sábado, 27 de agosto de 2011

Uma morte anunciada


Numa entrevista hoje concedida ao Diário de Notícias Maria José Morgado não arriscava a duração do actual governo para todo o período previsto para a legislatura. E lembrava que o Pêndulo de Foucault demonstra a contínua rotação da Terra.
Mas se a procuradora não poderia avançar mais opiniões pessoais do que a subtil sugestão do seu cepticismo, eu não tenho quaisquer dúvidas: Passos Coelho tem tal vontade em ocupar todo o espaço político, que atropela os interesses do seu parceiro de coligação. E será por ele que o seu governo conhecerá um precoce enterro.
Porque a crise irá agudizar-se e muitos interesses corporativos terão de ser beliscados, trazendo para as ruas a expressão do desagrado colectivo. E será para não se associar à inevitável queda do partido laranja nas sondagens, que Paulo Portas apressará o fim da coligação. Ciente de que, a não avançar para essa distanciação, também o PP se arriscará a ser fortemente penalizado nas urnas.
Pouco a pouco este governo vai dando motivos para acreditar na sua morte antecipada...

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

A batalha de Tripoli


Na Líbia o regime de Kadhafi parece ter caído finalmente perante o ataque conjunto da NATO e das forças islamistas. Desaparece, assim, mais um dos poucos regimes árabes aonde os direitos das mulheres eram acautelados pela legislação estatal.
Daqui a não muito tempo quando, a exemplo, do Iraque, se veja a condição feminina esmagada pelos valores da sharia, sobrarão discursos hipócritas sobre as perversas derivações desses regimes implantados com a ajuda ocidental. Esquecendo-se os seus autores como terão servido de meras marionetas de um discurso politicamente correcto sobre a democracia, conceito sem sentido em culturas sujeitas ao filtro religioso dos seguidores de Alá...

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Uma cultura de facilitismo?


Anda por aí a ser divulgada a tese peregrina segundo a qual temos vivido em injustificada abundância, e que deveremos conformarmo-nos com os sofrimentos próprios de uma vida doravante marcada pelas frustrações. A felicidade fica adiada para outras reencarnações, que nesta só nos resta sofrermos os efeitos das dívidas contraídas pelos bancos e pela Madeira de Alberto João Jardim e que (quase) todos somos obrigados a pagar.
Veja-se este naco de prosa publicada num dos principais jornais e da autoria de um suposto psiquiatra do Júlio de Matos: é preciso dizer às pessoas que o sofrimento também faz parte da vida e que a crise é uma situação de oportunidade. (…) A dificuldade em reagir à crise deve-se ao facto de na última década se ter vivido à procura do prazer e da satisfação. Havia uma cultura de facilitismo, que criou uma almofada e impediu o contacto com a realidade. Criou-se a ideia de que não há sofrimento.
Eis o exemplo mais lapidar do conformismo mais reaccionário, que se pode encontrar por esta altura. O mesmo que esteve subjacente ao discurso de Passos Coelho no Pontal, que em miúdos significou mais ou menos isto: «vocês portugueses vão ficar com ordenados de miséria se tiverem a sorte de encontrar um emprego. E nem pensem em vir para a rua protestar, senão passam por maus patriotas!».
É a cultura do «aguenta, que é serviço!». Aquela que deveremos rejeitar, porque dando a realidade sobejas provas da inexistência de Deus e de vidas além-morte, para que é que iremos esperar por tal ilusão para calarmos o nosso sofrimento?
Pelo contrário deveremos exigir ser felizes aqui e agora e um governo decente, que se preze, deve trabalhar para tal objectivo ficar ao alcance da grande maioria.
Que se fustiguem, pois, as vozes que se multiplicam a defender conformismo: os mais ricos de entre os muito ricos abriram uma guerra social contra as classes médias e só resta a estas a aliança com os mais desvalidos nas batalhas por um mundo diferente em que o sofrimento se torne uma palavra ostracizada...

domingo, 21 de agosto de 2011

Consumo privado em queda histórica!


O artigo de hoje do Público nem justifica comentários, já que vale por si mesma e pelo que este Governo tem suscitado: Nem nas intervenções anteriores do FMI, nem quando Portugal esteve em recessão, na sequência da crise financeira internacional, as famílias retraíram tanto os seus gastos. Em Julho, o consumo privado atingiu um mínimo histórico, empurrando a actividade económica para o pior nível dos últimos dois anos. As novas medidas de austeridade previstas para este ano e a desaceleração das outras economias europeias podem agravar o cenário e obrigar a rever em baixa as previsões de recessão.

