terça-feira, 6 de maio de 2014

FILME: «ATO DE MATAR» de Joshua Oppenheimer

Indonésia, outubro de 1965. O general Suharto apossa-se do poder através de um golpe de Estado. Começa então um dos mais terríveis genocídios do século XX: de Sumatra ao Bali, tropas paramilitares com delinquentes e cidadãos vulgares lançam-se numa orgia sangrenta, torturando e massacrando todos quantos desconfiam serem comunistas ou emigrantes de origem chinesa.
As vítimas poderão ter chegado aos três milhões de pessoas, muito embora ninguém afiance um número concreto, porque esse massacre nunca foi estudado.
Os seus autores ainda hoje se vangloriam dos seus atos, sendo considerados como heróis por uma parte significativa da população indonésia.
O cineasta norte-americano Joshua Oppenheimer encontrou esses assassinos e face à câmara eles explicam como levaram a efeito esses assassinatos, sem mostrarem o menor remorso.
Oppenheimer confessaria depois que a maior dificuldade que sentiu durante a rodagem deste filme foi a de reprimir o seu sentimento de horror. Tanto mais que muitos dos seus familiares tinham sido vítimas do Holocausto.
O seu filme seria nomeado para o Óscar do melhor documentário e tem estado em exibição num cinema de Lisboa. Vê-lo constitui um imperativo cívico, porque é praticamente a única forma de homenagearmos as vítimas e condenarmos os carrascos.
No início do filme uma legenda dá-nos a informação básica e mostra-se comedida no cálculo das vítimas:
Indonésia 1965: um golpe de Estado militar derruba o governo. Os que se opõem à ditadura militar arriscam-se a serem acusados de comunistas, sindicalistas, camponeses sem terra, intelectuais ou Chineses.
Em menos de um ano, e graças ao apoio dos governos ocidentais, foram massacrados mais de um milhão de “comunistas”.
O exército recorreu a unidades paramilitares e a gangsters para perpetrar esses massacres.
Esses homens ainda hoje estão no poder  e continuam a perseguir sem qualquer escrúpulo os que se lhes opõem.
Quando encontrámos os assassinos eles contaram-nos as suas proezas com orgulho. Para compreendermos porquê pedimos-lhes que encenassem os assassinatos que cometeram.
O filme documenta esse processo e as suas consequências.



DOCUMENTÁRIO: “Quem roubou a Gioconda?» de Joe Medeiros

Quem chega à mais concorrida sala do Louvre e depara com o quadro tem a deceção inerente ao seu reduzido tamanho. 77 centímetros de altura e 53 de largura.
Com tantas cabeças postadas à sua frente é difícil ver o sorriso enigmático e o olhar de soslaio da mulher mais admirada do mundo.
Mais de quinhentos anos depois de ter surgido do pincel de Leonardo da Vinci, a Gioconda continua a atrair diariamente milhares de visitantes e a inspirar artistas, cientistas ou publicitários.
Exemplos mais recentes: a campanha da Liga Italiana contra o Cancro em que ela aparece de cabeça rapada ou o título «Smile Mona Lisa» de um dos rappers do Black Eyed Peas.
Não admira que se continuem a rodar filmes e documentários, que a tenham por tema. O do norte-americano Joe Medeiros, rodado em 2013, dedica-se a abordar o roubo a que ela foi sujeita em 1911 por um operário italiano.
De facto, em 21 de agosto de 1911, o retrato de Mona Lisa desaparece do salão Carré do Louvre e durante dois anos e meio ninguém consegue-lhe adivinhar o paradeiro.
Transforma-se num dos casos mais mediáticos dessa época.
A polícia francesa, desconcertada, não negligencia nenhuma pista. Mas o tempo vai passando e os parisienses vão-se adaptando á ideia de não tornarem a ver a obra de Leonardo da Vinci. Quando, afinal, quer o quadro, quer quem o roubou, estão ali bem perto do local do crime, num sótão do 10º Bairro de Paris.
Em dezembro de 1913, o operário italiano Vincenzo Perrugia escreve a um negociante de arte de Florença chamado Alfredo Geri para lhe confidenciar a intenção de expedir o quadro para Itália: na verdade ele acredita que a maioria das obras de arte italianas expostas no Louvre foram roubadas por Napoleão.
Geri convence então Perrugia a levar-lhe o quadro aos Uffizi e ele é aí apanhado pela polícia. Dias depois o quadro voltava ao célebre museu francês...


