terça-feira, 7 de junho de 2022

Depois de Jorge Sampaio tem sido o que se sabe!

 

1. Há dias sofri assombroso susto: não é que concordei com a prosa de João Miguel Tavares numa crónica em que propunha  a Joana Vasconcelos o pagamento do próprio bolso do museu dedicado à sua obra se é tanta a vontade em assim se promover, mesmo levando em conta que os prestimosos Carlos Moedas e Isaltino Morais se mostrem tão dispostos a nele investir o dinheiro dos respetivos munícipes. E, de facto, embora tenha apreciado «A Noiva» ou o «Marilyn», nunca vi essas e outras obras da conhecida artista senão como conjunturais sucessos de um efeito de moda condenado a datar-se a prazo reduzindo-se depois à inevitável menoridade estética.

Agora temi ver-me de novo identificado com o Tavares a propósito do que disse dos fúteis comentários de Marcelo aos jogos da seleção de futebol antecipando-se em rapidez aos do próprio selecionador. Se é para isto que temos um presidente para que nos serve?, questiona com pertinência.

O problema é que a resposta a essa questão coloca-nos em posição diametralmente oposta quanto a quem precisaríamos ter como presidente: o Tavares aproveita para fazer uma declaração embevecida a Cavaco Silva cujo artigo da semana passada o terá deixado nas nuvens. Eu continuo a crer que Marcelo me impediu de ter em Belém aquele que para a função estava devidamente talhado, dando-lhe a substância e a gravitas, que o atual titular nunca lhe propiciou. Falo naturalmente do professor Sampaio da Nóvoa, que consagraria um código de valores e uma visão de futuro para o país, que poucos conseguiram sintetizar com a sua clareza e acuidade.

Infelizmente, depois de duas décadas em que tivemos em Belém duas figuras prestigiadas - Mário Soares e Jorge Sampaio - os seus sucessores têm sido o que se sabe...

2. Outro erro de casting para a função - Boris Johnson - salvou-se por agora da humilhação de ser corrido de Downing Street sem a sonhada glória de ser idolatrado como émulo de Winston Churchill.

Não perde, é claro, pela demora: o sino do Big Ben continuará a soar-lhe como um dobre de finados pela sua pecadora alma! 

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Muitos sessenta euros a voarem para longe das nossas carteiras

 

1. Normalmente costumo encher o depósito do carro, quando o ponteiro chega a meio. Até há pouco gastava à volta de 50 euros na operação, agora vai muito para além dos 60. Eis um sobrecusto imediato da guerra, que prossegue no leste-europeu e para o qual os políticos da NATO não cessam de atirar mais lenha para queimar. Bem pode Kissinger dar conselhos avisados ou Macron alertar para o óbvio, que logo são destratados abaixo de cão por um ex-comediante, que ganhou notoriedade global neste momento histórico anteriormente cingida ao seu interno palco. Agora, diariamente, ouvimos-lhe as preleções televisivas sem direito ao contraditório embora nos questionemos quanto mais têm aumentado as suas contas offshore, de que não voltámos a ouvir falar depois do consórcio internacional de jornalistas as ter encontrado entre os chamados Pandora Papers.

Tendo em conta que 60 também foram os euros gastos cá em casa se contabilizarmos a nossa parte dos 250 milhões levados por António Costa a Kiev para lhos meter no bolso e demonstrar que não está menos com ele do que o estarola ao comando da NATO, mais os 50 milhões deixados em Varsóvia para ajudar o reconhecidamente pouco democrático regime, aí tutelado pelo gémeo sobrevivente da fratria dos Kaczyński, convenhamos que a guerra está-nos a ficar demasiado cara. Para não falar da fatura mais pesada nas compras no supermercado do costume.

