sábado, 25 de agosto de 2012

FILME: «Perder a razão» de Joachim Lafosse (2012)



Para que serve um filme? À partida podemos encontrar duas razões para que ele exista: divertir (tese defendida pela maioria dos espectadores aficionados de pipocas) ou serem úteis na consciencialização de algo.
Com Joachim Lafosse, realizador belga que apresentou «À Perdre la Raison» na seção «A Certain Regard» na mais recente edição do festival de Cannes, não se pode atribuir-lhe a primeira daquelas intenções: o filme é incómodo para quem o vê ao traçar a lenta queda no abismo de uma jovem mulher apostada em construir uma relação de amor e a encontrar nele um insuportável desiderato.
Mas se está em causa a condição feminina e a sua subjugação à força bruta ou à fraqueza dos homens com quem vive, Lafosse exclui quaisquer propósitos sociais nos seus filmes. Pelo contrário até os execra como se a demonstração de um  mal estar social e a sugestão de alternativas fosse algo de condenável num criador artístico.
A história conta-se em poucas palavras: Murielle apaixona-se por Mounir e aceita-lhe o pedido de casamento sem compreender o que significa ficarem a residir com o dr. Pinget, uma espécie de pai adotivo com quem ele vive desde criança.
Nos primeiros tempos os filhos vão nascendo e os bens materiais não faltam. Mas a dependência do casal para com o médico é excessiva e ela vê-se  cada vez mais deprimida num círculo afetivo irrespirável.
Numa altura em que a crise económica, financeira e social tanto contribui para a destruição da célula familiar, Lafosse alheia-se dessa conjuntura e trata a história como produto de uma relação malsã entre as personagens.
Murielle vai sentir-se progressivamente isolada no interior de si mesma, fatigada, o olhar vagamente perdido em nenhures.
O doutor Pinget, que começa por parecer cheio de boas qualidades humanas no seu ofício de médico de família acaba por se revelar tóxico, utilizando a riqueza para comprar os que são obrigados a rodeá-lo, a dar-lhe a devida atenção.
Em vez de um bom samaritano ele encarna o mal absoluto, logo anunciado ao primeiro encontro, quando anuncia à rapariga o quanto a não gosta dela.
Vive-se assim na promiscuidade da intrusão permanente sem espaço para o casal alimentar a sua relação, nem sequer para cada um poder-se afirmar por si mesmo.
Murielle vai encaixar todas as ignomínias, insidiosas ou explicitas, dos dois homens com quem vive. Até perder a razão e cometer o irreparável…
Há quem lamente que tal assunto não tivesse tido Chabrol a tratá-lo, porque decerto cuidaria da sua necessária ambivalência. Assim, pelo contrário, resume-se a uma lenta, insuportável e anunciada descida aos infernos...

FILME: «Um Dia» de Lone Scherfig



Não sei se a marca de comprimidos ainda existe, mas este filme lembra aquela frase da já minha distante infância em que se dizia que o «Melhoral» não fazia bem nem mal…
O filme de Lone Scherfig é uma coisa assim meio estranha, nem completamente drama, nem nada que se assemelhe a comédia, mas com romantismo quanto baste para corações piegas. Constitui fórmula eficaz de empatia com o público essas histórias de paixões assolapadas a que as circunstâncias não permitem consumarem-se no seu devido potencial...
Temos, então o ano de 1988 quando, a 15 de julho, Emma conhece Dexter e ficam amigos para toda a vida depois de dormirem juntos na noite da formatura de ambos e da subsequente ressaca.
Decididos a serem amigos, evitando a possibilidade de irem mais além, contactar-se-ão todos os dias 15 de julho dos anos seguintes, acompanhando-se a respetiva evolução.
Ela a viver com um comediante falhado, a dar aulas a miúdos e a escrever livros com algum sucesso. Ele a conhecer uma meteórica ascensão num show televisivo intragável e depois a cair sucessivamente em projetos cada vez mais irrelevantes, com um casamento e uma filha de permeio.
Nalguns dos reencontros a tentação é grande em irem mais além, mas há sempre algo ou alguém a impedi-los. Só já no novo milénio é que, enfim, reconhecem a impossibilidade de se evitarem e começam a viver juntos, quiçá a tentarem ser pais. Mas é também por essa altura, que ela morre, atropelada quando atravessava as ruas londrinas de bicicleta para ir ao encontro dele.
Para Dexter isso significa o regresso ao álcool, que já fora um dos seus principais problemas do passado, nomeadamente aquando de um dos últimos encontros com a própria mãe antes desta morrer de cancro. E é o pai quem lhe dá a receita da necessária redenção: a exemplo dele, Dexter só terá de continuar a viver como se Emma ainda fosse viva. O que ele se apressa a cumprir até porque é junto da própria filha, que quererá manter uma imagem de dignidade e de sensatez.
Não se trata, pois, de um grande filme, mas de todos os realizadores revelados pelo Dogma 95, Lone Scherfig sempre foi das menos interessantes.
Mas embora com algumas cenas de escusado primarismo, o resultado final até nem constitui nada de intragável. Para uma noite de fim-de-semana até pode passar por entretenimento aceitável...


