Confirmou-se:
o que parecia o início de uma vaga era, afinal, a sua última investida. A
vitória esmagadora da AfD na Saxónia-Anhalt, com 43,8% dos votos a 6 de
setembro, ficará registada como o pico de uma maré que já começou a baixar.
A prova
chegou ontem, com dupla força. Na Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD
venceu, mas a CDU nem sequer superou a barreira dos 5%, ficando fora do
parlamento: a direita tradicional, de tantas cumplicidades com a
extrema-direita, está a ser por ela vampirizada. As esquerdas, somando
social-democratas, verdes e Die Linke, reúnem contudo maioria de mandatos
suficiente para formar governo.
Em
Berlim, o Die Linke tornou-se, pela primeira vez na sua história, a força mais
votada, com uma coligação de esquerda a somar maioria clara sobre qualquer
alternativa dominada pela CDU. A coligação CDU-SPD que governava a capital
alemã foi taxativamente afastada pelos eleitores.
Junte-se
a isto o que já se sabia da Suécia, onde a vitória do bloco de esquerda,
liderado por Magdalena Andersson, se deveu sobretudo à queda acentuada dos
votos na extrema-direita: os Democratas Suecos perderam cerca de onze
deputados. Estamos, tudo indica, perante o momento em que a maré muda de
sentido de facto, não apenas na expectativa.
Por cá, o
retrato mantém-se menos animador. Montenegro ostenta o medo que o assombra,
incapaz de engenho ou de meios para responder às graves ameaças que pendem
sobre os portugueses, refugiando-se em monólogos sem perguntas dos jornalistas,
onde até Trump lhe serve de bode expiatório. Fernando Alexandre continua a
alijar responsabilidades pela falta de professores e de vagas nas escolas, e o
inenarrável Carlos Moedas descobriu no sistema Volta a causa do lixo em Lisboa,
esquecendo que já acusava as freguesias do mesmo problema antes de a medida
sequer existir.
As
sondagens continuam a dar ao PS a liderança das intenções de voto, mas uma
parte substancial dos eleitores continua esquecida da consciência de classe,
iludindo-se com o covil de oportunistas, mentirosos e delinquentes que tem em
Ventura o seu capo.
Fica a
lição de fora: a maré vira-se com organização, com forças de implantação social
real a somarem-se, não com vaidades fundadoras. É essa a lição que a Alemanha e
a Suécia acabam de dar, e que continua por aprender aos que, por cá, insistem
em fundar mais um partido à esquerda em vez de reforçar os que já existem.

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