quarta-feira, 13 de julho de 2022

Uma questão de preconceito ou de pré-conceito?

 

1. Billy Wilder pôs-nos a ver Marilyn transformada em Sugar Kane Kowalczyk para justificar a regra de quanto mais quente melhor  (pelo menos na tradução lusa!), mas estes dias tórridos desmentem a regra: tempo demasiado quente incomoda-nos a sério, dão-nos conta (sobretudo aos séniores) das fraquezas e, sobretudo, confrontam-nos com os efeitos descontrolados das alterações climáticas. Pensando na lapidar frase do senhor Vladimir - que fazer? - não sabemos como dar a solução mais sensata para o anunciado apocalipse: o fim do capitalismo e a sua substituição por um ecossocialismo inevitavelmente musculado, porque não faltarão os indignados com os prejuízos de não continuarem alegremente a alargar, mais e mais, a pegada de carbono, que insistem vital para os seus privados interesses.

São muitos os que constatam não haver futuro para a continuidade da civilização humana no planeta azul se não se der o capitalismo como bem morto e enterrado, quiçá preferencialmente cremado para evitar invocações de mortos-vivos. Só não se sabe como impor a todo o planeta uma Visão sustentável, que implique melhor redistribuição das riquezas e contenção racional dos consumos.

2. Que entusiasmo o de alguma comunicação social com a suposta contraofensiva ucraniana em Kherson! E, no entanto, apesar de provável logro, como não compreendê-la como artifício de propaganda de Zelenski ao ver nuvens densas a toldarem-lhe o horizonte com os arrepios por que passam os alemães com o verem-se já sem o gás natural fluído pelo North Stream - condenando muitas fábricas a fecharem e a perspetivarem um inverno gélido nos lares dos que com ele se costumavam aquecer - e o fracasso da perspetiva de reduzir o custo do petróleo russo no mercado internacional através do preço dos seguros dos petroleiros, que o transportam para países não aderentes às sanções ocidentais.

Putin é, indubitavelmente, um execrável ditador, mas no xadrez da política mundial, tende a desmascarar como incompetentes amadores os que criaram o cerco político e militar à Rússia sem cuidarem das consequências, que a prazo, implicaria. Por isso Zelenski precisa da mais ínfima hipótese de um êxito militar para animar as hostes e adiar uma derrota, que se vai perfilando em diversas frentes.

Por estes dias os que se cingiram às “posições de princípio” para condenarem a invasão da Ucrânia sem olharem para a complexidade do que ali está em causa, devem viver no mesmo desconcerto que Daphne/ Jack Lemmon no final do mesmo filme de Wilder, ao deparar com a impensável resposta de Osgood Fielding perante a confissão de ser um homem.

Nesta altura Putin não está preocupado com nenhuns preconceitos ou, na perspetiva ocidental, pré-conceitos! Espicaçaram o urso, que dentro dele existe, e agora atenham-se com a sua fúria irracional. Que, é claro!, adia mais e mais, a mais do que urgente transformação política e social capaz de possibilitar futuro às gerações, que nos sucedam. 

segunda-feira, 11 de julho de 2022

Um limiar que não deveria ter sido transposto

 

As praias até podem estar muito agradáveis garantindo momentos retemperadores a quem as procura nesta altura. Mas não podemos alhear-nos das temperaturas acima do normal e da secura, não só no ar que respiramos, mas também nos solos alavancados na inquietante erosão. Por muito que as notícias se focalizem na guerra do leste europeu - agora menos, porque os russos vão levando a água ao seu moinho com a consolidação dos ditos territórios separatistas - são as alterações climáticas a merecerem atenção por muito que António Guerreiro considere que  ”já se ultrapassou o limiar em que a situação depende da ação humana e tudo o que está a acontecer se tornou irreversível.”

Esperemos que a justificada tentação de ordenar o confuso leve os europeus a tomarem direção diversa da decidida pela Comissão Europeia na subserviência a um império tão em declínio - os EUA - quanto aquele com que se confronta, por interposto exército, nas vastidões ucranianas. Porque se Putin sabe-se condenado perante um futuro menos ávido de hidrocarbonetos, os Estados Unidos avançam à medida da senilidade dos seus dois mais recentes titulares da Casa Branca: se aspiram manter-se como polícias do mundo veem esboroada a pax americana, que lhes assegurou a acumulação de riqueza dos seus próprios oligarcas. A ambição de manterem as coisas tal qual estão, desmente-se nos cenários de miséria extrema constatáveis nas principais cidades e nas,  perifericamente, por todos esquecidas.