Agora é um secretário de estado norte-americano que quer um aumento das nossas despesas militares muito para cima dos 2% para dar satisfação aos fabricantes de armamento do sinistro complexo militar contra o qual atempadamente Eisenhower nos avisou. Como escreve Carlos Matos Gomes num seu artigo sobre o assunto “os cidadãos europeus deviam perguntar aos políticos como justificam o aumento de despesas militares! É que o dinheiro “pode” fazer falta para necessidades reais, para ameaças reais resultantes de desastres ambientais, de pandemias, de envelhecimento da população, de empobrecimento, de migrações, de fome…”

2. À luz da urgência climática a decisão até devia ser saudada, mas o fecho da refinaria da Galp em Matosinhos é questionada pelo economista Ricardo Cabral à luz da justificação, que a fundamentou há dois anos: dava prejuízo. Agora que o contexto se alterou e a atividade geraria lucros que compensariam lautamente esses prejuízos, Cabral pergunta se não existirá um forte arrependimento na administração da empresa por a ter tomado ademais contra os interesses do país que viu dificultado o fornecimento de produtos refinados necessários à atividade de outras indústrias. Razão para a pergunta pertinente com que se conclui o artigo: fica (...) a questão sobre se a alegada eficiência da gestão privada da Galp não é um mito que destrói valor aos acionistas (e ao país)?

3. Acabou o Jubileu de Isabel II e tudo aquilo cheirou a mofo tão longe anda a decadente Inglaterra das grandezas imperiais passadas, sobretudo tendo em conta que irlandeses, escoceses e até galeses andam desejosos de se livrarem da sua tutela colonial. Por tudo isso a festa lembrou o conhecido romance de Steinbeck sobre os rios que, antes de definitivamente secarem, dão a ilusão de um súbito fulgor como se ainda tivessem a possibilidade de ressuscitarem. Os monárquicos, que ainda se ufanam de curvarem-se perante tão decrépita instituição, deveriam convencer-se de não haver água que volte a passar duas vezes pelo mesmo local do curso do rio, não havendo possibilidades de ele se encaminhar para as páginas passadas da Historia da Humanidade. 

Trabalhar menos... ou para quê?

 

Ouço Bruno Latour, filósofo francês muito na moda, a alertar para o facto do atual sistema de produção também ser o da destruição ambiental, que pode pôr em causa a continuidade da civilização humana. E ninguém o pode contestar quando, todos os anos, consumimos muito mais recursos do que o planeta consegue regenerar.

Neste contexto a atual discussão em torno da semana de quatro dias de trabalho arrisca-se a ficar pelas generalidades quando o importante continua a ser o “pequeno” detalhe  de ser urgente uma total reformulação das razões porque, como e para quem produzimos bens de consumo.  Até porque, sem que os eruditos consigam perceber porquê, vem acontecendo uma revolução além-Atlântico protagonizada por quem decide deixar de trabalhar, porque a compensação dele recebida não vale o esforço nem sobretudo o que se perde por dele fazer o principal investimento do tempo disponível.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Cavaquetes ao ataque

 


Que enlevo o de  João Miguel Tavares depois de ler o último texto de Cavaco Silva! Mas, quando julgávamos que os ecos dos «cavaquetes» do «Público» ficariam por aí - sensatamente Manuel Carvalho quedou-se nos bastidores! - eis que David Pontes vem fazer coro com quem Marcelo mandou discursar no primeiro 10 de junho subsequente à sua vitória para o primeiro mandato presidencial! E o diretor-adjunto do jornal da Sonae não faz a coisa por menos: rastreia as reformas empreendidas pelo político de Boliqueime - o expurgo das veleidades de esquerda na Constituição, a privatização acelerada do que ainda restava nacionalizado - e lamenta não ver em António Costa o mesmo ímpeto em prol dos suspeitos do costume.

Os meus mais diletos amigos questionar-me-ão porque continuo a assinar o matutino em causa, mas que fazer quando as alternativas são as da Cofina ou as da galinácea criatura?

Em Portugal o tempo não está para leitores de jornais que prezem a objetividade e sintam frágil o estômago para as diatribes das direitas. Ou tomando por referência o professor Nobre Correia mais vale preferirmos o que de melhor se publica além-fronteiras...

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Qual o pescoço em que se aperta o laço?

 

Os pacotes de sanções contra a Rússia de Putin vão-se sucedendo e a sua prometida crise económica, social e financeira continua por demonstrar. Pelo contrário, a contragosto, a imprensa ocidental vai reconhecendo os avanços lentos, mas consolidados, dos seus exércitos em Luhansk e no Donbass, ao mesmo tempo que o proscrito rublo revela uma resiliência, que parece falhar ao euro para o qual se preveem taxas assustadoramente mais altas.