A voz do Oráculo


É claro que por muito que os ultraconservadores do Congresso e do Senado norte-americano não queiram ouvir o Oráculo do Omaha, a verdade é que as suas palavras recentes sobre a necessidade de se impor uma maior carga fiscal aos mais ricos faz todo o sentido. E é paradigmático quanto à visão do célebre especulador, que já adivinha os sarilhos potenciais de uma distribuição cada vez menos equitativa dos rendimentos do país.
Depois de se ter esvaído o papão comunista é altura de os ricos voltarem a recear as consequências da sua ganância, em função do que se vai passando nas ruas de Atenas, de Londres ou de Berlim.
Inteligente, Warren Buffet quer antecipar-se a maiores aflições. Vejamos quanto tempo é que passará até que os seus pares milionários o comecem a ouvir.

sábado, 20 de agosto de 2011

Roubini recorda Karl Marx


É claro que nunca tive dúvidas sobre o carácter científico da abordagem de Karl Marx ao capitalismo e sobre a intemporalidade das suas conclusões. Ainda assim sabe bem ver um economista tão reputado como Nouriel Roubini a alertar para a crise actual dar razão à concepção marxista do defeito sistémico do sistema capitalista, quando se agudiza a cumulação de capital nas mãos de um número cada vez menor de ricos e uma pauperização crescente da generalidade dos cidadãos.
Como diz Roubini talvez seja exagerada a notícia da morte iminente deste sistema desumano - que tem sabido encontrar soluções sucessivas para adiar o seu previsível estertor - mas que ele se aproxima a passos largos, disso não duvidemos…

Os medos de Passos Coelho


No «Público», São José Almeida volta ao comício do Pontal para lembrar como Passos Coelho se apresentou aí na pele de um primeiro-ministro preocupado, até assustado, com as consequências que admite poderem surgir das medidas que tem tomado e promete ir continuar a tomar.
É curioso como, passados dois meses sobre a tomada de posse do seu Governo, o actual primeiro-ministro está muito longe de conseguir o benefício da dúvida da generalidade das pessoas com quem diariamente contacto.
Podem calar o incómodo de nele ter votado, contribuindo activamente para a derrota de José Sócrates, mas não saem das suas bocas quaisquer justificações convincentes para o verdadeiro ataque desde então iniciado ao tipo de regime redistributivo até então suportado numa concepção democrático proveniente do 25 de Abril.
E começa a subir o clamor contra tantas más notícias dadas pelos ministros sem elas conseguirem fundamentar uma qualquer visão positiva de futuro.
O medo que Passos Coelho sente é o de uma reacção violenta e descontrolada à guerra social e económica que o próprio poder abriu contra as populações europeias para baixar o nível de riqueza que é redistribuída pelo Estado na Europa. Uma guerra que tem como objectivo a concentração da riqueza na elite, nos donos do poder económico e na aristocracia empresarial e política que os serve…

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Sinais de mudança


Não temos que aceitar as coisas tal qual elas nos são transmitidas pelos jornais e pelas televisões, ciosas de agradarem aos poderes de circunstância. A realidade é que o mundo pula e avança, como já o anunciava o poeta Gedeão, e nada o tenderá a cristalizar num qualquer ponto designável como «fim da História».
Veja-se, por exemplo, o que está a acontecer em Israel com uma réplica do moimento dos indignados já capaz de mobilizar manifestações de 300 mil pessoas em prol de maior justiça social e de preços aceitáveis no aluguer das casas. E a perspectiva não podia ser senão de esquerda, já que se contestam os dinheiros gastos com os colonatos e com as escolas ultra-ortodoxa. Hoje os jovens e os desfavorecidos israelitas aproveitam as competências ganhas no seu serviço militar para se organizarem e  condenarem a extensão das privatizações dos últimos anos, que tiveram por corolário a sujeição desigual de todos aos caprichos dos mercados financeiros.
Mas, se nas cidades israelitas os protestos são pacíficos, já o deixaram de ser na capital inglesa. Irradiando a partir do bairro mais pobre (Tottenham) os jovens revoltosos queimam tudo à sua frente para se vingarem da repressão policial, do racismo e do desemprego. Alerta Robert Berkeley: No Reino Unido, as taxas de desemprego entre jovens são de 20% na comunidade branca e 50% na comunidade negra. Isso gera um potencial para o crime e falta de esperança. Sentem que não têm um futuro e que ninguém os ouve.
Uma sociedade desigual é uma sociedade infeliz. O Governo tem que ter em conta as desigualdades sociais quando faz os cortes e não vejo nenhuma estratégia para gerir os problemas raciais.»
Mas para acabarmos melhor o dia recordemos o desagrado de Macário Correia, autarca de Faro, perante as nomeações e os ordenados decididos pelo governo para os quais exige explicações. Manifestamente a popularidade inicial de Passos vai-se degradando!