segunda-feira, 5 de maio de 2014

BANDA SONORA: «Suita Dobromireasca» pelos Zakouska

E cá temos finalmente música de Leste que sai dos habituais modelos de fanfarras para casamentos e funerais. Trata-se de música, ao mesmo tempo feita em França, mas enraizada na tradição romena e muito, mas muito imaginativa. Porque é preciso ouvir com atenção o talento com que estes quatro instrumentistas voltam a atravessar os Cárpatos, recorrendo  à sua formação clássica ou a sua experiência jazzística para recriar melodias e harmonias de um reportório balcânico a que conferem a sua originalidade jubilatória. 



ARTISTAS CONTEMPORANEOS: Stephen Balkenhol

O escultor Stephan Balkenhol nasceu em 1957 em Fritzlar (Hesse) na Alemanha, e faz parte da nova geração de artistas alemães dispostos a prolongarem alguns elementos da arte figurativa, mesmo que demarcando-se claramente dos seus antecessores neoexpressionistas (Georg Baselitz, Jörg Immendorf, A. R. Penck), que recorriam a uma certa selvajaria, a formas primitivas e violentas. Assim, as esculturas de Balkenhol representam personagens contemporâneos, muito frequentemente no seu tamanho natural, com rostos inexpressivos, em poses quase hieráticas reveladoras de serenidade, senão mesmo de humor.
Sem grandes efeitos, o trabalho formal executado por Balkenhol confere-lhes um aspeto poderoso e maciço, mas ao mesmo tempo frágil e magro.
Enquanto estudava na Escola de Belas Artes de Hamburgo, no atelier de  Ulrich Rückriem, de quem se tornaria assistente entre 1976 e 1982, realiza fotografias com pessoas que encontra na rua. No início dos anos 80 experimenta «esculturas geladas», que são feitos com objetos moldados em gelo.
As suas primeiras esculturas em madeira - material que se tornará o da sua predileção! - datam de 1982, quando faz uma cabeça de homem e outra de mulher. É este género de esculturas, que apresentará na sua primeira exposição individual em 1984, na galeria Löhrl, em Mönchengladbach. 
Nos anos 90, Balkenhol começa a ser conhecido do grande público e expõe em numerosos museus e galerias europeias e americanas. Entre as exposições mais emblemáticas por ele protagonizadas desde então estão as que realiza no Hirshhorn Museum de Washington (1995), no Montreal Museum of Fine Arts (1996), no Sprengel Museum em Hanovre (2003) e no Staatliche Kunsthalle, Baden-Baden (2006).
Não se pode propriamente afirmar que as esculturas de Balkenhol marquem verdadeiramente um regresso ao figurativo já que numerosos artistas, com projetos distintos (César, Segal, Hanson, Paolini, Cragg, Gormley, entre outros) nunca deixaram essa corrente, muito embora se tenha verificado um hiato do tipo «terra queimada», causado pelas vanguardas dos anos 60 e 70, mais apostadas no corpo vivo (com happenings e performances) do que a sua representação.
Nesse final do século, ao optar por talhar formas humanas bastante realistas na madeira, cria personagens que se nos assemelham pelo tamanho, roupas ou poses, e candidata-se a ser tido como herdeiro de uma antiga tradição (vinda da antiguidade grega, romana ou até mesmo egípcia), ao mesmo tempo que anuncia uma outra forma de abordar a problemática da figura. Ainda que ele afirme: Longe de ser orgânico, o meu trabalho é arquitetónico, no sentido tectónico da arquitetura dos corpos.
Passando em revista esta dimensão arquitetónica e antropomórfica das suas esculturas, o artista executou homens e mulheres em diferentes escalas, perfeitamente caracterizados, de pé, sentados, alongados, em grupos ou sozinhos (nalguns casos as cabeças podem chegar a metro e meio de altura!) pintados com cores vivas para as esculturas vestidas ou figuras desnudadas só tendo cor na boca ou nos cabelos.
No início dos anos 90, Balkenhol também começa a dedicar-se a esculpir animais, seja isolados - leão, serpente, ostra - ou em grupo, como os «Seis Ursos» (1991) ou os «57 Pinguins» (1991).
Às vezes ele encena o homem e o animal, como sucede com Man on a Snail (1990), uma escultura com um homem sentado sobre um caracol.
Quer se trate de figuras humanas ou de animais, os tratamentos escultóricos e os materiais são sempre os mesmos. Sem qualquer intenção psicológica ou simbólica - seja moral, social ou política - as esculturas de Balkenhol procuram confrontar-nos com o homem na sua dimensão física.
Já neste século, Stephan Balkenhol questiona a relação entre a pintura e a escultura ao criar quadros esculpidos em baixo relevo sobre madeira pintada e apresentados em contraponto a personagens de pequenas dimensões esculpidos em pé empoleiradas em grandes pedestais verticais.
A exemplo de qualquer artesão, o artista trabalha a madeira em bruto, não se preocupando em disfarçar os golpes do cinzel, as imperfeições, as fissuras, os nós da madeira.
Sem polimento, mostrando-se rugosas ao tato, as esculturas são depois cobertas parcialmente com cores vivas, como sucedia com a estatuária medieval ou expressionista.



