Às duas
da manhã, a polícia avançou ao mesmo tempo sobre o Rossio e a Praça D. João I,
de escudos e bastões, depois de horas de avisos para desmontar as tendas. A PSP
conta onze feridos e trinta e um detidos por desobediência. A organização do
Porto fala em trinta e sete feridos, sete deles graves. A mesma PSP, horas
antes, saudava a forma cívica e responsável da manifestação de sábado. A PSP
diz que apreendeu no Porto um petardo, tinta e gás pimenta. Mesmo que se tome
tudo por verdade, é o balanço de uma noite de desobediência civil, e a resposta
foram bastões sobre gente a dormir numa praça.
Foi
preciso um evidente desamparo de razões para mandar escudos e bastões, às duas
da manhã, contra jovens que pedem casa. O ministro, garantindo o cumprimento da
lei, pode estar sossegado: cumpriu-se, à bastonada. Cada carga é petróleo
atirado para uma fogueira que ainda estava longe de se apagar, e o movimento já
disse que amanhã estará lá.
Emigrar,
como a evocação do presidente do IHRU deixou no ar? Para onde? Em França, os
liceus estão em luta por escolas degradadas e professores em falta. Em Espanha,
a rua e o despejo de uma idosa abriram eleições. Na Grécia, estudantes acampam
em Salónica, Ioannina e Patras a pedir residências e limites às rendas. A
geração que mandam emigrar luta, em toda a Europa, pelas mesmas razões e causas.
Este
capitalismo, que trocou as ilusões sociais-democratas e democratas-cristãs por
versões fascizantes teleguiadas pelos donos dos algoritmos, só deixa aberta uma
porta: a da alternativa, que alguns diabolizam para meter medo aos timoratos.
Há quem pague 276 milhões para vencer eleições e quem lhes chame Iluminismo,
esquecendo as Trevas.
O futuro
ou será o da subserviência aos títeres desses senhores ou passará por uma
revolução, no sentido em que as palavras ainda querem dizer mudança de fundo.
Uma
revolução a devolver às novas gerações a esperança nas ideologias igualitárias,
longe de ser, como dizia o outro, um convite para jantar.. Mas que se faz, como
estes jovens a fazem, de mãos vazias, com tendas e assembleias. Quem leva
escudos e bastões à praça não é quem a faz.

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