(Terceiro
de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que as personagens são
reais e apenas os factos foram postos de férias.)
Há homens
que nascem para ter razão, e é a maior desgraça que lhes pode acontecer. Sérgio
Sousa Pinto é um deles. Diz a mitologia socialista que veio ao mundo já a
discordar — do obstetra, do método, do rumo geral do parto — e que as suas
primeiras palavras não foram "mamã" nem "papá", mas
"convém não confundir".
Fez
carreira no Partido Socialista como quem cumpre uma pena de fidelidade a uma
casa que teima em não lhe dar ouvidos. E, no entanto, tinha razão. Tinha-a
sempre, com a pontualidade de um relógio de estação e a solidão de um farol.
Avisou. Alertou. Preveniu. Recuou aos clássicos, citou Tucídides ao
pequeno-almoço, invocou a Constituição de 76 como quem invoca os antepassados,
e o partido, invariavelmente, agradecia com um sorriso e fazia o contrário.
Em 2015
demitiu-se da direção por discordar da Geringonça. Tinha, aos seus olhos,
razão. O partido governou quatro anos e achou que não. Esta discrepância entre
a razão de Sérgio e os resultados do mundo tornou-se o drama central da sua
existência — uma tragédia grega encenada no Largo do Rato, com coro de
militantes distraídos e um protagonista condenado a acertar sozinho.
O momento
sublime chegou em maio de 2025, quando, perante o desastre eleitoral que
anunciara, Sérgio proferiu a frase que merece figurar nas antologias da
melancolia lusitana: "Nunca me passou pela cabeça que ter razão fosse um
desastre desta ordem." Nela cabe o homem inteiro. Nenhum dramaturgo
ousaria tanto. Cassandra, ao menos, tinha a decência de ser ignorada por
deuses; Sérgio é ignorado por congressos, o que é bem mais humilhante.
A sua
oratória é um caso à parte. Sérgio não fala: discursa. Não conversa: perora.
Pedir-lhe um favor é receber em troca uma oração de Cícero com introdução,
desenvolvimento e peroração, ao fim da qual já não nos lembramos do favor mas
saímos convencidos da decadência do Ocidente. Dizem os que com ele almoçaram
que encomendar a sobremesa pode consumir quarenta minutos e uma citação de
Camões, e que o café chega sempre frio, arrefecido pela extensão do parágrafo
anterior.
O drama
de Sérgio, o verdadeiro, é este: ter nascido eloquente num tempo de slogans,
profundo num tempo de tweets, clássico num tempo de Chega. É um homem do século
XIX condenado a comentar o século XXI, e a fazê-lo com um vocabulário que os
seus interlocutores precisam de traduzir. Quando alerta para o fascismo
recuando cem anos, os adversários perguntam-lhe, com maldade, se não
conseguiria recuar apenas vinte para explicar os erros do próprio partido.
Sérgio olha-os com a tristeza de quem sabe que tinha razão também nisso, mas
que ninguém irá reconhecê-lo antes de ser demasiado tarde.
Dizem
que, à noite, Sérgio Sousa Pinto relê os próprios discursos e comove-se. É o
único público garantido de que dispõe — e, convenhamos, o mais bem preparado
para o apreciar.

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