HISTÓRIA: um tal Rumsfeld a contas com o nosso 25 de abril

As comemorações dos 40 anos do 25 de abril já lá vão e, embora significativas, as manifestações de rua, ocorridas na véspera e no próprio dia da Revolução, não conseguiram tornar-se na tal gota, que pudesse extravasar o copo já demasiado cheio dessa malfadada austeridade de que os portugueses estão fartos.
Mas, de entre as muitas novidades trazidas por conferências e artigos de jornais e revistas, vale a pena salientar um aspeto menos conhecido do que se passou em 1974/75 e a afirmação global de uma tendência que se estendeu a outros lugares.
O lado menos conhecido do que então ocorreu, nomeadamente a intervenção significativa dos norte-americanos no sentido de deixarem cair a tentação golpista de Spínola - então disposto a tornar-se num novo Pinochet - e apoiarem Mário Soares contra a opinião do influente Kissinger, que via nele um novo Kerensky, muito se deveu à persistência na defesa dessa tese pelo embaixador Carlucci junto do presidente Gerald Ford, contando para tal com o apoio de Donald Rumsfeld, que tinha um ódio de estimação pelo secretário de Estado.
Temos, pois, a notícia de se ter evitado a guerra civil em Portugal no Verão Quente de 1975 por ação indireta e de um crápula, que se tornaria depois tão conhecido devido ao seu papel na invasão do Iraque.
Mas estas comemorações também serviram para mostrar o papel pioneiro da Revolução dos Cravos num conjunto muito significativo de outras transformações radicais noutras latitudes, com efeitos imediatos na Grécia ou na Espanha - onde as ditaduras pouco mais se aguentaram! - mas também antiga Rodésia, no Brasil, na Argentina, na África do Sul e em muitos outros países onde o imperativo democrático se sobrepôs à vontade de tantos déspotas.
Pode-se dizer que, virando à esquerda, Portugal deu um sinal de partida para que o mundo o imitasse.


POLÍTICA: será que o Orelhas anda a fugir do Animal Feroz?

