segunda-feira, 21 de setembro de 2026

A maré vira

 


Confirmou-se: o que parecia o início de uma vaga era, afinal, a sua última investida. A vitória esmagadora da AfD na Saxónia-Anhalt, com 43,8% dos votos a 6 de setembro, ficará registada como o pico de uma maré que já começou a baixar.

A prova chegou ontem, com dupla força. Na Meclemburgo-Pomerânia Ocidental, a AfD venceu, mas a CDU nem sequer superou a barreira dos 5%, ficando fora do parlamento: a direita tradicional, de tantas cumplicidades com a extrema-direita, está a ser por ela vampirizada. As esquerdas, somando social-democratas, verdes e Die Linke, reúnem contudo maioria de mandatos suficiente para formar governo.

Em Berlim, o Die Linke tornou-se, pela primeira vez na sua história, a força mais votada, com uma coligação de esquerda a somar maioria clara sobre qualquer alternativa dominada pela CDU. A coligação CDU-SPD que governava a capital alemã foi taxativamente afastada pelos eleitores.

Junte-se a isto o que já se sabia da Suécia, onde a vitória do bloco de esquerda, liderado por Magdalena Andersson, se deveu sobretudo à queda acentuada dos votos na extrema-direita: os Democratas Suecos perderam cerca de onze deputados. Estamos, tudo indica, perante o momento em que a maré muda de sentido de facto, não apenas na expectativa.

Por cá, o retrato mantém-se menos animador. Montenegro ostenta o medo que o assombra, incapaz de engenho ou de meios para responder às graves ameaças que pendem sobre os portugueses, refugiando-se em monólogos sem perguntas dos jornalistas, onde até Trump lhe serve de bode expiatório. Fernando Alexandre continua a alijar responsabilidades pela falta de professores e de vagas nas escolas, e o inenarrável Carlos Moedas descobriu no sistema Volta a causa do lixo em Lisboa, esquecendo que já acusava as freguesias do mesmo problema antes de a medida sequer existir.

As sondagens continuam a dar ao PS a liderança das intenções de voto, mas uma parte substancial dos eleitores continua esquecida da consciência de classe, iludindo-se com o covil de oportunistas, mentirosos e delinquentes que tem em Ventura o seu capo.

Fica a lição de fora: a maré vira-se com organização, com forças de implantação social real a somarem-se, não com vaidades fundadoras. É essa a lição que a Alemanha e a Suécia acabam de dar, e que continua por aprender aos que, por cá, insistem em fundar mais um partido à esquerda em vez de reforçar os que já existem.

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