Não duvido que, distinguindo-se dos colegas europeus, António Costa intui o que deveria ser feito e não inclui uma total submissão à liderança política e militar americana. Por isso não disse a Zelenski o que ele gostaria de ter ouvido. Mas há um problema grave com que o nosso primeiro-ministro se confronta: não é só Montenegro, ou os demais líderes da oposição interna, que pensam no diminutivo. São os próprios líderes europeus, que desdenham do seu próprio poder enquanto superpotência, que poderiam construir, em vez de se deixarem  enlear por preocupações distintas das que hoje já são prementes. Como aquela conjunção de avalanches nos Alpes e caos nos aeroportos, que pressupõem o tal niilismo referenciado por António Guerreiro e que estamos obrigados a superar aceleradamente. 

domingo, 10 de julho de 2022

Porque não nos admiramos com o que acontece?

 

Porque não nos admiramos com a insurreição popular no Sri Lanka ou com o assassinato do ex-primeiro-ministro japonês Shinzo Abe? Ambos os acontecimentos podem refletir a irracionalidade dos que os perpetraram, mas correspondem a uma relação causa-efeito entre o que os fundamentou e a forma como se expressaram.

No caso do sucedido no país asiático, e muito embora, haja a considerar tudo quanto sucedeu nas décadas mais recentes com o aniquilamento das antigas guerrilhas tâmil, a gota de água a extravasar o copo tem origem na guerra entre a Ucrânia e a Rússia e o consequente aumento dos combustíveis e dos alimentos no mercado internacional. Nesse sentido fazem-se apostas quanto a quem se seguirá, porque outros povos, sobretudo em África e na Ásia, passam pela mesma falta de tudo quanto é básico para a sobrevivência.  Uma vez mais o ocidente verá posta à prova a sua política de sanções e o quanto ela acaba por causar mais males do que benefícios.

No caso do político japonês ninguém esquece o seu papel no abandono da política pacifista imposta depois da Segunda Guerra Mundial e o quanto a consequente militarização se fez acompanhar de políticas de despudorado capitalismo selvagem, que atira para as margens da delinquência ou do mero abandono quantos a ele não se conseguem adaptar.

Nenhuma admiração causa internamente o posicionamento de Luis Montenegro que vem para desfazer tudo das políticas socialistas quanto estiver ao seu alcance, escusando-se a mudanças entendidas como fundamentais para diluir muitas das desigualdades existentes entre as regiões do país. Ademais, se António Costa estiver à sua espera para decidir onde construir o novo aeroporto bem pode esperar sentado, porque o novo/velho líder não se compromete com nada. Com os seus botões o primeiro-ministro sentirá que Pedro Nuno tinha sobejas razões para publicar o despacho, que tanta polémica causou.

Talvez por tudo isto uma das mais veteranas jornalistas do «Público», São José de Almeida, reconhece que Marcelo iniciou esta legislatura com entradas de leão, quando deu posse ao governo, mas os acontecimentos, e sobretudo, quem tem à frente do seu próprio exército para enfrentar os socialistas, refreiam-lhe a má vontade. Daí que se detete uma insólita acalmia no relacionamento entre Belém e São Bento... 

Mir – uma vida no Afeganistão, Phil Grabsky, Shoaib Sharafi e Mir Hussain, 2022

 

Anos atrás Robert Linklater foi incensado pelo «achado» de esperar doze anos para concluir um projeto - Boyhood - que implicava ir rodando as cenas com o jovem protagonista à medida que ele ia crescendo.

Antes de Linklater Phil Grabsky fez o mesmo com Mir Hussein durante vinte anos e, para além do reconhecimento de uns quantos festivais, não consta que o tenham promovido a quase estatuto de génio como sucedeu com o colega texano.

A primeira vez que o realizador britânico deu com o rapaz tinha ele 7 anos e vivia com a família nas grutas de Bamyân já depois dos talibãs terem destruído os Budas com a sua artilharia pesada.