Semana após semana a montanha anda a parir um rato: primeiro foi o pretexto da vitória do Benfica no campeonato nacional a adiar o reencontro de José Sócrates com josé rodrigues dos santos depois deste ter levado com um merecido atestado de estupidez.. Desta feita, quando esperávamos novo e palpitante embate entre o “animal feroz” e o bajulador-mor do (des)governo na RTP, foi josé adelino faria quem surgiu a fazer as despesas da conversa. Com os mesmos objetivos de contrariar os argumentos do interlocutor, ainda que de forma mais polida, em favor de quem acabara de encenar uma tão tosca quanto descarada manobra eleitoralista a propósito da suposta «saída limpa» do memorando.
Mas embora não tenha procurado limitar a clareza da exposição de Sócrates apressando-o sempre em função da escassez de tempo, a verdade é que a duração da rubrica tem diminuído consecutivamente e, desta feita, não chegou sequer aos quinze minutos. Os suficientes, porém, para que ficasse uma vez mais desmentida a mistificação de passos coelho em como foram os socialistas quem quiseram trazer a troika para Portugal. As afirmações do atual primeiro-ministro esbarram com estrondo com as que ele proferiu abundantemente na altura em que já não conseguia esconder a forte salivação por se abeirar do desejado pote.
Mas a despudorada conduta da RTP para com Sócrates vai ao ponto de apresentar, depois da sua Opinião, as posições oficiais do PSD e do CDS sobre a comunicação de passos coelho. Como se julgassem possível que as mentiras grosseiras de matos correia e de nuno melo conseguissem menorizar o que ficara exposto tão claramente nos minutos anteriores. Sobretudo quanto à prossecução das políticas de austeridade por esta coligação que, além de economicamente opostas à necessidade de crescimento do PIB e à redução do desemprego, só continuam a vigorar por manifesta miopia ideológica de quem a impõe.
Faltam três semanas para ajustarmos contas com este (des)governo no primeiro round eleitoral em que o poderemos julgar. E é altura de cumprirmos o nosso dever: quanto mais depressa corrermos com esta gente, mais a esperança em dias melhores se tornará possível.


domingo, 4 de maio de 2014

IDEIAS: a dimensão abstrata do Mal absoluto (II)

