terça-feira, 27 de outubro de 2026

Uma janela aberta, iluminada

 


Durante a longa noite que, por quarenta e oito anos, infernizou a vida da maioria dos portugueses, houve quem buscasse alento na esperança proposta pelos versos de Paul Éluard, que prometia sempre a abertura de uma janela iluminada no fim de tanto sofrimento.

Daniel Filipe haveria de os citar expressamente no final da sua “Invenção do Amor”.

Ao longo do último ano, mesmo depois de resultados animadores nalgumas eleições que contrariavam uma tendência global (Irlanda, Hungria), havia quem desesperasse quanto à inevitabilidade de um futuro feito de autocracias lideradas por aliados de Trump e a soldo dos interesses dos oligarcas de Silicon Valley (mesmo já lá não morando, como sucede com Elon Musk).

Acaso fosse vivo, Éluard lembraria que “a noite nunca está completa./ Há sempre, digo eu,/ e afirmo, ao cabo do desgosto,/ uma janela aberta,/ iluminada”, no fim de tanto sofrimento.

As lutas dos que, em vários países, enfrentam a força bruta de polícias a soldo de governos incapazes de responderem às frustrações dos cidadãos, paralisados pelo fracasso das suas receitas neoliberais, deixam sentir o cheiro de um mundo velho a morrer e de outro novo a emergir. O impasse gramsciano parece em vias de ser superado. Por haver “sempre um sonho que vela,/ um desejo a perseguir,/ fome que matar”. E o que ganha expressão é um coração coletivo e generoso a impor-se, “uma mão estendida,/ aberta,/ uns olhos atentos,/ uma vida, a vida a partilhar”.

No domingo à noite, a vitória de Lula no Brasil demonstrou que ser realista é exigir o impossível.

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