Nos anos seguintes foi acompanhando a evolução do rapaz, primeiro reencontrando-o na terra natal, onde faltava à escola para ajudar a família no pastoreio ou, depois, enquanto mineiro nas jazidas de carvão. Por essa altura já Grabsky montara o material com ele filmado em dois documentários: The Boy who plays on the Budhas of Bamyân (2004) e The Boy Mir (2011).

O regresso ao Afeganistão aconteceu em vésperas da saída da NATO do seu território, justificada pela morte de 3500 dos seus militares e quando Mir, já com 27 anos, associou-se ao realizador enquanto operador de câmara apostado em colher imagens do caos criado pelos atentados suicidas, um dos quais quase o vitimou. Casado com uma rapariga, que se revela bastante lúcida perante as circunstâncias em que vivem, Mir é mais um dos que, na semiclandestinidade de Cabul, procura solução para, na emigração para o ocidente, garantir à família o sossego e a qualidade de vida ali impossibilitada.

Pelo rosto concreto do rapaz e dos familiares fica o retrato eloquente de uma realidade política, que constitui uma nódoa - mais uma!  - no criminoso imperialismo norte-americano. 

sexta-feira, 8 de julho de 2022

Cem dias depois

 

1. Cem dias de governo cumpridos esta sexta-feira e há quem teça considerações sobre a escassez de decisões bombásticas neles ocorridas. Pelo contrário, com os efeitos causados pela guerra na Ucrânia e os decorrentes de uma pandemia ainda anda por aí, todas as notícias convergem para o estado das coisas no SMS, nos hospitais ou nos aeroportos, para além dos incêndios agora a ganharem prioritária relevância nas notícias. Não deixando de manter em banho maria o diferendo entre António Costa e Pedro Nuno Santos.

Como balanço não vejo motivos para pôr em causa a confiança que lhe demonstrei com o meu voto. Porque, olha-se à volta, à esquerda e, sobretudo, à direita, e tudo aquilo é uma galeria de horrores evidenciada nos debates parlamentares, ou na recente rejeição de uma moção de censura, que o era sobretudo entre campos ideológicos afins.

Mas devo reconhecer que me sabe a pouco e quero mais. Espero que, vencidas as contrariedades mais candentes, este elenco governativo consolide o legado e continue a ser absolutamente inamovível quando os portugueses voltarem às urnas e ponderarem nos ganhos e perdas do conseguido com a sua ação.

Quase sete anos depois continuo a confiar na liderança de António Costa. E na que espero que lhe sucederá!

2. Pelo contrário Boris Johnson só não sairá de cena ostensivamente achincalhado, porque é demasiado trampolineiro para disfarçar de supostos sucessos o que é uma acumulação de derrotas pessoais. A principal é nada ter feito para reduzir uma crise económica, que se agudiza progressivamente numa Inglaterra a contas com as consequências do Brexit. Nesse sentido os colegas conservadores até lhe farão um favor ao abreviarem-lhe o confronto da realidade com a sua reconhecida incompetência, porque caberá a outro o palco de uma tragédia com condições para enegrecer a olhos vistos. E não deixa de ser elucidativa a suposta razão porque, demitindo-se, Boris Johnson quer manter-se no cargo mais uns meses: para ter casamento numa das residências oficiais ao seu dispor como primeiro-ministro e viver o inócuo glamour, que a sua tonta cabeça gosta de protagonizar.

terça-feira, 5 de julho de 2022

Notícias de gente com ideias recauchutadas

 

Quem faz básica ideia de quem sou adivinha a atenção, que investi no congresso do PSD. A exemplo do costumado e diligente cinéfilo, que foge dos filmes quando ao sabê-los interpretados por gente de talento abaixo do suportável, também passo ao lado do espetáculo político quando o palco é ocupado por quem substitui a inteligência em falta por serôdia chico-espertice.

Do que, sob a forma de distantes ecos me surgiram - mormente em telejornais como banda sonora de fundo para coisas mais importantes em curso - deu para concluir que António Costa bem pode esperar sentado se quiser depender de Luís Montenegro uma qualquer conversa sobre o novo aeroporto (e lá terá de dar razão a Pedro Nuno Santos quanto à pressa em decidir depressa e bem o que todos andaram a procrastinar nos últimos sessenta anos!) e que o presumível sucessor do novo líder laranja, Carlos Moedas, agiu em conformidade com as mal disfarçadas ambições.