Para Hegel ver o Mal significava ver mal, porque as dores individuais devem ser constatadas num âmbito mais geral definido pela razão histórica ou pela assumpção de um espírito objetivo. Ao vermos uma cena de massacre, por exemplo, Hegel diria sermos míopes por nos cingirmos a ela sem irmos mais além, para aquilo que nos diria a totalidade da História.
Hoje é difícil que aceitemos racionalizar o Mal em função de uma qualquer justificação. Porque corresponde a esquecer o sofrimento e a alteridade com ele associada.
Olhando para o vídeo da explosão atómica sobre Nagasaki é fácil concluir que o homem é o carrasco de si mesmo enquanto espécie. E é capaz de chegar à destruição total de toda a Humanidade.
Torna-se exequível uma História na qual não existiriam mais homens em função de uma causa humana. E em que deixa de se pensar que o Mal apenas corresponde à expressão de um momento. Mas já Jean Jacques Rousseau dizia que se a Humanidade confiasse plenamente na Razão, há muito que teria desaparecido, pelo que importaria valorizar o conceito de piedade, de compaixão. Que é o respeito pelas dores alheias, mesmo quando não são sentidas senão pelas vítimas.
No século XX a Humanidade está em liberdade condicional. É o que se depreende do célebre editorial escrito por Albert Camus para o jornal «Combat», quando, a 8 de agosto de 1945, comenta a explosão da bomba atómica em Hiroshima:
O mundo é o que é, ou seja, pouca coisa. É o que cada um sabe desde ontem graças ao formidável concerto que a rádio, os jornais e as agências de informação acabam de desencadear a respeito da bomba atómica. Informam-nos, de facto, no meio de uma multitude de comentários entusiasmados, que qualquer cidade de dimensão mediana pode ser totalmente arrasada com uma bomba do tamanho de uma bola de futebol.
Jornais americanos, ingleses e franceses multiplicam-se em dissertações elegantes sobre o futuro, o passado, os inventores, o custo, a vocação pacífica e os efeitos bélicos, as consequências políticas e até o carácter independente da bomba atómica.
Nós resumimos tudo isso numa só frase: a civilização mecanizada acaba de alcançar o seu grau derradeiro de selvajaria. Irá ser necessário escolher, num futuro mais ou menos próximo, entre o suicídio coletivo e a utilização inteligente das conquistas científicas.
O mundo pode, de facto, continuar a existir sem os humanos. Porque, como ficou demonstrado em Hiroxima e Nagasáqui, milhares de pessoas podem morrer num breve instante apenas porque um indivíduo carrega num botão a dez mil metros de altitude, o que quase se assemelha a uma abstração. O cogumelo até pode suscitar uma apreciação estética sobre a sua beleza, dissociado do efeito que provoca.
 O que nos pode levar precisamente a essa questão subsequente: em si o Mal não passa de uma abstração? Porque, seja no Ruanda, seja nas cidades-mártires do Japão, quem perpetrou os crimes voltou para casa à noite convencido da desresponsabilização dos seus próprios atos.
O século XX poderá ter trazido uma alteração da questão do Mal em função dos meios, das tecnologias, de que passámos a dspor.
Günther Anders reconhece essa mesma alteração com a chegada do século XX ao considerar inimaginável o que possa acontecer. De facto, nos meses anteriores a qualquer uma das guerras mundiais ninguém podia conceber a dimensão dos morticínios, que se seguiriam.
E estávamos ainda distantes de todas as novas tecnologias do século XXI, que incrementam essa dimensão abstrata do Mal produzido pelas guerras à distância de que os norte-americanos se estão a revelar tão especializados.



IDEIAS: o Mal absoluto (I)

Pode-se fazer o mal pelo mal? É a pergunta que se pode colocar ao ler-se «Une Saison de Machettes», (2003) um dos impressionantes relatos que o jornalista Jean Hatzfeld  publicou em forma de livro sobre as terríveis chacinas perpetradas pelos hútus sobre os tutsis no Ruanda em 1994. Oitocentos mil mortos em quatro semanas seria o trágico saldo final.
No livro temos abundantes descrições de como gente aparentemente normal cumpria as suas rotinas quotidianas e dedicava-se depois a perseguir os vizinhos com machados para os matar sem qualquer escrúpulo. Decididos a, fossem eles velhos, mulheres ou crianças - desde que fossem tutsis - a exterminá-los até não restar nenhum!
O que é terrível constatar em tal relato é que esses carrascos não correspondiam em nada aos seres demoníacos, que imaginaríamos capazes de tais atos. À partida tratavam-se de pessoas tidas como “normais”.
É perante essa constatação, que gostaríamos de ter uma explicação.
Onde reside a origem de tal horror, desse mal no estado puro? Exige-se que se compreenda o que realmente se passou! È que o Mal seria mais facilmente digerível se constatássemos que o assassino nada tinha de humano.
Em vez de monstros deparamo-nos, porém, com assassinos, que são pessoas banais. Estamos assim no mesmo plano de perplexidade em que se situava Hannah Arendt, quando tentava compreender as motivações de Adolf Eichmann, um fulano banal, em quem não conseguia detetar nada de excecional, mas fora capaz de operacionalizar toda a logística do Holocausto. E ela previa que a verdadeira questão, a ser focalizada pela filosofia do século XXI seria precisamente a do Mal, aquela com que somos agora confrontados.
O filósofo Olivier Dhilly coloca duas possibilidades: ou se arrisca, de facto, uma explicação, caindo no risco dela servir de justificação ao injustificável ou opta-se por nada dizer, assumindo-se um fracasso intelectual.
Primo Levi, no seu livro «Se Isto é um Homem» considerava que não podemos, mas devemos compreender o que se passou num genocídio. O Mal constitui, pois, um verdadeiro desafio para o pensamento!
Perante imagens terríveis como a que acompanha este texto as perguntas óbvias são: como é que podemos calar a indignação, que elas nos suscitam? Como poderemos traduzi-la em palavras?
No romance de Dostoïevski «Os Irmãos Karamazov», Ivan fala ao seu irmão Aliocha e diz-lhe que no dia do Juízo Final, Deus tratará de reconciliar todos quantos ali compareceram, alcançando-se a Harmonia Universal. O que levará Albert Camus a considerar que, nesse mesmo momento, Ivan está a julgar Deus, pois este mostra-se complacente por exemplo com o sofrimento de uma criança, que só por si já nos deveria revoltar...
Na realidade o trágico nunca pode ser reconciliável!
A mesma ideia está patente no «Livro de Job» na Bíblia, quando este diz aos amigos não existir qualquer correlação entre o mal cometido e o mal sofrido. Na realidade o sofrimento (ou o mal sofrido) não é reconciliável no âmbito de uma conceção de harmonia.