Paradoxalmente, também nós, a ocidente, vamos pagando os custos de um conflito sem fim à vista, mas onde os humanos e materiais vão ganhando dimensão avassaladora. Para já temos a inflação a 8% traduzida na sensação de estarem hipotecadas as expetativas de consolidarmos as dignas condições de vida, que deveríamos usufruir como direito fundamental.

Não sobram dúvidas quanto a quem será chamado a pagar a destruição de um país que, seja lá quando for!, chegará exangue à mesa das negociações, e terá devastadas as infraestruturas, as fábricas e campos de cereais, bem como provavelmente o acesso ao mar Negro. A Ucrânia, apressadamente integrada na União Europeia, ser-lhe-á fava indigesta, traduzida num encargo demasiado pesado, sobretudo porque o motor alemão tenderá a gripar ao já não dispor da energia barata vinda da Federação Russa, nem contar com ela - e quiçá com a China se se mantiverem as tentações impulsionadas pelos ultratlantistas! - como destino natural das suas exportações. Podemos conjeturar as dificuldades futuras das instituições sedeadas em Bruxelas, Estrasburgo e Frankfurt para equilibrarem orçamentos pressionados por uma conjuntura de que só os Estados Unidos e a China beneficiarão.

Rendidos ao bullying  mediático, que reduz a guerra a um circo maniqueísta, que justifica a expressão de uma psicologia de massas assente nas emoções, mais do que na razão, a Comissão Europeia e o Conselho Europeu vão apertando o nó de um laço, que julgam estar metido no pescoço de Putin mas, a prazo, tende a apertar-se no deles. E, infelizmente, no nosso...

terça-feira, 31 de maio de 2022

As ilusões disseminadas pela Besta a abater

 

Uma das fraudes ideológicas mais em voga é a de caracterizar o nosso tempo como o do confronto entre as «democracias liberais» e os totalitarismos, muito embora nestes últimos os que falsamente aparentam ter algo de esquerda (Rússia, China), sejam vistos como inimigos mais odiosos do que são os claramente fascistas (Hungria, Polónia, Arábia Saudita) ou colonialistas (Israel).

No caldeirão liberal cabem os governos mais próximos da social-democracia (Portugal, Espanha), mas são claramente incensados os que não enganam pela ideologia assumidamente de direita (EUA, Inglaterra, França). No fundo procura-se escamotear o essencial: nesta fase crepuscular do capitalismo em que o abismo entre os muito ricos e todos os demais se vai alargando, a imprensa, a mando dos primeiros, vai fazendo os possíveis por evitar aquilo que a História demonstra inevitável: um confronto de classes, que derrube quem vive da especulação bolsista e imobiliária, dos monopólios da informação digital e da exploração das fontes poluentes de energia, e devolva à sociedade os valores da distribuição mais justa das riquezas sustentavelmente produzidas.

Quem procura eternizar um sistema económico, que há muito pressente o seu fim na História, precisa de arranjar inimigos mediáticos como Putin e criar falsos heróis como Zelanskii para que não os olhemos como aquilo que são: duas faces da mesma moeda em que ambos representam o conúbio com oligarcas e militantes neonazis e coincidem nas tentações de privação das liberdades fundamentais dos seus adversários políticos. Por isso primam pela proibição ou cerceamento dos partidos e movimentos políticos oposicionistas (45% dos deputados ucranianos viram os seus partidos ilegalizados) e das liberdades de expressão de pensamento ou de imprensa (e se Putin os silencia sem escrúpulo, Zelenskii demonstra bem a índole quando, anteontem, verberou os canais franceses, que decidiram também cobrir a guerra do lado russo). Para não falar da inaceitável proibição de canais russos pela União Europeia numa decisão absolutamente contrária aos princípios, que a dizem nortear.