domingo, 7 de agosto de 2011

A agonia da direita chilena

A derrota dos socialistas chilenos nas mais recentes presidenciais foi extremamente dolorosa para quem vira nas vitórias anteriores de Ricardo Lagos e de Michelle Bachelet uma espécie de vingança contra o legado pinochetista, que se acreditava sujeito à rejeição duradoura.
Afinal a vitória de Sebastian Piñera em Março de 2010 significava o retorno ao passado tenebroso dos seguidores do  assassino de Allende. E, para sua sorte, o drama dos mineiros encerrados na minha de cobre, dar-lhe-ia picos imerecidos de popularidade logo a seguir à sua tomada de posse.
Mas, um ano depois, a situação mudou e sucessivas manifestações estão a exasperar o regime chileno, levando o New York Times a comentar a profunda insatisfação popular com o modelo neoliberal, e exigindo a imposição constitucional do direito universal à educação de qualidade e de custos gratuitos.
A situação actual do ensino chileno pode ser vista como uma antevisão do que poderá vir a suceder no nosso país: a direita chilena desinvestiu na educação pública para possibilitar o chorudo negócio das universidades privadas. que são caras e, portanto, só acessíveis a alguns. E de fraca qualidade pedagógica.
Agora exige-se passar do oito para o oitenta, numa altura em que Piñera bate recordes de impopularidade: apenas de 26% de aceitação da sua política, contra os 53%, que o rejeitam liminarmente...
Afinal há equívocos, que duram muito pouco tempo...

Receitas estafadas

Paul Krugman não gostou nada do acordo entre Republicamos e Democratas para resolver o problema do risco de default para a dívida norte-americana. Para esse Prémio Nobel, Obama cedeu em toda a linha e poderá pagar cara a sua falta de firmeza para com os seus adversários. Porque, em vez de iniciar o processo de recuperação, esse acordo irá deteriorar uma economia já de si deprimida: menos crescimento significa menores receitas fiscais prosseguindo assim a espiral de aumento do défice.
Ora, como Europa e EUA estão interdependentes, o sobre endividamento da primeira prejudica a recuperação americana, assim como a estagnação desta impede o crescimento da zona Euro.
O problema é que com estas receitas estafadas de cunho monetarista não vamos ultrapassar esta fase de contínuos apertos...




Para quando os Estados Unidos da Europa?

O que Paul de Grauwe, conselheiro económico da Comissão Europeia, defende num artigo do Finantial Times, é algo que me parece evidente há muito tempo: os Estados Unidos da Europa terão de ser uma realidade política num prazo não muito alargado se o continente quiser ainda desempenhar um papel relevante no mercado global.
Porque, de facto, do que se trata é de transformar o Banco Central Europeu num sucedâneo da Reserva Federal Americana, garantindo a liquidez - não só aos Bancos - mas também aos Estados do euro. Assim, se s/e os investidores não emprestam aos Estados ou pedem juros proibitivos, então imprimam-se euros.

sábado, 30 de julho de 2011

ÉTICAS PASSISTAS

O escândalo das nomeações dos novos administradores da Caixa Geral de Depósitos atingiu tais proporções, que nem os mais condescendentes dos articulistas para com o governo conseguem evitar críticas explicitas.
É o exemplo do que escreve Fernando Madrinha na edição de hoje do «Expresso»:
A Caixa Geral de Depósitos, que o primeiro-ministro tanto queria privatizar quando apenas sonhava chegar ao Governo, está mais nacionalizada do que nunca. Dê-se à palavra «nacionalizada» o pior sentido possível: controlada por amigos fiéis dos dois partidos do poder.
É que, até agora, ainda se procurava um equilíbrio entre Governo e Oposição, que justificava a nomeação de um administrador conotado com esta última para presidir ao banco estatal. Faria de Oliveira, por exemplo, foi nomeado por José Sócrates, muito por ter sido ministro de Cavaco Silva.
Agora é o despautério total sem sequer tomar em consideração as práticas anteriores.
Estamos, pois, falados quanto às mudanças éticas, que Passos Coelho se propunha implementar!