CINEMA: Sob o signo de Ingmar Bergman

Na véspera do encerramento do Festival Indie deste ano, a nossa despedida fez-se sob o signo de Ingmar Bergman. Seria um programa promissor, que nos comprometeria a ficar sentados nas cadeiras das salas Félix Ribeiro e Luís de Pina da Cinemateca durante quase quatro horas para revisitar um dos cineastas mais influentes na nossa adolescência durante a década de setenta, quando ele já então era idolatrado como um dos grandes mestres da sétima arte, mas vivia uma viragem singular no percurso criativo, que já contava com títulos de referência nas duas décadas anteriores.
Estava prevista a exibição de «O Rosto» e do documentário «Trespassing Bergman», mas só a segunda parte do programa foi cumprida: logo na bilheteira surgia o aviso em como devido a um pedido do exibidor - que decerto prepara a apresentação do filme programado para o «Nimas» - seria «A Hora do Lobo» a surgir como proposta alternativa. Ora este filme já o víramos há uns meses atrás, quando integrara a programação regular da Cinemateca, e não nos suscitara particular adesão. Mas, como comentaria depois Woody Allen no documentário sobre a vida e obra do realizador, Bergman nunca foi cineasta para se ir de peito feito para a abordagem dos seus filmes sem procurar prévia informação de apoio. E, desta feita, as quatro folhas distribuídas com um texto esclarecedor de João Bénard da Costa fizeram toda a diferença. Aquela que nos parecera uma obra menor comparativamente com outras, que reputaríamos bem mais relevantes na sua filmografia, acabou por se revelar uma dos mais elucidativas sobre os demónios interiores, que sempre acompanharam o realizador nos seus oitenta e nove anos de vida e o chegaram a sinalizar como autor de filmes inadequados para mentes depressivas.
Desta feita constituiu um desafio interessante identificar na progressiva deriva do pintor Borg para a loucura, e sobretudo nos fantasmas que para ali o empurram, muitas das referências biográficas do realizador, que nunca as deixaria de explorar filme após filme, mesmo quando não se tratava de proposta tão assumidamente autobiográfica como o era «Fanny e Alexandre».
Existe o distanciamento progressivo do casal, que começara por parecer sinceramente apaixonado, a impossibilidade de escapar ao que se foi e a quem se conheceu, a opção por uma representação teatral e a relevância conferida aos pesadelos. Já rodado na ilha de Farö para onde se mudava todos os verões com a sua equipa técnica e com os atores, Bergman também aproveitava para experimentar os processos e a estética própria dos filmes de terror.
Quanto a «Trespassing Bergman» começa por haver uma boa ideia à partida, mas cuja concretização fica aquém do que desejaríamos. A equipa de produção do documentário convidou alguns cineastas a visitarem a casa do realizador em Farö, ignorando a proibição de visitá-la por que o proprietário era tão cioso. Temos assim Alejandro González Iñárritu, Tomas Alfredson, John Landis, Claire Denis e Michael Haneke a invadirem o santuário do mestre e a  espreitarem as videocassetes e os livros da sua coleção, o mobiliário e a paisagem em torno da casa.
Mas, em vez de se partir daí para a abordagem concreta das principais obsessões de Bergman e de como ele operara a respetiva catarse nos seus filmes - o tema que mais nos interessaria! - ou, em alternativa, como o seu cinema influenciara o percurso criativo de outros realizadores, pouco se acrescenta. O mesmo sucedendo com o desfile de toda uma feira de vaidades, ou seja de um conjunto de depoentes que, à exceção de Woody Allen - o mais consistente no relato sobre como descobrira o cineasta sueco e ele o influenciara - e de Lars von Trier - que repisa o seu sempiterno número do provocador de serviço - nenhum dos outros acrescenta algo de novo por muito que se chamem Scorcese, Coppola, Kitano, Ang Lee, Wes Anderson ou Zhang Yimou.
O mais interessante residirá na evocação de alguns dos filmes mais conhecidos do realizador, mas com falhas tão evidentes como o são por exemplo «Lágrimas e Suspiros», «A Flauta Mágica» ou «Serenade».
Para um documentário de quase duas horas o resultado é pobre, sabe claramente a pouco. Mas provavelmente Bergman prescinde bem de hagiografias, que o santifiquem, porquanto a sua riquíssima obra fala bem por quem ele foi, tão evidentes são as interligações entre o que viveu e o que criou.
  