Na propagandeada luta entre «democracias liberais» e totalitarismos vamos sendo iludidos quanto ao essencial e é aquilo que continua a fazer todo o sentido: existe globalmente uma guerra ideológica entre as esquerdas e as direitas, as primeiras procurando aproximar as sociedades humanas dos valores da liberdade, da fraternidade e da igualdade, defendidos pela Revolução Francesa e pela Declaração Universal dos Direitos do Homem, as segundas tudo fazendo para que as coisas continuem a ser como são, ou seja uns mandando e abocanhando a maior parcela das riquezas e os outros indignando-se, conformando-se ou servindo de idiotas úteis ao serviço daqueles que deveriam enfrentar como seus inimigos de classe.

E esse é o verdadeiro drama que hoje se vive na Ucrânia com tão graves consequências para quem nela morre, é ferido ou empobrece: dois regimes de direita fazem o que a História demonstrou residir na sua natureza belicosa, o mais forte invadindo o que se adivinha mais frágil, mas ao lado do qual se perfilam interesses a ele associados, enquanto as injustiças se agudizam (vide o Relatório da Oxfam sobre como os ricos se têm tornado ainda obscenamente mais ricos nestes últimos dois anos) e a própria civilização humana vai jubilosamente avançando para o apocalipse climático apenas porque os tais interesses capitalistas que o promovem preferem a destruição global ao seu aconselhável e definitivo desiderato.

Na Ucrânia, como em todas as latitudes, é o capitalismo que figura como a verdadeira besta a abater! 

segunda-feira, 30 de maio de 2022

Luis... quem?

 

1. Que coisa mais estapafúrdia foi o discurso de um tal Luís, agora a liderar o maior dos partidos de direita de oposição ao governo.

É certo que daquela cabeça nunca se vislumbrou ideia minimamente consistente resumindo-se as suas pretéritas intervenções parlamentares a meros exercícios de retórica próprias de um cinzento advogado de barra de tribunal. Na altura a troika punha, o governo dispunha e o referido Luís servia-lhe tão só de câmara de eco.

Que os tempos não lhe trouxeram novos atributos pensantes demonstrou-o agora quando nem sequer quis ouvir falar da hipótese de um debate direto com o rival e ao deixar implícita a vontade de juntar trapinhos com o Chega como forma de arredar do poder os atuais ocupantes. Que neles tenha visto «socialismo» é coisa que nem os mais decanos militantes do mesmo (o meu caso!) conseguem divisar naquilo que é uma política ao centro, nem enfeudada de mais aos aspirantes a novos donos disto tudo, nem totalmente contrária aos que a eles precária e mal remuneradamente se submetem.

Que nem os militantes laranjas com quotas pagas se interessaram pelo assunto demonstra-o os 40%, que nem sequer se deram ao trabalho de botar o votinho num dos dois candidatos. O que pressupõe quão efémera será esta chamada à frente de cena num espetáculo político para que o sabemos pouco talhado.

2. Crescimento do PIB em 11,9% no primeiro trimestre do ano, com subidas notórias nas importações (27,4%) e nas exportações (16%), depois de excluídos os combustíveis. Eis números, que animam justificadamente quem apoia este governo. Embora o aumento do défice na balança comercial alerte para a impossibilidade de a manter tão desequilibrada quanto agora se revela.

3. Numa altura em que a Rússia está a somar ganhos militares e territoriais no leste da Ucrânia, Jorge Almeida Fernandes chama a atenção para as palavras confiadas por Andrey Kortunov ao The Economist: “O Ocidente tem falta de recursos materiais e políticos para forçar uma derrota esmagadora de Moscovo na Ucrânia e impor a sua variante de acordo de paz. O que está em jogo para a Rússia é muito mais do que para o Ocidente e a sua disposição para a escalada é maior do que a dos seus adversários”. Daí que todas as previsões relativas a uma inevitável derrota de Putin tenha muito de wishful thinking sem correspondência com quanto se passa na realidade.