sexta-feira, 29 de julho de 2011

NEGAR O NOME AO ASSASSINO

Ontem o jornalista Jorge Almeida Fernandes publicou um texto de opinião interessante sobre os crimes do monstruoso fascista norueguês ao qual se recusa a sequer enunciar o nome. Por isso escolhe uma letra, B., para o designar invocando um apelo do escritor Claudio Magris e um exemplo histórico singular.
A conclusão é pertinente: será justo sabermos o nome do criminoso e desconhecermos o de todas as suas vítimas? Na batalha pela notoriedade macluhaniana será justo facilitarmos o propósito do algoz?
Vale a pena pensar nas questões levantadas neste texto: 
“O que este morticínio de seres humanos mostra é a infinita banalidade e idiotia do mal e da violência, tantas vezes mostrados envoltos em sedução. (…) É uma vergonha, embora inevitável, registar na memória o nome do assassino norueguês e não os das vítimas”, comentou no «Corriere della Sera» o escritor italiano Claudio Magris.
Em Julho de 356 a.C. , um anódino Eróstrato incendiou o Templo de Artemisa em Êfeso, de que se dizia ser uma das sete maravilhas do mundo. Assumiu que o fizera como desesperado meio de alcançar a glória. O sacrilégio foi castigado com a morte. Como póstuma punição, os magistrados proibiram os efésios de jamais citarem o seu nome, que foi também apagado de todos os documentos. Mas um historiador de outra cidade nomeou-o, outros o repetiram e Eróstrato entrou na História.
Ninguém conhece o nome do arquitecto que desenhou o templo de Êfeso. Tal como Eróstrato, B está a ganhar. (…)
Voltando a B e citando Magris: “O seu gesto atroz mostra a contínua latência do mal, a possibilidade de se desencadear a qualquer momento; revela a nossa convivência quotidiana, corpo a corpo, com o mal, sempre emboscado e por vezes assustadoramente em acção”.

OS BOYS DA CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS

É verdade que o actual Governo ainda vive o seu estado de graça, parecendo imune às tropelias, que já vai protagonizando. Mas as máscaras vão caindo rapidamente conduzindo-o ao descrédito que merece a sua ideologia ultracapitalista.
Dizia-se que nunca iria invocar a «pesada herança» e já só ela lhe serve, quando confrontada com as suas incompetências (vide a resposta de Vítor Gaspar a Pedro Silva Pereira, quando este lhe pedia justificação para o corte no subsídio de Natal). Dizia que optaria pela competência em detrimento do cartão partidário e veja-se o que se passa com as nomeações de Nogueira Leite ou de Nuno Thomaz para a Caixa Geral de Depósitos.
Até alguém tão insuspeito como o é o actual director do Jornal de Negócios comenta e editorial:
A nomeação da administração da CGD é muitas vezes o teste do ácido de um governo estreante. Para medir a sua partidarização. Para contar os "boys". Neste caso, isso é até o menos. O mais é a falta de experiência e os conflitos de interesses. (…)
"Albergue espanhol" é uma expressão francesa para lugares confusos, onde se juntam pessoas de culturas diferentes e sem regras. A Caixa começa assim e começa mal. Porque no final disto tudo sobra uma enorme perplexidade: há de tudo neste "onze", de quem sabe muito de política, muito de banca de investimento, muito de mercado monetário, muito de Direito, muito de advocacia de negócios, muito de supervisão, muito de sistemas de pagamentos, muito de governo de sociedades. Na Caixa só não há é ninguém que saiba de uma coisa: de banca tradicional. 