POLÍTICA: Reação aos Dados da Execução Orçamental 23-08-2012

POLÍTICA: independência nacional, ora aí está!


Sem surpresa já todos percebemos a quem Miguel Relvas quer entregar a RTP: aos mesmos interesses angolanos, que já estão a financiar o jornal «Sol» e que não se sabe propriamente quem representam muito embora não se adivinhem propriamente distantes da família e dos amigos de José Eduardo dos Santos. E que não hesitaram em criar uma nova empresa, a Pineview Overseas, S.A., com sede na cidade do Panamá, precisamente com tal objetivo.
Compreende-se assim o entusiasmo com que se preparou o lamentável espetáculo de Fátima Campos Ferreira num «Prós e Contras» de há alguns meses, que valeu a Pedro Rosa Mendes o saneamento da mesma RTP.
Ou porque o «Público» - numa altura em que a SONAE estabelecia negócios com Luanda - suscitou a saída da jornalista Maria João Oliveira, que pusera em causa a personalidade do ministro.
Mas, sobretudo, entende-se o desespero de Relvas quando, acossado pelas vicissitudes relacionadas com a sua suposta literatura na Lusófona, declarou só estar disponível para largar o Governo depois de concluído este dossiê da privatização da televisão pública.
Ou os jantares da semana transata com Zeinal Bava e com Joaquim Oliveira, que tanta influência têm no mercado televisivo atual.
E, finalmente, entende-se a estratégia, que levou a amiga de Relvas, Judite de Sousa, a oportunamente entrevistar António Borges em mais uma demonstração das «qualidades» de tal conselheiro principescamente pago pelos contribuintes e a prestar-se a servir de lebre para uma estratégia atirada para a praça pública para testar a sua aceitabilidade.
Mas, pese embora a dificuldade de Relvas levar por diante tal projeto que, a concretizar-se, seria terrível para a liberdade de expressão e para a própria independência do país, importa confrontar quem votou neste Governo com as suas responsabilidades: foi para entregar a um governo estrangeiro de contestáveis credenciais democráticas, que ofereceram a maioria a tal gente?
Sendo tradicionalmente nacionalistas, o povo de direita sentir-se-á confortado com a forma como Passos & Cª está a entregar os mais elementares requisitos de independência a novos poderes colonialistas de sinal inverso aos existentes antes de 1974?
E como se sentirá a tal respeito o eleitorado do CDS/PP?
Não será difícil perspetivar que toda esta cortina de fumo em torno da RTP pode constituir nova demonstração do que sucede habitualmente ao aprendiz de feiticeiro a contas com as consequências indesejáveis da sua imprudência e surja assim a crise política a somar-se às crises social e económica já instaladas.
Em si essa possibilidade será mais que desejável, porque vistas as contas deste Governo e a forma como lhe está a correr a execução orçamental, será essa mesma crise política e as subsequentes soluções de Governo a virem, provavelmente, propiciar alternativas mais adequadas para as duas outras.
Possa a esquerda e, sobretudo, o Partido Socialista estar então à altura das suas responsabilidades...


