quinta-feira, 23 de julho de 2020

Ainda se ouve por aí algum monárquico?


Há muito tempo, que não ouço os ridículos propósitos de uns quantos estarolas monárquicos, ciosos da tese da superioridade dos regimes assentes na autoridade de um rei sobre os representativos da vontade soberana dos seus eleitores, fundamentados na definição do presidente da República pelo voto.
Não é que os eleitores sejam frequentemente iluminados pelo bom senso, quando elegem o seu representante para a chefia do Estado. Demonstraram-no quando preferiram Marcelo a Sampaio da Nóvoa e ainda pior quando se decidiram por Donald Trump nos Estados Unidos ou Bolsonaro no Brasil. Mas, deparando com outros exemplos mais gratos - os de Soares ou Sampaio em Portugal, o de Lula no Brasil ou Pepe Mujica no Uruguai - constatamos ser mais provável o acerto dos eleitores do que o dos genes dos supostos detentores do «sangue azul». Basta atermo-nos no putativo candidato à «coroa» portuguesa para compreendermos como serão elevados os riscos de indigitação de um idiota como monarca.
E nem sequer nos servem de exemplos positivos os monarcas do norte da Europa: não faltando nessas cortes as mais divertidas histórias de alcova, ou os menos coloridos casos de corrupção, no melhor dos casos vão garantindo a sobrevivência através de indigente apagamento político, substituído por cerimónias e rituais tão ridículos como inócuos no seu  significado. É assim que o tenho constatado nos Países Baixos onde motivações familiares me costumam levar mais amiúde: só se dá pela família real num dia do ano em que muitos se vestem de laranja para recordarem a existência da incongruente excentricidade.
Vem isto a propósito da pícara telenovela, que anda a animar os nossos vizinhos espanhóis: todas as semanas vão-se conhecendo mais detalhados pormenores sobre as aventuras do rei emérito Juan Carlos, numa trama com caçadas a animais em perigo de extinção, animadas fornicações com uma aristocrata alemã, milhões depositados em contas em seu nome, ou na da amante, por conta de negociatas em que se envolveu sem faltarem traições várias, que tendem a alimentar mais capas de jornais e notícias picantes nos telejornais.
O filho bem tenta livrar-se dos comprometimentos familiares mas os espanhóis, que se viram espoliados da sua República em 1939 pela coligação nazi-fascista, que meteu Franco, Salazar, Hitler e Mussolini no mesmo projeto, podem aspirar a ver corrigida uma anomalia demasiado duradoura. Que essa realidade não tarde, é o que podem desejar os republicanos, laicos e socialistas, seus vizinhos.

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