4. Nesta altura os palestinianos lamentarão não usufruírem de tanta simpatia quanto os ucranianos. Rachid Khalid, que é professor na Universidade de Columbia, lembra que subsiste em Israel uma forma de apartheid em que a lei é aplicada com toda a veemência quando a vítima é judia, mas fica ignorada, quando é esta última a agressora.  Para a Europa tão lesta a sancionar os russos, nenhuma hipótese há de ser Telavive a pagar as custas daquilo que ele qualifica de “colonialismo de povoamento”.

sexta-feira, 27 de maio de 2022

Irrelevâncias caseiras, mas pertinências globais

 

1. Estamos no fim-de-semana do congresso do PSD e confirma-se aquilo sobre que Manuel Carvalho, diretor do «Público», se carpia um destes dias: ninguém anda a ligar se será Montenegro ou Moreira da Silva quem figurará como principal líder de oposição ao governo de António Costa. O entusiasmo é tanto, que o assunto é remetido para as páginas interiores dos jornais e para meio dos telejornais.

Na deriva para a (definitiva?) irrelevância, que nem sequer se ilude com o nevoeiro capaz de trazer de volta o sebastião de Massamá, o partido laranja não consegue esconder a defeção de militantes e de quadros de “qualidade”, condenando-se a uma mediocridade cinzenta, que torna merecedora a desatenção a que é sujeito.

2. Para quem teime em olhar para a economia mundial com outros filtros, que não os da análise marxista, será difícil justificar a realidade agora denunciada pelo relatório da Oxfam: em vinte e quatro meses de pandemia as maiores fortunas cresceram mais do que nos vinte e três anos anteriores. Em cada trinta horas surgiu um novo milionário, quase ao mesmo tempo que um milhão de pessoas caía na pobreza extrema. Assim se chega ao absurdo de somar o PIB dos 46 países da África subsariana para equivaler à fortuna dos vinte mais ricos do mundo. O mais sinistro de entre eles, Elon Musk, poderia perder 99% da fortuna e ainda assim continuar a integrar a lista dos 0,0001% mais ricos do mundo.

Se isto não justifica uma Revolução, que corrija tão desigual distribuição de rendimentos, não se encontrará razão maior.

3. À medida que as derrotas e perdas de vidas de militares ucranianos se vão acentuando, as notícias sobre a guerra perdem o foco mediático e parece voltar a vontade de Zelanskii em negociar. Até por ter quem, como Henry Kissinger, apele a alguma sensatez no trato com os russos, e porque o vazadouro de dinheiro e de armamento oriundo dos aliados ocidentais vai começando a pesar no entusiasmo por uma guerra, que tarda em dar-lhes o retorno prometido por um presidente norte-americano apostado em acumular gaffes, depois corrigidas pelo próprio ou pelos mais diretos colaboradores. A da guerra com a demonstrativa de como Biden pede meças a Putin sobre qual dos dois será o maior falcão. Porque a guerra da Ucrânia é a da Rússia e dos Estados Unidos num ajuste de contas herdado da guerra fria resultando o martírio dos que para ela não pregaram prego nem estopa, mas lhe pagam todos os custos, em vidas e outras formas de sofrimento.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

Cereal Killers

 

Que a guerra terá um efeito em cadeia de imprevisíveis dimensões estão-no a constatar os países ocidentais, que foram lestos em cortar os canais diplomáticos com a Rússia - com a assinalável exceção de Emmanuel Macron - e em estabelecerem sucessivos pacotes de sanções de escassos resultados para quanto pretendiam, e agora olham para a escassez alimentar a nível mundial causada pela retenção de cereais nos silos ucranianos sem outra solução, que não seja a de apelar à boa vontade de ... Vladimir Putin.

Entre diaboliza-lo por acrescentar mais sofrimento ao do povo ucraniano ou equacionar até que ponto têm tido sucesso na continuada estratégia de amesquinhamento da Rússia, haverá quem comece a duvidar do acrítico seguidismo do que tem sido ditado a partir do Pentágono. E pior será quando, do Líbano à Somália, as imagens de gente a morrer de fome suscitarem empatia tão intensa quanto a que, por ora, parece cingir-se à manifestada para com os ucranianos.

Por certo Moscovo não prescindirá de mais um dos fortes argumentos de que disporá para enfatizar a narrativa com que justifica a invasão do território por si qualificado desde o tempo dos czares como sendo a «pequena Rússia». 

