quarta-feira, 29 de julho de 2026

Vidas Improváveis - II. Fernando, o Inimputável

 


(Segundo de uma série de retratos à maneira de Woody Allen, em que a verdade comparece apenas como testemunha de defesa e raramente é ouvida.)

 

Fernando Alexandre nasceu para não ter culpa. Já em criança, quando partia uma jarra, explicava aos pais com serena lucidez que a jarra se tinha atirado ao chão por vontade própria, movida por uma pulsão suicida que nenhum tutor poderia ter previsto. Os pais, comovidos com a coerência do argumento, castigavam a jarra.

Foi esta vocação precoce para a inocência que o conduziu, naturalmente, à economia — ciência que ele cedo compreendeu ser a arte de explicar amanhã por que razão não aconteceu o que se previra ontem. Doutorou-se em Londres, onde aperfeiçoou a técnica de atribuir todos os fenómenos a "fatores exógenos", expressão elegante que significa, traduzida do económico para o humano, "não fui eu".

Chegou a ministro da Educação e da Ciência convencido de que o cargo consistia em receber os louros e delegar as chuvas. Nos primeiros meses, tudo correu com a placidez de um lago. Fernando cortava fitas, inaugurava laboratórios concebidos por outros e distribuía sorrisos com a generosidade de quem não prevê contas a pagar.

Depois vieram os exames.

O caos instalou-se com a pontualidade de um relógio suíço avariado. Convocaram-se professores mortos, o que foi considerado por alguns um avanço notável na gestão de recursos humanos — a mão-de-obra do além, insensível a greves e dispensada de almoço. As plataformas de correção recusaram-se a funcionar, num gesto de solidariedade tecnológica com os docentes exaustos. As notas atrasaram-se. Cento e sessenta mil alunos ficaram suspensos no limbo, à espera de um veredito que o ministério não conseguia produzir.

Fernando, fiel à sua natureza, investigou o culpado com o rigor de um detetive vitoriano. Interrogou os diretores das escolas: inocentes, mas suspeitos. Apertou com os professores: mentirosos, decerto. Fitou longamente um agrafador, procurando nos seus olhos metálicos um sinal de remorso. Suspeitou do código QR, essa entidade quadriculada e sinistra. E, num rasgo de audácia forense, prendeu a atenção em António Costa, cujo governo cessara havia mais de dois anos mas que, na cosmologia de Fernando, continuava a operar nas sombras como um mal ancestral.

De si mesmo, nada. Fernando examinou-se ao espelho, rubricou mentalmente a sua própria absolvição e prosseguiu, imperturbável, para a conferência de imprensa seguinte, onde declarou que estava tudo "dentro da janela prevista" — que, como se veria, dava para um precipício.

Quando a realidade o desmentiu e o calendário foi adiado, Fernando não se demitiu. Demitir-se seria admitir, uma forma de morte espiritual comparável a confessar que a jarra da infância não se suicidara. Preferiu manter-se no lugar com a dignidade serena de quem sabe, no fundo do coração, que a culpa é sempre dos outros — dos vivos, dos mortos, dos agrafadores e dos planetas mal alinhados.

Dizem que, à noite, Fernando dorme o sono profundo dos inocentes. É o único recurso que o seu ministério ainda produz em quantidade suficiente.

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