OS RICOS ENQUANTO NOSSOS INIMIGOS DE CLASSE

A actual disputa política entre Barack Obama e os republicanos tem subjacente o boicote, que os ricos norte-americanos estão a encabeçar contra a actual Administração com o objectivo de manterem as isenções de impostos garantidas durante os mandatos de George W, Bush.
O escândalo hoje verificado nos EUA é tal, que há quem afirme serem mais baixos os impostos pagos por Warren Buffet do que a sua secretária.
Chegou-se, assim, a um exagero tal, que um pequeno punhado de ricos usufrui de mordomias obscenas, contrapostas por uma pauperização crescente das classes remediadas.
O fosso entre pobres e ricos tem aumentado de uma forma acelerada, o que coloca os EUA na iminência de grandes turbulências sociais. Estudos universitários já propõem a redinamização sindical, tendo em conta o seu papel potencial como catalisador de insatisfações descontroladas. E os filmes de Michael Moore vão revelando estados de alma, que nada se ajustam à imagem pós-maccartista de uma América rendida ao capital.
Há, no entanto, estratégias de adiamento de uma previsível revolução social, que ainda surtem efeito. Num artigo publicado no Jornal de Negócios, Simon Kuiper demonstra que as notícias maioritariamente divulgadas nos meios de comunicação mundial referem-se aos ricos, transformando-os em modelos impossíveis de imitar, mas com quem os desvalidos criam insólitas empatias. As que no seu inconsciente travam a vontade de neles verem os seus inimigos de classe...

terça-feira, 26 de julho de 2011

SÓ UM CEGO É QUE NÃO QUER VER

São muitos os comentadores, que vêm alertando para os riscos inerentes à acelerada privatização de grandes empresas nacionais dada a incapacidade de quem detém capital em Portugal para se apossar de tais activos e potenciá-los de acordo com os interesses do país. Explica Murteira Nabo no seu artigo de ontem no «Diário Económico». os grupos nacionais, além de pequenos, encontram-se hoje descapitalizados e incapazes de concorrer no desafio que se avizinha de poderem vir a ser controladores das maiores empresas portuguesas.
Irá, pois, ocorrer um inevitável enfraquecimento dos centros de decisão nacional. Com grave prejuízo da nossa economia, porquanto o valor criado tenderá a volatilizar-se para outros espaços económicos: É sabido que uma das primeiras decisões que, nestas circunstâncias, os grandes grupos tomam é o de maximizar as sinergias de grupo, reduzindo ao mínimo o valor acrescentado retido no país onde operam.
Aqui se sugere o quanto a opção ideológica por um capitalismo sem regras, nem protecções, porá em causa a exequibilidade autónoma do nosso país. Condenado a uma espécie de colonização económica, que demorará bastante a libertar.

domingo, 24 de julho de 2011

As preocupações dos deputados da maioria

Estava com curiosidade por saber qual o primeiro diploma legislativo, que os deputados da maioria iriam levar à aprovação no parlamento.
Seria algo de inovador para combater o desemprego? Ou para minorar a pauperização crescente da classe média portuguesa?
Nada disso: um assunto bem mais pertinente mereceu o esforço dos insignes deputados: a promoção e valorização dos bordados de Tibaldinho, uma pequena aldeia da freguesia de Alcafache.
Ficamos descansados quanto à determinação com que os deputados da maioria se preparam para atacar os aspectos mais importantes da vida dos cidadãos.

A ameaça fascista

Na Noruega dois atentados provocaram a morte de quase uma centena de militantes do partido do poder, falhando por pouco o próprio primeiro-ministro.
Na RTP - cada vez mais tendenciosa na (des)informação desde a saída de José Alberto Carvalho - logo se enfatizou a pista islâmica. As razões derivariam da presença de tropas norueguesas em missões da NATO em países muçulmanos e a iminente deportação de um clérigo fundamentalista para o Iraque.
E, no entanto, as características específicas destes atentados pressupunham uma origem bem diferente dos de raiz islâmica: quer por não terem havido conspiradores suicidas, quer por incidirem em alvos bem definidos pertencentes a uma das correntes ideológicas norueguesas.
A rápida detenção de um suspeito veio confirmar essa ilação: é a extrema-direita vestida de fundamentalismo religioso de natureza católica, quem imita os assassinos dos atentados do Oklahoma demonstrando que, embora os opinadores dos jornais e das televisões tenham uma obsessão pelos movimentos islamistas, os perigos podem vir da monstruosidade neofascista, que se acoita em franjas importantes das nossas sociedades ocidentais. Por isso mesmo os governos europeus deveriam olhar com bastante atenção para esses movimentos extremistas, que excitam ódios em mentes psicóticas. E reprimi-los com determinação, vedando-lhes o acesso a meios de disseminação das suas mensagens.
Em Portugal a repressão dessas ideias fascistas está consagrada na constituição. Cabe à esquerda assumir a exigência de uma acção constante e consequente contra os epígonos do assassino de Oslo… porque o sucedido na capital norueguesa poderá replicar-se em breve na Bélgica, na Holanda, na Finlândia ou na Áustria aonde as forças de extrema-direita têm progredido de forma inquietante.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Contestações insuspeitas