Ora Moedas aparenta pífio mistério, que o não é, usando e abusando da condição de filho de comunista para apimentar a insonsa personalidade. Vai-se a ver o que resulta da sua ação concreta e nada se vislumbra. Por exemplo alguém consegue apontar uma, por pequenina que seja!, decisão enquanto comissário europeu, que tenha ficado como legado da sua passagem por Bruxelas? Ou indo atrás, ao governo de Passos Coelho, onde se deu a conhecer, algo sobra que o faça dissociar-se  daquele atoleiro de péssimas decisões políticas, merecedoras de definitiva condenação ao caixote do lixo da História, mas que Montenegro veio recauchutar como se apresentáveis nesta nova conjuntura?

A melhor demonstração do logro Moedas é o abandono, semana sim, semana sim, das várias promessas eleitorais com que ludibriou a maioria dos lisboetas. Nenhuma delas ganhou concretização e agora seguiu-se a relativa à nova Feira Popular. Ademais baseando-se numa crassa mentira: que nenhuma cidade europeia tem parques de diversão dentro do seu perímetro urbano.

Quantos exemplos quererá Moedas, que lhe apresentemos em como está a mentir com todos os dentes? E quantos lisboetas ainda estarão convencidos da sua boa decisão, quando decidiram afastar uma gestão municipal com sobejas provas dadas de competência para a substituir pela que acumula demonstrações do mais absurdo amadorismo?

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Notícias que se seguem...

Foi com expetativa, que li a crónica de Carmo Afonso em que aborda a aparente imolação do cordeiro, que constituiu o episódio criado ou construído em torno de Pedro Nuno Santos. E o paralelismo, que aventa, com conhecida série televisiva vem bem a propósito: “assistimos a um episódio do House of Cards sem nos darem a possibilidade de conhecer a parte mais fascinante e a que verdadeiramente interessa: a dos bastidores. Quem assistiu à série, e quem segue os meandros das dinâmicas da vida política, tem o instinto de desconfiar quando um episódio como o da semana passada acontece.”

Só podendo levantar hipótese sobre quem desempenhou o papel de Frank Underwood nesta estória - Pedro Nuno Santos? António Costa? Marcelo Rebelo de Sousa? - ela conclui com a mais esclarecedora das conclusões: tudo não passou de um fátuo incidente, que só animou as notícias durante dois dias. E, por isso, conclui: “temos direito a elaborar teorias. Até teríamos direito à verdade dos factos, que não nos é apresentada. É certo que não damos a cada tema mais do que dois dias de atenção. Facilitamos o procedimento de quem nos trata assim.”

E assim passamos naturalmente a outros assuntos.

sábado, 2 de julho de 2022

Perguntas e respostas ligeiras

 

Leio uns quantos textos jornalísticos neste início da manhã e surpreende-me como, levantando questões, não sabem dar ou sequer inventariar hipóteses de respostas. Por exemplo o que levou Pedro Nuno Santos - demasiado experiente e inteligente para nos convencer da sua aparente ingenuidade! - a protagonizar o episódio político desta semana? Ou qual o momento em que o PSD se tramou: quando o poder lhe caiu nas mãos pela desistência de Guterres e logo Durão Barroso dele fugiu tão-só pôde? Ou quando Passos Coelho fez da «peste grisalha» o inimigo de estimação, ademais abrindo espaço para surgir momentânea concorrência na sua coutada? E, porque quase deixaram os jornais de falar da guerra na Ucrânia? Apenas porque os «bons» estão a passar por sucessivas derrotas militares?

É verdade que a leitura matinal é feita com o objetivo de estimular as reflexões próprias e, nesse sentido, a enunciação de perguntas pode ser mais eficaz do que atraentes axiomas em take away. Mas o problema é não aparecer nada de aprofundado no que leio, nem sequer num Pacheco Pereira, com quem nunca concordo, mas ajuda a concluir algumas ideias pelo facto de se contraporem às que, com substância, costuma alinhar.