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

POLÍTICA: Aqui e além, algumas manifestações de desânimo


Nestas páginas tenho manifestado o otimismo de quem vê as injustiças a manifestarem-se à volta como resultado das diatribes dos defensores do capitalismo neoliberal e as julga ultrapassáveis com revoluções redentoras. Daquelas em que, maniqueisticamente os maus da fita (banqueiros, especuladores financeiros e outros que tais) ardam no inferno e os bons imponham a justiça e a igualdade.
Trata-se de manifestar confiança numa espécie de determinismo histórico, que manda os oprimidos rebentarem com as grilhetas e virarem-se sem medo contra os opressores, devolvendo-lhes o medo já poe eles conhecido na Paris de 1789, em Moscovo em 1917 ou em Havana em 1957.
Mas há quem não me acompanhe neste - reconheço! - exagerado modo de ver, que a lucidez manda conter.
Podemos desejar as utopias, mas as realidades, mesmo quando delas de aproximam, acabam por ficar sempre a grande distância. Como os exemplos do que se converterem depois essa mesma Paris, esse mesmo Moscovo  ou essa mesma Havana vieram lamentavelmente confirmar.
Mas o que tenho lido, nos últimos dias, nas crónicas de Viriato Soromenho Marques, de Daniel Oliveira ou de Boaventura de Sousa Santos é a descrença em quaisquer amanhãs que cantem. Pelo contrário, o que resulta das suas palavras é um pessimismo instalado quanto à possibilidade de se perder a própria democracia. E os seus argumentos não deixam de ser pertinentes para o mais crédulo dos Pangloss a contas com terramotos dramáticos no quotidiano de milhões de pessoas.
Escreve o sociólogo de Coimbra numa das páginas da «Visão» de ontem:
No Norte, o neoliberalismo impõe a austeridade às grandes maiorias e o resgate dos banqueiros, substituindo a proteção social dos cidadãos pela proteção social do capital financeiro.
No Sul, o neoliberalismo impõe a sua avidez pelos recursos naturais, sejam eles os minérios, o petróleo, o gás natural, a água ou a agroindústria.
Os territórios passam a ser terra e as populações, que nele habitam obstáculos ao desenvolvimento que é necessário remover quanto mais rápido melhor.
Quando a democracia concluir que não é compatível com este tipo de capitalismo e decidir resistir-lhe, pode ser demasiado tarde. É que, entretanto, pode o capitalismo ter já concluído que a democracia não é compatível com ele.
Pelo que assim fica expresso, importa não ficar indiferente aos ataques que, diariamente, vão surgindo a esse ideal de democracia enquanto espaço de liberdade de expressão e de implementação de justiça social tal qual tem sido pensado na nossa cultura ocidental. E será fundamental que os mais timoratos percam o medo de se indignarem ou que os mais acomodados saiam do seu conforto e militem pelo tal mundo novo a sério de que falavam os versos de António Aleixo. Aquele em que os jovens não sejam obrigados a emigrar para conseguirem sobreviver, em que o direito à habitação, à saúde e à educação voltem a ser inquestionáveis e em que se desminta a torpeza de só existir abastança se uns poucos puderem ter tudo e aos outros restarem umas migalhas...

FILME: «Piquenique» de Adrian Sitaru (2007)



Há filmes que começam por  não suscitar grandes expetativas nas primeiras cenas, mas capazes de se tornarem deveras interessantes tão só as surpresas neles se vão sucedendo.
«Piquenique» (ou «Pesca Desportiva» no seu título romeno) é um exemplo lapidar dessa evidência, tratando-se de obra justificadora da atenção a dedicar à futura obra do seu realizador, Adrian Sitaru.
À partida temos um casal, que vai passar o domingo num piquenique ao ar livre. Ele, Mihai, é professor de matemática e acaba de se demitir por não estar de acordo com a política da diretora da sua escola a respeito das notas a atribuir aos seus alunos, que ele deprecia. Ela, Mihaela, vive a dúvida de estar a proceder corretamente, já que continua casada com Florin, e não sente verdadeira satisfação sexual com este seu amante de há um ano a esta parte.
No primeiro quarto de hora vemos o tempo instável, a pobreza das ruas e estradas, que percorrem, invadidas de prostitutas.
A novidade é, por ora, a forma como a câmara assume o olhar de um ou de outro, o que significa têrmo-los alternadamente a dialogar diretamente connosco como se fossemos o parceiro de passeio.
Mas a mudança acontece quando atropelam uma dessas raparigas postadas à beira da estrada e a julgam morta. Já a estão a abandonar numa floresta, discutindo sobre a justeza ou não de tal ato, quando ela acorda do seu torpor e, ainda meio tonta, lhes pede para acompanhá-los no seu programa dominical.
O que se segue é um conjunto de diálogos a três, mas sobretudo a dois, já que no sítio aonde estacionam, Mihai vai pôr-se a pescar no rio (ainda que decidido a devolver-lhe eventualmente os peixes dele conseguidos!) enquanto Miha fica sentada na manta aonde tinham piquenicado.
Ana (ou Violeta, como lhe chama um cliente, que também por ali aparece) será, assim, a confidente das dúvidas e ansiedades do casal desavindo.
Testando a fidelidade de um ou de outro, ou o quanto estão verdadeiramente apostados num projeto de vida em comum.
Percebe-se, então, que ela ou qualquer dos outros personagens por ali surgidos (o cliente, o guarda-florestal) mais não são do que espelhos aonde a consciência de Mihaela e de Mihai se irá refletir e definir.
Quando o filme acaba, as desavenças acabaram, eles conseguem fazer amor dentro do carro e partir decididos, ele a voltar à escola e ela a rescindir os laços com o marido. E Ana já poderá voltar a fazer-se “atropelar” por outro condutor a contas com decisões difíceis...