sábado, 3 de maio de 2014

POLÍTICA: os "combatentes da liberdade" ucranianos

Houve uma altura em que os telejornais apresentavam invariavelmente as mesmas imagens sobre a Síria: as malfeitorias do Exército de Assad e os feitos heroicos dos «combatentes da Liberdade».
A exemplo do que já víramos com Saddam Hussein ou com Kadhafi, o presidente sírio deixara de ter o glamour  de tempos idos, em que até a esbelta esposa era apresentada como o símbolo da nova mulher árabe, e juntava-se ao panteão dos odiosos ditadores.
Depois surgiram os rumores de uns vídeos no Youtube, que relativizaram as certezas: os crimes de guerra provinham dos dois lados, com os «heróis» - apoiados não só por todo o Ocidente, mas também por esse expoente da Democracia, que é o atual primeiro-ministro turco - a fuzilarem sumariamente prisioneiros e a proclamarem vivas à Al Qaeda.
Muito foi preciso para que se começassem a ouvir os argumentos de Assad, conotando os inimigos com os mesmos que protagonizaram os atentados às Torres Gémeas, aos serviços de transporte londrinos ou à estação madrilena de Atocha.
Enquanto a Oposição tida como não fundamentalista se mostrava tão oportunista e tão intriguista como os bandos mafiosos que tomaram de assalto o poder em Bagdad ou em Cabul, os fundamentalistas tomaram a direção do combate a Assad. E estão a conhecer uma derrota expectável por nada terem a ver com quaisquer aspirações dos que por quem dizem combater.
Pouco a pouco as notícias sobre essa guerra desapareceram dos telejornais e resumem-se a pequenas colunas nos jornais a relatarem novos triunfos de Assad.
Tudo isto para referenciar o início de rumores e de filmes terríveis sobre os crimes dos nazis ucranianos do Setor Direito no leste do país. Tão hediondos quanto os dos «heróis» da guerra da Síria.
Por quanto tempo ainda manterá o Ocidente a nuvem de fumo sobre o que verdadeiramente se passa ali? Quando é que Ana Gomes virá reconhecer não morarem propriamente ali os «combatentes da liberdade», que a sua miopia julgou vislumbrar na praça Maidan?


