quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Muito cá de casa!


Há doze anos, quando a Assírio & Alvim lhe publicou uma antologia de textos sobre atores e atrizes, que tanto o tinham estimulado no amor pelo Cinema, João Bénard da Costa intitulou-a «Muito lá de Casa».

Sobre José Mário Branco, que agora nos começa a faltar, não encontro melhor definição para dizer o que ele significava: era muito cá de casa como se familiar muito próximo se tratasse. Nela entrou há cinquenta anos e nunca mais saiu, mesmo quando essa casa foi mudando de sítio e de aspeto, porque acompanhou-nos sempre para os novos espaços sentidos como nossos.
Esteve presente nos sons que lhe ouvimos nos espetáculos em vários palcos da Grande Lisboa ou na partilha das vivências com quantos jantou no imprescindível O Bispo no Seixal, ou ainda nos documentários sobre si rodados, sobretudo o «Mudar de Vida» de 2014, que nos ficará como seu legado testamentário.
Entrou sorrateiramente no nosso vivenciar através de um EP - aquele tipo de disco de vinil entre o single e o long playin. - em que musicou cantigas medievais. Depois, em 1971, numa pequena loja em Almada - a Almadanada - onde se vendiam discos e livros mal tolerados pela ditadura  comprámos-lhe o álbum «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», e onde, dois anos depois, adquiriríamos «Margem de certa maneira».
Nessa época, enquanto mal suportávamos a impaciência por não vermos fim para a cinzentude intimidante do regime, fazíamos rodar esses, e outros discos - os do Zeca, os do Sérgio, os do Adriano, os do Cília e tantos outros - como paliativos por nos parecer distante esse dia inicial e limpo, afinal tão próximo.
No dia em que chegou à Portela vindo no mesmo avião, que Álvaro Cunhal - a quem conferíamos enfim o rosto, depois de anos a só conhecermos-lhe o nome! - tivemos a certeza de que consolidava-se o tempo novo, julgado igualzinho ao que congeminávamos como ideal.
A ilusão duraria pouco tempo por culpa nossa, que queríamos a cidade sem muros nem ameias logo para o dia seguinte mas, sobretudo, por quantos se mostraram hábeis a mudar alguma coisa para que o essencial ficasse quase na mesma. Quando o vimos no palco da Comuna para interpretar «A Mãe» ainda a fantasia perdurava, mas quando, a seguir, ocupou o impressionante espaço da Estufa Fria para representar «O Terramoto no Chile», já as forças telúricas da exploração tinham remetido os breves protagonistas de Abril para os anónimos bastidores.
Continuou muito lá de casa nos sucessivos discos, que íamos comprando, sobretudo aquele sentido ainda mais nosso por o tornarmos possível através de precursor crowd funding, Das colunas ouvíamos a estranheza de termos vislumbrado um sonho lindo entretanto acabado e sermos dos tais que, de alguma forma, se tinham enganado.
Nessa altura retivemos o sopro da respiração, ao ouvirmos-lhe pela primeira vez o «FMI» no Teatro Aberto, quando este ainda estava do outro lado da Praça de Espanha. O desespero nele contido era o nosso por nada se ter alterado, nem mesmo com a morte daquele homem pequenino, nascido na sua amada cidade, e que nada tinha de bailarino. Apesar de ganhar as eleições do ano seguinte, Mário Soares ainda privilegiaria o anticomunismo em detrimento da maioria parlamentar das esquerdas, que tanto o animou no final da vida. Quase desconhecíamos o filho do gasolineiro de Boliqueime, mas intuíamos o advento de salazarentas ressurreições como ricochete do impulso dado para acabarmos de vez com o inóspito passado. Durante vinte anos suportaríamos a vil criatura ganhando alento nas canções do Zé Mário, nunca faltando à oportunidade de o rever, sempre que apresentava as novas e as bem amadas canções de tempos idos nos palcos abertos para plateias invariavelmente esgotadas.
Nos últimos anos o Vítor Sarmento convidou-o, tanto quanto me lembro por duas vezes, para vir jantar ao Seixal, prendando os comensais do restaurante com longas conversas noites adentro. Oportunidade para lhe ouvirmos, na primeira pessoa, as recordações de uma riquíssima biografia desde a infância passada no Porto onde despertara para as iniquidades de quanto se passava à sua volta, até ao exílio em Paris, sucedendo-as as revelações sobre as quatro décadas e meia vividas num modelo de «democracia», que sabia muito diferente daquela por que sempre batalhara.
A notícia de ontem constituiu um choque, mesmo que, nesta altura da vida, sejam mais os que vemos irem-se, do que quem vai chegando para retomar o nosso testemunho na incerta estafeta civilizacional humana num planeta manchado pelas injustiças e desigualdades. O Zé Mário desaparece-nos dos espaços vividos, mas persistirá como sendo cá de casa. Pelo menos enquanto nós próprios por cá andarmos...

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