quinta-feira, 23 de agosto de 2012

ARTE: Caravaggio e os seus seguidores


Este Verão a arte de Caravaggio está presente em Toulouse e em Montpellier graças a duas exposições de referência a decorrerem respetivamente no Musée des Augustins e no Musée Fabre. E, segundo Bernard Géniés, que escreve sobre elas no «Nouvel Observateur», o interesse reside em compreender como é que um pintor completamente apostado em não formar discípulos, veio a exercer uma tal influência estética na Europa do seu tempo.
Mas detenhamo-nos um pouco sobre a personalidade de Michelangelo Merisi da Caravaggio, que nasceu em Milão em 1571 e ganharia fama, quer como pintor, quer como assassino. Dele se dizia que era tão talentoso quanto briguento, mostrando-se tão hábil com o pincel quanto com a adaga. Terá sido esta a provocar a sua desgraça já que matou um homem numa das muitas rixas em que se envolvia e teria de fugir para Roma como forma de escapar a uma condenação à morte.
Amigo de poetas, de banqueiros e de advogados, beneficiaria da proteção do alto clero, nomeadamente do cardeal del Monte, que adquiriu vários dos seus quadros, entre os quais «Os Batoteiros» de 1595.
Cinco anos depois a encomenda de dois quadros enormes - «A Vocação de São Mateus» e «O Martírio de São Mateus» para a capela Contarelli - assegura-lhe a devida consagração.
Mas o que tinham de inovador os seus quadros? A luz e os contrastes, claro! Nele a luz vem de cima sem se perceber a sua origem. Um dos seus biógrafos descrevia assim a sua especificidade: levou tão longe o seu método que nunca colocava as suas figuras ao ar livre ou iluminadas pelo sol, mas encontrava forma de as mergulhar na penumbra de um quarto fechado apenas iluminado por uma luz de cima descendo verticalmente  para a parte principal do corpo deixando o resto na sombra para reforçar a violência do claro-escuro.

Livro: «Rio de Sangue» de Tim Butcher (3)


Faz todo o sentido regressar ao livro do Tim Butcher publicado há quatro anos atrás por uma das subsidiárias da Random House, e surgido logo a seguir entre nós em edição da Bertrand.
Afinal ainda está bem próxima a notícia do assassinato de umas dezenas de mineiros na África do Sul, precisamente pelos mesmos motivos porque a República Democrática do Congo não conhece tréguas nas sucessivas guerras civis por que tem passado nos últimos anos: riquezas naturais importantes, uma classe política incipiente e extremamente corrupta, utilizada como marionete pelos interesses das multinacionais ocidentais, que colhem a fatia mais substancial dos lucros ali criados. Como ele esclarece, todo o país tinha sido efetivamente retalhado por três fações armadas, explorando vários recursos naturais, como diamantes, ouro e cobalto. (…)
Nas chamadas «minas» vingava um processo brutalmente primitivo, que envolvia efetivamente trabalho escravo, arrancando o minério à terra para o expedirem com destino a compradores gananciosos do mundo civilizado, que pagavam em dinheiro. (pág. 43)
Por isso, mais do que temerário, o seu projeto de percorrer todo o curso do Rio Congo desde a nascente junto ao Lago Tanganica até à foz no Atlântico, era suicida. Em Agosto de 2004 reservei lugar num voo de Joanesburgo para o Congo, redigi o meu primeiro testamento e dei à Jane um beijo de despedida. (pág. 46)
Mas para nós leitores, Butcher, procede a um bom enquadramento histórico da descoberta da sua embocadura por Diogo Cão, em 1482, quando a Coroa lusa apostava em encontrar além-mar os recursos, que escasseavam no pequeno retângulo à beira-mar plantado: Diogo Cão virou a sua pequena caravela em direção à foz e cautelosamente começou a subir o rio mais poderoso de África.
Um marinheiro instalado na proa do navio informava da imensa profundidade da água e a caravela teve de lutar contra a poderosa corrente de oito nós que corria em direção ao mar.
Depois de se ter debatido rio acima ao longo de vários quilómetros a partir da foz, desembarcou na margem esquerda, ou sul, do rio e parte da sua tripulação pôs pé em terra: foram os primeiros europeus a pisar o solo congolês. (pág. 50)
Diogo Cão descobria um prodigioso fenómeno natural como até então se desconhecia completamente: Ao chegar ao mar, o “rio que engole todos os rios” despeja no oceano um volume de água doce maior do que qualquer outro rio no mundo, com exceção do Amazonas.
Possui ainda outra particularidade extraordinária. Ao contrário de outros sistemas fluviais importantes, o caudal do Congo mantém-se estável ao longo de todo o ano.
Outros rios - até mesmo alguns importantes, como o Nilo e o Amazonas - possuem uma estação seca e uma estação húmida, conforme o caudal cresce ou diminui, mas o caudal do Congo é constante.
A captação de águas provém de ambos os lados do equador, o que significa que, durante todo o ano, pelo menos parte do sistema fluvial conhece uma estação húmida, pelo que na foz o caudal é prodigioso e permanente. (pág.51)
Mas a Coroa estava pouco interessada em belezas criadas pela Natureza: como o comércio de escravos ainda tardaria a implantar-se, os descobridores portugueses pouco se atardaram nas imediações do rio, seguindo por diante, primeiro a caminho do Cabo, e depois da Índia. Era o rico negócio das especiarias, que D. João II, e depois D. Manuel, estavam desejosos de sonegar aos venezianos.