POLÍTICA: Mentiras, mentiras … e ainda mais mentiras!

Na semana passada, numa entrevista a Irene Pimentel no canal Q, a historiadora explicava a insólita durabilidade da ditadura salazarista pelo facto de ter contado com o apoio ativo das Forças Armadas e da Igreja Católica durante quase toda a sua existência. Foi preciso que a derrota militar iminente na Guiné-Bissau e a consciência de um corporativismo apenas orientado para a satisfação dos interesses dos patrões, levasse os militares e os católicos a iniciarem o processo de distanciamento, que culminaria no 25 de abril.
Não querendo aqui fazer comparações estapafúrdias à la montenegro que nos levaria a comparar estes três anos de (des)governação ao salazarismo - por muito lícitas que pareçam algumas semelhanças! -, podemos sempre interrogarmo-nos sobre o que consegue manter este atual estado de coisas sem uma grande contestação social.
É claro que há sempre que contar com o peso do apoio de cavaco silva e da mesma Igreja Católica, seja através do finado policarpo, seja mais recentemente com o seu (in)clemente patriarca, numa certa abulia coletiva. Mas são tantos os ataques aos reformados, aos funcionários públicos, aos jovens e à generalidade da classe média, associados às mais despudoradas e revoltantes mentiras de ministros, secretários de estado, deputados e outros meliantes conotados com esta direita ideológica, que parece reservado para os historiadores vindouros a explicação para reação tão branda, como se os portugueses de hoje continuassem a fazer jus ao elogio do ditador do passado, que os dizia brandos, para não os designar mesmo como mansos.
Porventura chegar-se-á à conclusão, que o suporte ontem primordial das Forças Armadas - entretanto neutralizado com a sua profissionalização! - passou a ser desempenhado pela contínua ação de propaganda da generalidade da imprensa. De facto, nas últimas semanas, os jornais da área económica têm-se mostrado descaradamente alinhados com a estratégia comunicacional do governo replicando as mistificações concebidas pelos poiares, pelos lombas e pelos maçães, que não devem ocupar-se noutra coisa senão em inventar e disseminar a sua bateria de falácias.
Mas, mesmo sem ser nessa imprensa “especializada” essa ação é permanente e insuspeita. Veja-se a forma como ricardo costa tentou ontem no «Expresso da Meia-Noite» da SIC Notícias cortar a palavra ou fomentar a confusão, sempre que o economista Ricardo Pais Mamede denunciava as falsidades espalhadas nas últimas semanas a propósito do famigerado DEO e agora esclarecidas com o conhecimento de tal documento.
Decerto cientes de como o discurso de passos coelho, paulo portas ou marilu albuquerque não cola com a realidade - quem acredita que os aumentos no IVA ou na TSU não correspondem efetivamente a novos impostos? - os mais encapotados apoiantes da coligação vão-se mostrando menos habilidosos a ostentar a sua suposta objetividade. Lembram aqueles inocentes crentes de duvidosos milagres sempre prontos a afiançarem as maiores falsidades para não verem ruir toda a sua forma de ver e analisar a realidade á sua volta.
Se esta hipótese se mostrar fundamentada, e por muito que os patrões dos jornais e das televisões deem indicações expressas para que se continue a lançar a nuvem de fumo por trás da qual se vai impondo a sórdida realidade de três anos de destruição dos direitos constitucionais, haverão decerto jornalistas briosos da sua dignidade que dirão basta e, diretamente, ou através dos artifícios que os seus antecessores inventaram durante o fascismo para contornar a censura, denunciarão com força crescente a indisfarçável revolta, que só espera por uma imprevisível faísca para se converter em algo a acontecer…
Quem poderá acreditar que tão vasto chorrilho de mentiras conseguirá aguentar-se perante a ruidosa evidência da sua completa desarticulação?