quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Um parêntesis encerrado e outro a anunciar fechar-se?

 


1. Numa entrevista a Luís Caetano o escritor João Tordo confessava já ter alterado o ano em que situara a história de um seu novo romance porque não seria crível a ação acontecer numa altura em que a pandemia estava omnipresente. Tal como aconteceu em 2020, este início do novo ano está tão condicionado a esta permanente urgência sanitária, que nenhum outro acontecimento se lhe equipara em importância. Até nem mesmo o longo estertor do trumpismo, porventura acelerado por essa circunstância contextual. Quero crer que, daqui a uns anos, quando olharmos para trás e revisitarmos estes dois na memória será a covid-19 que evocaremos mais facilmente porque a personagem de Trump será daquelas esdrúxulas anormalidades alimentadas pela História, depressa reduzidas à condição de entre parêntesis num decurso racional da sua dinâmica enquanto evolução da global luta de classes. E Biden nem terá de fazer muito para que a mesma História o registe como homem normal semelhante àqueles que conhecemos nos filmes de Capra ou no «Young Mister Lincoln» de John Ford, ao limitar-se a devolver alguma sensatez a um cargo durante quatro anos dela tão privado.

2. Sensatez também a que está a ser intuída tardiamente pelos brexiteers, que acreditaram nas promessas dos BoJos, Farage & Cª e agora descobrem os efeitos inesperados da sua xenófoba militância. É certo que o Guardian sempre esteve do lado dos remainers, mas o artigo de Polly Toynbee dá nome e rosto a quem julgava que a vida melhoria a partir do momento em que se concretizasse a separação da União Europeia e agora padece a ameaça de falência ou de desemprego. Pescadores, produtores de vestuário barato ou criadores de gado descobrem que as taxas alfandegárias tornam inviáveis os seus negócios perante os custos mais baixos dos concorrentes inseridos no mercado interno europeu. Mas, nesta primeira fase, ainda resistem em autocensurarem-se a si mesmos, atribuindo as culpas ao governo por ter assinado aquilo que consideram ter sido um ruim acordo com Bruxelas. Resta perceber se a inevitável queda dos conservadores será aproveitada pela extrema-direita, se pelos trabalhistas. No caso destes últimos Keir Starmer pareceu ser a escolha certa num primeiro momento antes de apoiar, se não mesmo liderar, a tentativa frustrada de abrir a caça às bruxas interna contra Jeremy Corbyn e quem a ele se associa como ala esquerda do partido. O fracasso dessa iniciativa poderá ter dado alguma lucidez a essa ambígua liderança. Veremos o que o ano em curso sobre ela definirá. Até porque ver-se-á decisivamente posta à prova à medida que a crise económica puser cada vez mais em xeque a permanência de BoJo no número 10 de Downing Street.

1 comentário:

  1. Continuo a não perceber a admiração que vota a Corbyn, assim como não entendo a que vota a Sócrates.

    Corbyn, com a sua posição dúbia e a sua recusa em fazer campanha pela posição oficial do seu Partido (pelo Remain), é o principal responsável, depois de Cameron, pelo Brexit. Pior do que um demagogo como Johnson, é um político esquerdista com reserva mental.

    Os Lexiters atribuem a Starmer e outros a culpa pela derrota eleitoral em 2019 e têm alguma razão, mas esquecem convenientemente que o Labour mudou de posição em relação a um novo referendo porque se arriscava a perder o eleitorado remainer que desertou para os Lib Dems nas europeias de Maio de 2019. E esse eleitorado constituía a maioria dos votantes no Partido. E depois, o principal motivo de rejeição de Corbyn era o próprio Corbyn, o Brexit só aparecia em segundo lugar nas sondagens.

    Achar que os votantes não abandonam o Partido porque não têm para onde ir foi o erro de Mandelson e de Corbyn, o primeiro com os eleitores do Norte de Inglaterra e o segundo com os liberais.

    Corbyn pensou que dividiria os Tories, mas acabou foi a dividir o seu próprio eleitorado. Um Partido pode dispensar o seu grupo parlamentar (o que Johnson fez), não pode dispensar o seu eleitorado.

    Corbyn, Jorge Rocha, não há outra maneira de o dizer, é um político sem qualidades e sem inteligência, sobretudo táctica. Fizeram mais Blair e Brown em quatro semanas de Governo do que ele em quatro anos de oposição. E depois, é responsável por um ambiente tóxico dentro do Partido que permitiu rédea larga ao anti-semitismo (o próprio Corbyn não é, evidentemente, um anti-semita).

    O Jorge Rocha não parece capaz de transplantar para a política internacional o pragmatismo que mostra na frente interna. Eu prefiro um Centrista no Poder a um Esquerdista Idiota na oposição a um Governo de Extrema-Direita, ainda por cima.

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