Durante a
longa noite que, por quarenta e oito anos, infernizou a vida da maioria dos
portugueses, houve quem buscasse alento na esperança proposta pelos versos de
Paul Éluard, que prometia sempre a abertura de uma janela iluminada no fim de
tanto sofrimento.
Daniel
Filipe haveria de os citar expressamente no final da sua “Invenção do Amor”.
Ao longo
do último ano, mesmo depois de resultados animadores nalgumas eleições que
contrariavam uma tendência global (Irlanda, Hungria), havia quem desesperasse
quanto à inevitabilidade de um futuro feito de autocracias lideradas por
aliados de Trump e a soldo dos interesses dos oligarcas de Silicon Valley
(mesmo já lá não morando, como sucede com Elon Musk).
Acaso
fosse vivo, Éluard lembraria que “a noite nunca está completa./ Há sempre,
digo eu,/ e afirmo, ao cabo do desgosto,/ uma janela aberta,/ iluminada”,
no fim de tanto sofrimento.
As lutas
dos que, em vários países, enfrentam a força bruta de polícias a soldo de
governos incapazes de responderem às frustrações dos cidadãos, paralisados pelo
fracasso das suas receitas neoliberais, deixam sentir o cheiro de um mundo
velho a morrer e de outro novo a emergir. O impasse gramsciano parece em vias
de ser superado. Por haver “sempre um sonho que vela,/ um desejo a
perseguir,/ fome que matar”. E o que ganha expressão é um coração coletivo
e generoso a impor-se, “uma mão estendida,/ aberta,/ uns olhos atentos,/ uma
vida, a vida a partilhar”.
No
domingo à noite, a vitória de Lula no Brasil demonstrou que ser realista é
exigir o impossível.

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