terça-feira, 28 de julho de 2026

Vidas Improváveis — Nota de Abertura (Apresentação de uma série de verão)

 


Chegou o calor, e com ele a estação em que a política portuguesa fica suportável: aquela em que quase ninguém a pratica. Os ministros dispersam-se por praias discretas, os líderes partidários recolhem a casas de férias cuja localização guardam com o zelo de segredos de Estado, e o país, liberto por uns meses da governação, respira. É o armistício anual entre os portugueses e quem os dirige — e, como todos os armistícios, o momento ideal para olhar o campo de batalha com alguma serenidade e algum humor.

É a pensar nesta trégua que nasce a série. "Vidas Improváveis" não pretende informar — para isso servem as outras crónicas, escritas com a indignação que os tempos exigem. Pretende apenas de uma maneira particular: rindo das figuras que nos governam, ou aspiram a governar-nos, sem lhes conceder a solenidade que elas próprias se atribuem. É um exercício que confesso ter roubado a Woody Allen, que demonstrou ser a melhor forma de desmontar a importância de alguém o levá-lo a sério até ao absurdo.

O método é simples. Toma-se uma personagem real, respeita-se-lhe o essencial do carácter público — o traço que todos reconhecem — e liberta-se o resto para o território da fantasia. A verdade não desaparece; apenas vai de férias, como os ministros, e regressa bronzeada e mais leve. Assim, o primeiro-ministro que não quis o poder torna-se um homem a fugir de galochas. O ministro que nunca tem culpa torna-se um filósofo da inocência. O socialista eloquente torna-se um Cassandra condenado a acertar sozinho enquanto o café arrefece.

Não há neste projeto qualquer maldade — ou melhor, há apenas a maldade indispensável, aquela que os humoristas praticam desde Aristófanes e que as democracias saudáveis sempre souberam tolerar.

O riso é um termómetro da liberdade: mede-se a saúde de um regime pela facilidade com que se pode gozar com os seus governantes sem consequências. Por esse critério, e talvez só por esse, Portugal continua de boa saúde.

Advirto, para descargo de consciência, que a semelhança entre estas personagens e as pessoas reais que lhes emprestam o nome é inteiramente propositada, mas nunca literal. Quem se reconhecer nos retratos deve consolar-se: só se caricatura quem tem feições suficientemente marcadas para tal. Os medíocres absolutos são incaricaturáveis, e nisso, ao menos, os visados não são.

Resta desejar boa leitura e bom verão. A política volta em setembro, com o Orçamento, os fogos ou as tempestades e o costume. Até lá, aproveitemos a trégua para aquilo que ela permite: olhar para quem nos governa e, em vez de chorar, sorrir.

Porque haverá tempo de sobra para o resto.

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