Relativamente a esses três exemplos vou concluindo que, futuramente melhor entenderemos o que pretendeu Pedro Nuno Santos com o ousado pronunciamento desta semana, rapidamente confirmaremos ter o PSD reiterada travessia no deserto com a liderança de Montenegro e que o papa tem alguma razão quando lamenta o inevitável conformismo ocidental com uma guerra, que não cumpre o objetivo de lhe aquietar as ilusões maniqueístas.

sexta-feira, 1 de julho de 2022

À espera da maré-cheia!

Que forrobodó foi o de ontem para a direita jornalística e para os comentadores por ela avençados, que se atiraram como gato a bofe a Pedro Nuno Santos sobre cujo futuro político se apressaram a redigir umas quantas notas necrológicas. Sem cuidarem de entender que, a exemplo do em tempos sucedido com Mark Twain, essas notícias pecarem por basto exageradas.

Quem me conhece sabe que sou um pedronunista assumido. Não ando cá para enganar ninguém e ainda espero viver o bastante para o ver como futuro primeiro-ministro. Mesmo que, ainda tarde em digerir o apoio a uma candidata à presidência da República, que jamais me passaria pela cabeça apoiar.

Uma das principais características, que me agradam no atual Ministro das Infraestruturas é o aprofundado conhecimento dos dossiers e a capacidade para decidir. Talvez seja essa a razão porque António Costa não possa dele privar-se porque, mesmo tendo-o destratado indecentemente, também sabe não contar no elenco governativo com quem se lhe iguale em competência. Por muito que o feitio de Pedro Nuno o incomode, adivinha o quanto ficaria a perder se dele prescindir.

Na longa vida profissional soube bem o quanto isso significa. Porque é sempre mais fácil encontrar quem não faz nem deixa fazer, do que, contra ventos e marés, não pensa noutra coisa.

Sabemos bem como, seja na questão do aeroporto, seja em muitas outras, tem prevalecido a vontade em adiar decisões a pretexto de necessidade de estudos disto e daquilo (ui! então se pensarmos naqueles que se dizem líderes dessa coisa abstrusa, que são os “movimentos ambientalistas”, nada se faria pelas mais absurdas razões!), apesar de não faltarem quantos esclarecem as mais insidiosas dúvidas de quem quer que as coisas sempre fiquem como estão e não mudem para quanto poderão ser melhores.

O auto de contrição de Pedro Nuno também comprova a sua inteligência: sabendo serem mais as marés que os marinheiros, não desconhece que o mundo dá muitas voltas e aquele que se vê momentaneamente achincalhado por gente medíocre, acaba por ver reconhecido o valor e, magnanimamente a trata-los com proba dignidade, quando lhes ficam sob a alçada.

Também a longa carreira profissional me deu provas concretas desse inevitável separar de águas entre os que têm qualidades admiráveis e os que, conjunturalmente as não têm. Por isso olhei com comiseração para quem se sucediam nos telejornais a acusar o ministro de incompetente quando se vai a ver e não se lhes conhece obra - nem uma que seja! - merecedora da nossa admiração.

Muitos até esfregavam as mãos de contentes por, neste fim-de-semana, Luis Montenegro ter alguma coisa que dizer aos congressistas do seu partido, quando por eles for entronizado como líder de circunstância. Mesmo nele se adivinhando lapidar exemplo de fraudulento explosivo falho de pólvora.

Pedro Nuno até pode ter conseguido o perverso efeito de ajudar António Costa nesta matéria. Porque, ao reiterar, com o suporte de Marcelo, que o PSD se agregue à melhor decisão quanto ao novo aeroporto, como poderá Montenegro escusar-se a pretexto de se tratar de matéria apenas do foro do governo? A repeti-lo, poderão os socialistas reclamar que bem quereriam decisões consensualizadas por maioria qualificada, que será a oposição a delas se escusar. E António Costa surgirá como bailador, disponível para dar palco a quem com ele aceite dançar o tango, mas sozinho perante não haver quem tenha arte para disfarçar a ridícula vulgaridade.