Política: Socorro! Eles querem que o tempo volte para trás!


Todos os dias as notícias sobre o estado da Nação não deixam dúvidas quanto ao profundo abismo para onde o governo de Passos Coelho está a empurrar os portugueses. E quando se trata de desemprego os números são aterradores pelo que significam para pessoas em concreto, incapazes de encontrar soluções minimamente dignas para garantirem a mera sobrevivência. É por isso que não se pode ficar indiferente  aos dados do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), que revelam existirem em Julho, mais 4388 casais (um aumento de 99,3%) inscritos nos centros de emprego. Informa o «Público»: Desde Julho do ano passado que se regista um aumento em cadeia do número de desempregados em que ambos os cônjuges estão fora do mercado de trabalho.
Para o Governo a aposta parece ser a de fazer regredir o mais depressa possível o país para as condições existentes no tempo do fascismo, ciente de não lhe restar muito tempo para levar por diante tal ambição.
Um dos ministros mais ativos nesse regresso ao passado é Nuno Crato, que almeja voltar a encontrar um país de estudantes divididos entre o Ensino Profissional - tal qual existia nas antigas escolas comerciais e industriais para aonde eram empurrados os jovens das famílias mais pobres  limitados a estudos desqualificantes e de má qualidade - e o Ensino Privado (altamente subsidiado pelo Estado) destinado às famílias endinheiradas.
Sérgio Lavos, no blogue Arrastão, sintetiza e interroga: 
E, se olharmos bem para os cursos oferecidos (no tal Ensino Profissional), ainda se torna mais absurda e retrógrada esta salazarenta política educativa: comércio, bens transacionáveis, restauração, indústria; precisamente as áreas da economia que mais estão a sofrer com a catastrófica política do Governo PSD/CDS. Será Crato um genial visionário, ou apenas um idiota preconceituoso e alienado do mundo em que vive?
Mas preconceituoso é o epíteto mais suave que merece igualmente Passos Coelho se nos ativermos, uma vez mais, ao célebre discurso do Aquashow. Para João Galamba, no blogue Jugular, ele voltou a mostrar que não compreende o mundo em que vive. Brindou o País com a sua narrativa de moralismo pedestre sobre as causas da crise, reafirmando que acabou o regabofe e que no futuro o povo não será aliciado com falsas promessas nem cairá no facilitismo da dívida. Portugal viverá dentro das suas possibilidades; será poupadinho, honrado, austero, e feliz. Os portugueses saberão adaptar-se à sua condição e não ousar querer ser outra coisa que não aquilo que sempre foram. Estranho futuro este que só tresanda a passado.
E, no entanto, como diria Galileu, a Terra move-se apesar desta política bafienta e sem chama. Se a crise aqui chegou como corolário da crise aberta pela falência do Lehman Brothers em 2008, os sinais exteriores dão-nos exemplos de justificado otimismo. Assim, por exemplo, hoje em Porto Alegre, um tribunal condenou o gigante norte-americano Monsanto a avultada multa por publicidade enganosa a respeito da sua soja transgénica.
Esta multinacional, que tem suscitado tanta miséria na agricultura dos países mais pobres, está sob fogo cerrado de quem defende a necessidade de evitar o recurso aos piores exemplos de estratégias capitalistas no setor fundamental para alimentar a humanidade.
E, de outro país europeu, a Holanda, provém outro sinal de esperança: o governo de direita caiu e as sondagens dão como provável vencedor o Partido Socialista, que é uma espécie de Syriza.
Para quem crê que este puxão violento das políticas europeias para a direita tem de encontrar uma resposta radical de sinal contrário, o que se vai passando em Atenas e Amesterdão dá azo a prever que esta apagada e vil tristeza terá um epílogo a curto prazo...

