Chegou o
calor, e com ele a estação em que a política portuguesa fica suportável: aquela
em que quase ninguém a pratica. Os ministros dispersam-se por praias discretas,
os líderes partidários recolhem a casas de férias cuja localização guardam com
o zelo de segredos de Estado, e o país, liberto por uns meses da governação,
respira. É o armistício anual entre os portugueses e quem os dirige — e, como
todos os armistícios, o momento ideal para olhar o campo de batalha com alguma
serenidade e algum humor.
É a
pensar nesta trégua que nasce a série. "Vidas Improváveis" não
pretende informar — para isso servem as outras crónicas, escritas com a
indignação que os tempos exigem. Pretende apenas de uma maneira particular:
rindo das figuras que nos governam, ou aspiram a governar-nos, sem lhes
conceder a solenidade que elas próprias se atribuem. É um exercício que
confesso ter roubado a Woody Allen, que demonstrou ser a melhor forma de
desmontar a importância de alguém o levá-lo a sério até ao absurdo.
O método
é simples. Toma-se uma personagem real, respeita-se-lhe o essencial do carácter
público — o traço que todos reconhecem — e liberta-se o resto para o território
da fantasia. A verdade não desaparece; apenas vai de férias, como os ministros,
e regressa bronzeada e mais leve. Assim, o primeiro-ministro que não quis o
poder torna-se um homem a fugir de galochas. O ministro que nunca tem culpa
torna-se um filósofo da inocência. O socialista eloquente torna-se um Cassandra
condenado a acertar sozinho enquanto o café arrefece.
Não há
neste projeto qualquer maldade — ou melhor, há apenas a maldade indispensável,
aquela que os humoristas praticam desde Aristófanes e que as democracias
saudáveis sempre souberam tolerar.
O riso é
um termómetro da liberdade: mede-se a saúde de um regime pela facilidade com
que se pode gozar com os seus governantes sem consequências. Por esse critério,
e talvez só por esse, Portugal continua de boa saúde.
Advirto,
para descargo de consciência, que a semelhança entre estas personagens e as
pessoas reais que lhes emprestam o nome é inteiramente propositada, mas nunca
literal. Quem se reconhecer nos retratos deve consolar-se: só se caricatura
quem tem feições suficientemente marcadas para tal. Os medíocres absolutos são
incaricaturáveis, e nisso, ao menos, os visados não são.
Resta
desejar boa leitura e bom verão. A política volta em setembro, com o Orçamento,
os fogos ou as tempestades e o costume. Até lá, aproveitemos a trégua para
aquilo que ela permite: olhar para quem nos governa e, em vez de chorar,
sorrir.
Porque
haverá tempo de sobra para o resto.

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