Enquanto o governo de Passos Coelho ainda vai usufruindo de boa televisão, com um coro de entusiásticos apoiantes a vibrarem com cada uma das suas (raríssimas) decisões, os jornais já estão a retirar-lhe o estado de graça com que começou.
Um bom exemplo disso mesmo foi o que sucedeu com o jornal «i». Recentemente comprado por Jaime Antunes, viu-se dirigido desde então por António Ribeiro Ferreira, cujas diatribes fascistóides contra José Sócrates chegaram a raiar o insultuoso.
À luz desse passado ainda recente contaríamos vê-lo entre os ululantes defensores do novo Governo. Puro engano!
Basta pegarmos em duas das suas crónicas mais recentes para constatarmos quanto poderão sair da sua pena alguns dos mais violentos ataques jornalísticos contra a nova situação política.
Por exemplo no editorial do dia 15, ele escrevia a propósito do tão incensado Ministro das Finanças:
Vítor Gaspar fez questão de mostrar que afinal este novo imposto não vai ser muito violento para os portugueses. Isto é, o ministro das Finanças deixou a porta aberta para mais impostos em 2012 de modo a conseguir reduzir o défice para os valores acordados com a troika. O que Vítor Gaspar quis dizer afinal é que na sua opinião ainda não foi alcançado o tal limite a partir do qual não será possível pedir mais sacrifícios aos portugueses. (…)
Quando Vítor Gaspar afirma que Portugal vai sair da crise e triunfará no exacto momento em que anuncia mais um imposto violento, que retira metade do subsídio de Natal aos portugueses, só pode estar a brincar. Com as pessoas e, já agora, com o fogo.
Convenhamos que é impossível discordar com o que ele escreveu. Porque, para além das suas olheiras e da sua suposta simpatia, o novo Ministro está determinado a levar por diante a transformação da economia nacional num campo de experiências para as suas idolatradas teorias miltonfriedmanianas, que tão mau resultado deram aonde foram aplicadas.
Já hoje, o mesmo Ribeiro Ferreira dirige a sua aspereza para com o sector financeiro responsável pela crise actual, quase se confundindo nos argumentos com a esquerda mais radical: Os miseráveis que provocaram esta tormenta continuam de pedra e cal à frente de bancos, empresas e instituições e, como não podia deixar de ser, estão cada vez mais ricos e poderosos. Há crimes mas não há responsabilização, não há castigo. (…)
Numa altura em que se pedem auditorias a tudo e mais alguma coisa, seria interessante perceber o que fizeram os sucessivos governos dos camiões de dinheiro recebidos de Bruxelas desde a adesão, em 1986.
Outro colunista do mesmo jornal em quem suspeitávamos de simpatias esquerdistas é Tomás Vasques, que escreve um texto muito crítico em relação ao actual governo: O que nos deve preocupar seriamente é, em primeiro lugar, a visão deste governo ao fazer incidir este imposto extraordinário sobretudo nos rendimentos do trabalho; em segundo lugar, não ter até ao momento conseguido elaborar uma proposta séria de redução das despesas do Estado, reduzindo-se ao folclore que condenava ao anterior governo: a de tirar a gravata para poupar energia entrou já no anedotário político e na piada de café.
O ministro das Finanças não explicou cabalmente, titubeando nas
respostas, a razão pela qual se excluíram deste esforço nacional os lucros das empresas e os rendimentos de capital, quer sobre dividendos, quer sobre juros de depósitos, não dividindo assim o mal pelas aldeias e, consequentemente, sobrecarregando o esforço exigido a quem trabalha. (…)
A conclusão óbvia sobre a decisão deste governo quanto a a incidência deste imposto recair principalmente sobre os rendimentos do trabalho e isentar do esforço nacional os lucros das empresas e os rendimentos de capital, é a subordinação à sua cartilha ideológica, segundo a qual se atribui aos custos do trabalho e à protecção legal de quem trabalha, consagrada no Código do Trabalho, a fonte de todos os males que impedem o crescimento económico. Esta visão, que protege os lucros das empresas e os rendimentos do capital, massacrando os fracos proventos de quem trabalha, conduz-nos, seguramente, a uma desgraça muito maior do que aquela em que estamos. Ir buscar dinheiro, para atingir as metas da consolidação orçamental, a quem ganha 600 ou 700 euros por mês e deixar de fora lucros de empresas e de rendimentos de capital de milhões euros é, no mínimo, um desvio colossal.