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Filme: «Design for Living» de Ernst Lubitsch (1933)



O fascínio que as idas à Cinemateca pressupõe é a possibilidade de descobrir verdadeiras surpresas em obras que, apressadamente, alguns pretenderiam ver remetidas para o  baú poeirento das recordações.
Entre essas descobertas podemos concluir, por exemplo, que, em termos de valores morais, os códigos de censura nem sempre conseguiam evitar a emergência de conceitos surpreendentes para a época por muito que, neste caso presente, a história até se baseasse na vida concreta de uns amigos do seu autor.
De facto esta comédia sofisticada de Ernst Lubitsch, datada de 1933, tinha por matéria-prima uma saborosa comédia de Noel Coward, que decidira homenagear a forma singular como um casal próximo encarava o respetivo casamento. Nela, Frederic March e Gary Cooper são dois artistas norte-americanos sem vintém, a sobreviverem de expedientes nas colinas de Montmartre, quando irrompe nas suas vidas a voluntariosa Miriam Hopkins, que se apaixona por ambos. Resultado: à revelia de cada um deles, dorme com ambos.
Vem, então, ao de cima o preconceito da fidelidade, que os machos de serviço tanto prezam e, como querem dar tempo a ela para decidir-se por um deles, acabam por decidir um acordo de cavalheiros em que a relação triangular prosseguirá numa lógica de amizade sem cama de permeio.
Tudo estaria certo para os dois amigos - que julgavam assim preservar a cumplicidade anterior á chegada de Gilda às suas vidas - quando essa lógica se volta do avesso por iniciativa dela. É que o acordo fora precisamente de cavalheiros: ora, não se vendo ela nessa caracterização não se sente na obrigação de o respeitar. Resultado: novamente à revelia de ambos volta a deitar-se com ambos separadamente.
Essa situação acaba por ser demasiado heterodoxa, sobretudo para Curtis (Gary Cooper) que até chegara a assumir a união de facto com ela. E, sentindo-se traído, expulsa-a de casa.
Durante uns tempos temos então Gilda casada com o banalíssimo Max (o sempre excelente Edward Everett Horton), finalmente satisfeito por, na sua expressão, «poder molhar o pincel!» e cumprindo a função social, que se espera de uma dama da alta sociedade. O que não deixa de a aborrecer.
Valer-lhe-á então a libertação propiciada pelos seus dois amigos parisienses, que a vêm resgatar e devolver ao projeto por ela mais acarinhado: ser mulher para os dois sem quaisquer restrições.
O tema da poligamia, ainda por cima feminina, não podia deixar de ser subversiva para essa década de 30 em que as ligas da moral e dos bons costumes até exigiam reduzir ao mínimo a duração dos beijos no ecrã. Mas Lubitsch filmou com a sua habitual elegância, feita de alusões implícitas e de piscadelas de olho ao espectador de forma que «Design for Living» conseguiu superar as barreiras do preconceito e manter, oitenta anos depois, um inegável encanto...

Pensar o espaço


Quando os dogmas do catolicismo conheceram a sua máxima expressão enquanto verdades absolutas, o espaço era tido como uma realidade finita: existiam as coisas terrestres e, acima delas, o julgamento de quanto elas se coadunavam com os preceitos papais sendo como tal ajuizáveis no Além.
Blaise Pascal vem pôr em questão essa construção conceptual ao considerar que o espaço é o infinito compreensível. E se havia infinito negava-se a possibilidade da existência de um Além. O que dava razão a um Giordano Bruno, que fora condenado  pela Inquisição por negar esse mesmo conceito de transcendência.
O Iluminismo vinha, pois, contestar a ideia de um mundo enquanto estrutura fechada, mesmo se a ideia de infinito pressupõe pararmos algures nesse espaço ilimitado para aí definirmos algumas fronteiras. É que, sem elas, o espaço não consegue ser entendido como existente e, como tal superável…
Não existe, pois, qualquer coincidência entre a ideia de espaço e a de vazio. O espaço está repleto de matéria. Por muito que seja o nosso olhar aquele que hierarquiza o observável nos limites em que ele é tangível.
É por isso que a ideia de espaço - que implicitamente temos aqui situado num âmbito astronómico - se concerte com a de perspetiva, de acordo com a sua descoberta na pintura renascentista depois de um longo processo de maturação criativa. Através dessa gradação da representação de acordo com linhas demonstrativas da maior ou menor distância ao ponto de observação, os artistas davam substância a essa ideia de infinitude...
«A Santa Conversa ou a Madona das Sombras», quadro de Fra Angelico do século XV, constitui uma das obras mais antigas a ensaiar tal perceção do espaço, tanto mais moderna quanto por baixo desse fresco surgem mármores involuntariamente associáveis ao que viria a ser o expressionismo abstrato.
E não deixa de ser curioso como num texto sobre as conceções filosóficas do espaço acabamos por fazer convergir duas versões de uma suposta abóbada celestial, cada uma representando uma forma diversa de esplendor.
Como se torna igualmente singular o paradoxo de a ciência através da teoria da relatividade vir a recolocar a possibilidade dessa mesma finitude do espaço, mesmo pensando-o como indissociável do tempo. Ou de como outra forma de representação do espaço terrestre - as cartas geográficas - tiveram objetivos militares já que se destinavam a preparar as estratégias belicistas de quem as encomendavam...
(texto decorrente de um dos programas de filosofia de Raphael Enthoven no canal ARTE)

