarem com as nossas vidas".

E há uma ironia que os arautos do apocalipse tecnológico preferem não sublinhar: soube-se, por estes mesmos dias, que já existem armas em órbita da Terra — e são norte-americanas. A Força Espacial confirmou-o, pela primeira vez, sem adiantar detalhes.

Enquanto se pede ao mundo que tema o algoritmo alheio, guarda-se em silêncio o arsenal próprio, já lançado, operacional, apontado a quem quer que ouse disputar a supremacia.

A paciência chinesa, essa que Xangai me ensinou a respeitar, não se mede em trimestres de resultados nem em comunicados de imprensa apocalípticos. Mede-se em décadas. E é essa a variável que os profetas do medo, tão apressados a regular os outros, continuam a subestimar.

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