(Segundo
de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que a verdade comparece
apenas como testemunha de defesa e raramente é ouvida.)
Fernando
Alexandre nasceu para não ter culpa. Já em criança, quando partia uma jarra,
explicava aos pais com serena lucidez que a jarra se tinha atirado ao chão por
vontade própria, movida por uma pulsão suicida que nenhum tutor poderia ter
previsto. Os pais, comovidos com a coerência do argumento, castigavam a jarra.
Foi esta
vocação precoce para a inocência que o conduziu, naturalmente, à economia —
ciência que ele cedo compreendeu ser a arte de explicar amanhã por que razão
não aconteceu o que se previra ontem. Doutorou-se em Londres, onde aperfeiçoou
a técnica de atribuir todos os fenómenos a "fatores exógenos",
expressão elegante que significa, traduzida do económico para o humano,
"não fui eu".
Chegou a
ministro da Educação e da Ciência convencido de que o cargo consistia em
receber os louros e delegar as chuvas. Nos primeiros meses, tudo correu com a
placidez de um lago. Fernando cortava fitas, inaugurava laboratórios concebidos
por outros e distribuía sorrisos com a generosidade de quem não prevê contas a
pagar.
Depois
vieram os exames.
O caos
instalou-se com a pontualidade de um relógio suíço avariado. Convocaram-se
professores mortos, o que foi considerado por alguns um avanço notável na
gestão de recursos humanos — a mão-de-obra do além, insensível a greves e
dispensada de almoço. As plataformas de correção recusaram-se a funcionar, num
gesto de solidariedade tecnológica com os docentes exaustos. As notas
atrasaram-se. Cento e sessenta mil alunos ficaram suspensos no limbo, à espera
de um veredito que o ministério não conseguia produzir.
Fernando,
fiel à sua natureza, investigou o culpado com o rigor de um detetive vitoriano.
Interrogou os diretores das escolas: inocentes, mas suspeitos. Apertou com os
professores: mentirosos, decerto. Fitou longamente um agrafador, procurando nos
seus olhos metálicos um sinal de remorso. Suspeitou do código QR, essa entidade
quadriculada e sinistra. E, num rasgo de audácia forense, prendeu a atenção em
António Costa, cujo governo cessara havia mais de dois anos mas que, na
cosmologia de Fernando, continuava a operar nas sombras como um mal ancestral.
De si
mesmo, nada. Fernando examinou-se ao espelho, rubricou mentalmente a sua
própria absolvição e prosseguiu, imperturbável, para a conferência de imprensa
seguinte, onde declarou que estava tudo "dentro da janela prevista" —
que, como se veria, dava para um precipício.
Quando a
realidade o desmentiu e o calendário foi adiado, Fernando não se demitiu.
Demitir-se seria admitir, uma forma de morte espiritual comparável a confessar
que a jarra da infância não se suicidara. Preferiu manter-se no lugar com a
dignidade serena de quem sabe, no fundo do coração, que a culpa é sempre dos
outros — dos vivos, dos mortos, dos agrafadores e dos planetas mal alinhados.
Dizem
que, à noite, Fernando dorme o sono profundo dos inocentes. É o único recurso
que o seu ministério ainda produz em quantidade suficiente.

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