Filme: «Reclaim the Streets» de Thorsten Ernst (2012)



Já poucos contestam que, nas nossas atuais sociedades, a fortuna está concentrada nas mãos de uma ínfima minoria, enquanto as classes médias vão desaparecendo.
Se talvez ainda seja exagerada a consagração da fórmula 99% contra 1%, a verdade é que a situação suscitada pela crise financeira de Setembro de 2008 atirou para a miséria mais extrema quem sempre cumprira as regras do jogo e até condenara quem se opunha ao sonho americano. Aumentando o fosso entre ricos e pobres...
Hoje é evidente que a ínfima elite da City londrina ou de Wall Street despreza as consequências da sua avidez e mantém os jogos especulativos em que se especializou.
Não compreendem assim que a cólera está a aumentar em quem vê os governos a salvarem os bancos e a distribuírem os custos daí decorrentes para cima das costas dos contribuintes. Que vão compreendendo como os ricos praticam uma obscena evasão fiscal assente em paraísos cuja extinção surge como necessidade óbvia para uma cada vez mais alargada maioria.
A neoliberalização só significou a privatização de bens (a água por exemplo) ou serviços públicos (a educação, a saúde) que nunca deveriam sair da sua alçada.
E um clamor indignado cresce por todo o mundo ocidental...

Política: Aonde é que ganhámos?


O discurso de Passos Coelho no Algarve ainda está a causar celeuma junto dos colunistas, que vão publicando textos nos jornais portugueses. Assim, no «Jornal de Notícias», o antigo líder da CGTP, Carvalho da Silva, interroga-se: Como pode Passos Coelho dizer que "no mais importante ganhámos" perante a violenta destruição de emprego, que num ano atingiu mais 205 mil pessoas, ou quando temos 827 000 desempregados e cerca de 1,3 milhões de desempregados e subempregados?
A política de terra queimada em que este Governo tem sido tão pródigo também encontra amarga expressão nas energias renováveis de que os seus ministros nunca foram grandes entusiastas.
Nesse sentido até contrariam a estratégia da srª Merkel, que está a promover um intenso crescimento dessas formas de energia para substituir tão rapidamente quanto possível o obsoleto parque de centrais nucleares do país. E julgam ainda ter suporte em quem demagogicamente andou a disseminar mails, twitters e outras mensagens destinadas a virar os consumidores contra as verbas inseridas nas suas faturas a título de subsidiarização da energia verde.
A estupidez de quem andou a apoiar essa campanha de diabolização das energias renováveis - verdadeiramente criminosa! - ainda lhes irá amargar a boca em função dos custos a pagar pela excessiva dependência das provenientes de origem fóssil. E, no entanto, quão meritório foi o trabalho dos governos de José Sócrates para desenvolver alternativas avançadas para a estratégia energética nacional: em 2010 Portugal chegou a ser  o quinto país europeu com maior utilização de energias renováveis, com 25% do consumo a ter proveniência em fontes ambientalmente limpas.
Hoje ao deitar a perder todo esse esforço nacional, o governo de Passos Coelho põe em risco os 130 mil empregos que, direta ou indiretamente, provém desse tipo de atividade.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Filme: «QUEM TEM MEDO DE KATHY ACKER?» de Barbara Caspar (2007)



