Há os governos
dedicados aos factos e os dedicados aos ritos. Estes tempos pertencem aos
segundos: quando a realidade incomoda, oficia-se uma cerimónia, e ela faz as
vezes da realidade.
Em
Cascais, a nova Escola Secundária abriu com placa descerrada e bênção do
patriarca de Lisboa. Numa escola pública de um Estado laico, frequentada por
filhos de todos os credos e de nenhum, a água benta caiu sobre o betão do PRR
perante um Presidente da República condescendente. O rito cumpriu a função.
Ninguém falou dos alunos ainda sem vaga à beira de outubro, entre eles crianças
com necessidades educativas específicas, nem dos professores em falta. Seguro
preferiu o elevador social. Fernando Alexandre, dois anos e meio de
trapalhadas, seguiu a comitiva à distância.
A
inflação tem também o seu missal. O índice oficial marca 3,3%, e o Governo
responde com a quinta descida do IRS, entre 1,7 e 12 euros mensais. Fora do
cânone ficam o cabaz básico da DECO, com uma subida de 6% num ano, e a
prestação da casa, presa à Euribor e contabilizada como investimento. A
estatística absolve; a carteira não se deixa convencer.
Em
Israel, a liturgia chega ao anátema. Yuval Abraham e Rachel Szor, israelitas,
levaram a Veneza NAZA, com testemunhos de militares sobre alvos
escolhidos por inteligência artificial em Gaza, e trouxeram o Prémio Especial
do Júri. O ministro da Cultura declarou-os traidores e prometeu retirar-lhes a
cidadania; Netanyahu anunciou lei para o efeito. Excomunga-se quem mostra,
perdoa-se a quem mata: no mesmo fim de semana, Herzog indultou um soldado pela
execução de um palestiniano ferido e caído no chão.
Esse
credo faz prosélitos. As direitas latino-americanas, observa Manuel Loff, veem
em Israel um modelo de suprematismo étnico, fervor religioso e tecnologia de
guerra, o tecnofascismo em versão de exportação. Converter-se é fácil. Difícil
será explicar a fé às populações empobrecidas pelas políticas dos convertidos.
Há,
porém, um fenómeno imune a cerimónias. A NOAA atribui mais de 90% de
probabilidade a um El Niño muito forte neste outono e inverno, e 75% a um
episódio sem precedentes desde 1950. Os cientistas avisam: o recorde de agora
anuncia e não encerra, e o pior chega em 2027.
Ao Pacífico nenhum patriarca estende o hissope. Será talvez o único a ignorar a liturgia e a cobrar a fatura a todos os fiéis, crentes ou não.

Sem comentários:
Enviar um comentário