Uma nota final para, apesar de tantos especialistas em obstetrícia  e ginecologia da véspera se terem reciclado subitamente em especialistas das questões aeroportuárias, ninguém ter contestado como inadequada a solução final por Alcochete, à qual o próprio Pedro Nuno aderiu após muito estudo do que estava em causa. E todos quiseram esquecer o forte argumento do ministro para avançar depressa e bem: os muitos milhões, que o país se arrisca a perder em receitas turísticas enquanto procrastinar por mais umas décadas a inauguração do novo aeroporto.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

Alguns comentários sobre o que li no jornal da Sonae

 

1. 92% dos pilotos da TAP votaram para que não se fizesse greve nesta altura do verão, quando importa dar possibilidades reais a que o plano de recuperação da companhia se concretize. O que levou Manuel Carvalho a constatar ter prevalecido o bom senso e ter-se evitado um ultraje aos portugueses.

2. Numa abordagem ao recente reconhecimento da Ucrânia, da Moldova e da Geórgia como candidatos à adesão à União Europeia, o secretário de Estado dos Assuntos Europeus, Tiago Antunes, confirma o pouco entusiasmo, que a hipótese suscita em quem tem uma noção do que isso verdadeiramente significa: na sua organização atual e moldes de financiamento, a UE não tem condições para abarcar esse alargamento, havendo que fazer o necessário para evitar o ressentimento dos que sentirão defraudadas as suas expetativas.

3. Tem razão Domingos Lopes, quando, a propósito da guerra na Ucrânia, afirma: “os que não aplicaram uma mera censura aos EUA pela invasão e mortandade no Iraque aplicam agora as mais duras sanções à Rússia, as quais estão a atingir duramente os povos da Europa e sobretudo da África.”

É que as cenas tão abundantemente hoje emitidas pelas televisões em nada diferem das causadas pelos bombardeamentos americanos no Iraque. Com um número de vítimas mortais muito superiores às que se contabilizam no atual palco de guerra. E, na época, ninguém sancionou os EUA pelo sucedido nem convidou Saddam Hussein - enquanto líder de um país invadido por razões falsas - a discursar em nenhum fórum internacional.

4. Vale-nos Carmo Afonso para sabermos que o Observador anda a publicar artigos de opinião de um tal Lucas Claro que, a propósito da emigração de gente pobre para Portugal, o leva a repetir aquilo que os nazis europeus andam ignobilmente a difundir: que existe o risco de uma “grande substituição” na tez maioritária de quem, daqui a pouco, habitará este cantinho à beira-mar plantado.

Num dos mais inspirados trechos da sua crónica a autora constata uma evidência lapidar: “reparem que aqueles que se consideram a pura representação dos nossos genes portugueses não são pessoas particularmente beneficiadas pela inteligência. Imaginem um país onde predominassem pessoas como o autor do artigo em causa. É que mesmo sem saber quem é, ou o que faz, deve temer-se o pior.” 

terça-feira, 28 de junho de 2022

A locomotiva europeia a desacelerar

 

Na recente cimeira do G7, Joe Biden passou a mão pelo lombo de Olaf Scholz, mimando-o como se se tratasse do seu mais recente e dócil animal doméstico.

Ao olhar a cena, e comparando-o com a medíocre, mas afortunada Angela Merkel, que beneficiou de um conjunto muito favorável de fatores, para ser incensada como política de exceção - algo que muitos dos pretéritos admiradores começam a questionar -, perguntei-me se o atual chanceler alemão estará confortável na camisa de forças em que se vê tolhido. É que, doravante, não poderá contar com o acesso à energia barata vinda da Rússia, terá de investir em despesas militares como o país não fizera desde a Segunda Guerra Mundial, e verá dificultadas as exportações para os mercados russo e chinês, que pareciam não conhecer limites.

Se não gripar a máquina alemã terá de se acomodar a velocidade bem mais reduzida. Com o que isso implica para a que tem sido a locomotiva da economia europeia.

Os burocratas de Bruxelas enfrentam dilemas para que não têm fáceis soluções. 

segunda-feira, 27 de junho de 2022

O momento atual faz de Nero um bom rapaz

 

Piores que Nero é como António Guterres justamente considera os atuais dirigentes políticos responsáveis pelo incrível número de 11 milhões de dólares por minuto com que subsidiam o carvão, o petróleo e o gás natural, combustíveis fósseis com a conhecida importância no aquecimento global.

O caos climático está a rondar-nos, mas esses dirigentes comportam-se como se o amanhã não se verificasse já nos dias de hoje. Por isso o secretário-geral das Nações Unidas diz que, se o imperador tangia lira enquanto Roma ardia, os atuais dirigentes políticos fartam-se de atirar mais e mais achas para a fogueira. Para gáudio das indústrias, que exploram os hidrocarbonetos e tudo fazem para dificultarem a afirmação acelerada das energias renováveis.