Às vezes somos forçados a constatar que fenómenos contemporâneos nos passam ao lado apesar de assumirem alguma importância e merecerem a nossa atenção.
Confesso a total ignorância sobre Kathy Acker até ver este documentário de 70 minutos sobre o seu percurso biográfico. Que elucidou sobre uma escritora e cineasta irreverente, que esteve na dianteira da revolução punk nova-iorquina do final dos anos 70 e, qual cometa errante, surgiu com enorme fulgor, depressa se apagando de seguida.
A exemplo dos seus colegas de movimento exigia fazer tudo á sua maneira, independentemente das reações que suscitasse. E, ademais, enquanto mulher pretendia aceder a tudo! E este tudo tinha muito a ver com a sexualidade, que abordava de forma chocante, direta, de uma forma como só os homens (tipo Henry Miller) costumavam utilizar.
Um bom exemplo é um dos seus filmes underground, «The Blue Tape», de 1974, co-assinado com Alan Sondheim, em que defende a primazia do desejo sexual sobre qualquer outro assunto.
A personagem de Janey, seu alter ego a que constantemente recorre, personifica todas as suas experiências.
Já então existe uma total recusa dos estereótipos femininos em que a pretendiam formatar desde criança. Em que via as mulheres, a exemplo da sua própria mãe, a serem abandonadas, quando engravidavam, numa clara constatação de se viver num mundo deveras perigoso…
Kathy nunca chegou a conhecer o pai e sempre odiou a mãe. Com tal contexto familiar não se surpreenderá um início bastante precoce na sexualidade, quando só conta 13 anos e já é vista na escola como uma rapariga peculiar no seu interesse pelos poetas malditos.
Escreve num dos seus textos que o casamento destrói todos, tornando os homens ainda mais narcísicos e as mulheres mentirosas. Para ela é inevitável que, num casal, um ame e o outro se deixe amar. Mas todos se ajustam a essa forma de relação familiar porque vivemos numa sociedade em que ninguém liga a quem não se lhe ajusta.
Radicada em Nova Iorque vive sempre no limiar da miséria mais absoluta, convivendo com prostitutas, com vagabundos e outros excluídos do sonho americano, que vai retratando em textos e filmes. Quando se arrisca a pedir dinheiro à mãe esta manda-a bugiar, convidando-a a deixar-se enterrar pelo lixo e devassidão da cidade. Mas essa mesma mãe impressioná-la-á na condição do primeiro cadáver que se lhe depara, quando a identifica na morgue.
No já referido filme de 1974 ela filma-se a ter relações sexuais com o namorado, mas em vez de pornografia, o que se revela são as relações de poder entre os dois amantes. Escreve então que o escravo é sempre mais esclarecido do que o seu mestre e o quanto o seu interesse pela pornografia tem muito a ver com o facto de constituir o ponto de observação ideal para observar o mundo real.
É então Kathy, a selvagem, a drogada, que passa o tempo a escrever sobre os seus temas de eleição: sexo, violência e política.
William Burroughs, que a lê atentamente, considera-a genial e a mais aproximada reencarnação do espírito de Rimbaud.
Opta então por pegar em textos alheios, muitos deles clássicos (Shakespeare, por exemplo) e desconstrói-os com a sua linguagem desbragada. Retoma assim a lógica dos seus admirados piratas, que vogavam pelos oceanos e saqueavam as riquezas alheias em seu proveito.
Nessa altura ainda publica em edições de autor, que se encarrega de distribuir pelas livrarias mais arrojadas de Greenwich Village.
«Sangue e Estupro no Liceu» contribuirá para o seu sucesso mediático. Igualmente publicada na Inglaterra constitui um tal sucesso, que as entrevistas sucedem-se nos mais prestigiados programas da BBC e lidera os rankings dos best-sellers. De repente transforma-se num ícone da nova literatura nova-iorquina, muito embora as feministas condenem a perspetiva da sexualidade a partir da lógica da perversão: os seus textos vão refletindo uma cada vez maior atração pela dor, que testemunha o seu masoquismo excessivo.
Na década de 80 o governo alemão condena os seus textos como nocivos para a juventude e um escrevinhador menor, Harold Robbins, irá processá-la por plágio. Muda-se então para San Francisco aonde a sua irreverência poderá encontrar um palco mais complacente. Num dos seus pubs mais conhecidos dá aulas sobre Bataille, Sade e Genet. Ou dá conferências sobre as suas experiências literárias, que incluem descrever as sensações enquanto tem um orgasmo graças à manipulação de um vibro-massajador.
Cada vez mais a fascina a dor propiciada pelas suas relações masoquistas com todo o tipo de homens, que seduzia essencialmente para melhor os conhecer na sua infindável diversidade.
Quando o cancro lhe é detetado irá aproveitar para dele dar conta de todos os efeitos em si mesma. Incluindo a decisão, concluir-se-á que errada, de abandonar as terapias médicas reconhecidas em proveito da decisão radical de fazer duas mastectomias.
A lenta degenerescência acompanhá-la-á até à morte em Novembro de 1997, quando escolhera o México para a despedida da vida.
Quinze anos depois poder-se-á considerar que muito mudou na relação da sociedade com a sexualidade, ao reprimirem-se as suas mais anódinas manifestações em proveito de um conservadorismo moral, que acompanha o da economia e o da política nos nossos dias.
Mas, na libertação da rolha, que vai contrariando as pulsões libertárias de quem vive frustrado nesta sociedade de números e não de pessoas, as propostas de Kathy poderão vir a ser retomadas. E não nos admiremos que apareçam muitos a terem medo de tais ideias...