terça-feira, 22 de setembro de 2026

Liturgias

 


Há os governos dedicados aos factos e os dedicados aos ritos. Estes tempos pertencem aos segundos: quando a realidade incomoda, oficia-se uma cerimónia, e ela faz as vezes da realidade.

Em Cascais, a nova Escola Secundária abriu com placa descerrada e bênção do patriarca de Lisboa. Numa escola pública de um Estado laico, frequentada por filhos de todos os credos e de nenhum, a água benta caiu sobre o betão do PRR perante um Presidente da República condescendente. O rito cumpriu a função. Ninguém falou dos alunos ainda sem vaga à beira de outubro, entre eles crianças com necessidades educativas específicas, nem dos professores em falta. Seguro preferiu o elevador social. Fernando Alexandre, dois anos e meio de trapalhadas, seguiu a comitiva à distância.

A inflação tem também o seu missal. O índice oficial marca 3,3%, e o Governo responde com a quinta descida do IRS, entre 1,7 e 12 euros mensais. Fora do cânone ficam o cabaz básico da DECO, com uma subida de 6% num ano, e a prestação da casa, presa à Euribor e contabilizada como investimento. A estatística absolve; a carteira não se deixa convencer.

Em Israel, a liturgia chega ao anátema. Yuval Abraham e Rachel Szor, israelitas, levaram a Veneza NAZA, com testemunhos de militares sobre alvos escolhidos por inteligência artificial em Gaza, e trouxeram o Prémio Especial do Júri. O ministro da Cultura declarou-os traidores e prometeu retirar-lhes a cidadania; Netanyahu anunciou lei para o efeito. Excomunga-se quem mostra, perdoa-se a quem mata: no mesmo fim de semana, Herzog indultou um soldado pela execução de um palestiniano ferido e caído no chão.

Esse credo faz prosélitos. As direitas latino-americanas, observa Manuel Loff, veem em Israel um modelo de suprematismo étnico, fervor religioso e tecnologia de guerra, o tecnofascismo em versão de exportação. Converter-se é fácil. Difícil será explicar a fé às populações empobrecidas pelas políticas dos convertidos.

Há, porém, um fenómeno imune a cerimónias. A NOAA atribui mais de 90% de probabilidade a um El Niño muito forte neste outono e inverno, e 75% a um episódio sem precedentes desde 1950. Os cientistas avisam: o recorde de agora anuncia e não encerra, e o pior chega em 2027.

Ao Pacífico nenhum patriarca estende o hissope. Será talvez o único a ignorar a liturgia e a cobrar a fatura a todos os fiéis, crentes ou não.

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