No quadro da atual guerra, tanta culpa tem Putin, quanto o oligarca por trás de Zelenski, particularmente interessado na exploração das minas do Donbass, quer ainda todos quantos decidiram sanções, que os põem agora a reativar as centrais a carvão recentemente encerradas, depois de tão firmes juras ecológicas de respeito pelo limite máximo de 1,5ºC a partir do qual se adivinham cataclismos sem fim. 

domingo, 26 de junho de 2022

A prioridade de usar a cabeça onde se tem deixado só decidir o coração

 

Médico, etologista, neurologista e psiquiatra, Boris Cyrulnik, é dos entrevistados mais interessantes, que gosto de apreciar, quando algum programa da televisão ou da rádio se lembra de o convocar. Agora, em plena guerra na Ucrânia, foi incontornável ouvi-lo sobre um conflito, que vai lacerando o espaço físico donde proveio boa parte da sua família paterna.

E, à primeira vista, é o totalitarismo putinista, que lhe parece iluminar as palavras, quando lembra ser a submissão muito confortável para a maioria das pessoas, porque assim se poupa a pensar pela própria cabeça. Se desde a tenra infância nos obrigaram a obedecer - em casa, na escola - aceita-se tendencialmente o que se sabe dever-se defender, ou seja aquilo que poderemos entender como “pensamento dominante”. E é em nome dele que muitos ditadores são eleitos “democraticamente” para os seus cargos, como sucedeu com Putin, Bolsonaro, Trump ou ... Zelenski.

Onde a tese de Cyrulnik esbarra com a isolada crítica ao putinismo é no facto do seu mentor não suscitar aquilo que designa como o “coro dos periquitos”. Porque o Kremlin nem sequer convoca aquele tipo de manifestações vistas nos tempos de Hitler, Mussolini ou Salazar, em que o conforto da servidão era alimentado pela sensação de se pertencer a um coletivo, fomentando-se o “pensamento preguiçoso” em que não se reflete, porque os outros o fazem por nós.

E é aqui que entram em cena os que desconfiam da versão comummente divulgada sobre o quando e o que esteve na origem desta guerra bem como ela se tem desenvolvido. Sobretudo, porque já não suportam a presença quotidiana do nenuco de Kiev nas notícias e muito menos a sua despudorada propaganda.

Sabemos que Putin é um ditador, mas ninguém nos procura enganar sobre essa condição, nem mesmo ele próprio, que parece conformar-se, se não mesmo comprazer-se com as vestes de um tenebroso Dark Vader dos tempos atuais. Mas é claro que Zelenskii não é nenhum menino de coro e confirmam-no as contas em paraísos fiscais, abundantemente denunciadas pelo Consórcio Internacional dos Jornalistas de Investigação, que as sabem relacionadas com a indisfarçável ligação aos oligarcas do seu país.

É por isso mesmo que, dando razão ao conhecido neurologista francês, sabemo-nos talhados para o que o método científico nos deve predispor: duvidar das evidências, que nos querem enfiar olhos adentro, colocar perguntas para as quais não nos satisfaçamos com o pensamento dos que querem impor-se como líderes do nosso clã.

Cyrulnik lembra que, quando esteve ligado à testagem de novos medicamentos, o objetivo era descobrir os efeitos negativos a eles associados não se deixando apenas convencer pelos benefícios que pareciam comportar.

A solução, na análise científica, a par da que diz respeito à política, não é procurar respostas que apenas venham confirmar aquelas que nos parecem substantivamente boas. A atitude mais sensata é detetar o que corresponda a outra perspetiva. Como por exemplo a de nos questionarmos sobre a inteligência dos sucessivos pacotes de sanções, que os líderes europeus foram instados a aprovar por chantagem de quem ainda manda em Kiev, e que, não só se mostraram incapazes de derrubar o rublo, ou depauperar a balança comercial russa alavancada pelos preços do barril do petróleo, como também está a traduzir-se numa cada vez mais insuportável inflação e falta de recursos energéticos a ocidente, que alimentam uma fogueira em que os populismos encontrarão acrescido alento.