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Erros de casting

 

1. Terá existido na notícia dada por Marcelo aos jornalistas o requinte de malvadez que, em tempos, o levou a fazer de Paulo Portas a sua vítima por interposta revelação sobre uma vichyssoise? Desejaria, intimamente, que a visita de António Costa a Kiev coincidisse com um ataque russo parecido com o vivido pelo Presidente do Conselho Europeu Charles Michel em Odessa e porventura mais certeiro? Teríamos assim a demonstração de um Marcelo inconformado com a coabitação dos socialistas no poder executivo e legislativo, e encontrando num desejo utópico a hipótese de ainda acabar o mandato com um apaniguado seu em São Bento!

Ou, pelo contrário, já estamos perante a constatação dele replicar Balsemão, quando em tempos o deu como «lélé da cuca»? Aos 78 anos Marcelo pode estar a envelhecer mal e a não iludir a sua acelerada perda de capacidades para o exercício do cargo. É que a ninguém lembra, e muito menos aos socialistas, que uma notícia a ser objeto de recato, até surgir o momento propício para a tornar pública, o fosse antecipadamente.

Como acontece desde o primeiro dia em Belém Marcelo continua a ser um inexplicável erro de casting.

2. Como o terá sido o assassino de Buffalo, que matou umas quantas pessoas em nome de uma supremacia branca, que vê em risco de se perder nos Estados Unidos e no mundo em geral. Idiota psicopata ei-lo vítima do tipo de discurso propagandeado por gente como Tucker Carlson, um dos mais principais rostos da Fox News, e que não se cansa de prometer cenários apocalípticos para quando forem os outros, os de outra cor, credo ou ideologia, a tomar conta do american way of life. Que se sabe tratar-se de uma inconcebível mistificação, porque nada tem - para a grande maioria que o vive - com o prometido sonho da futura e eterna felicidade.

3. Vadim Shishimarin é o rosto do dia ao sujeitar-se a julgamento por alegado crime cometido na aldeia de Chupakhivka na Ucrânia. Numa guerra em que somos torpedeados com a propaganda de um dos lados e proibidos de aceder à do outro - estranha forma de demonstração da «democracia europeia» - esse rapaz de 21 anos é a vítima de uma situação que, em muito extravasa, o seu entendimento. Sabemos do que o acusam, mas que garantias existem de que terá julgamento mais justo que os dos neonazis do batalhão Azov, que se renderam em Mariupol?

quarta-feira, 18 de maio de 2022

Cegos, surdos, mudos

 

1. Cegos, surdos e mudos anda muita gente, que continua a analisar os acontecimentos internos e externos de acordo com uma grelha, que apenas leva em conta os secretos desejos e esquece o que os possam pôr em causa.

2. Por exemplo a próxima liderança do PSD que está disposta, mais ou menos acobertada pela hipocrisia do indisfarçável calculismo, a chegar ao poder com a bengala do Chega. Luís Montenegro não conseguiu disfarçar esse projetado conluio e Jorge Moreira da Silva denuncia-o com a escolha da bastonária dos enfermeiros para sua mandatária nacional, quando a sabe próxima de André Ventura.

Na crónica do «Público», Carmo Afonso conclui que se “nas últimas eleições os portugueses mostraram que não aceitam ter um governo viabilizado por um partido com as características do Chega” só pode constatar-se que, no principal partido da direita, “alguém está surdo”.

3. Afinal a corrida desenfreada do ocidente para uma vitória total contra a Rússia começa a encontrar inesperados obstáculos e, muito curiosamente, graças a ditaduras com que tem pactuado nos anos recentes nunca tomando contra eles as medidas, que lhe estariam ao alcance para dificultar os sucessos enviesadamente eleitorais, que têm multiplicado. De facto, quer a Turquia de Erdogan, com a obstrução à entrada da Suécia e da Finlândia na NATO, quer a Hungria com a desaprovação do sexto pacote de sanções contra Moscovo, demonstram a perversidade das contradições europeias quanto à forma como encaram diversamente as ditaduras de acordo com os seus interesses imediatos e não os de médio e longo prazo.

4. A assumpção da derrota ucraniana em Mariupol traduziu-se na rendição dos militares no complexo Azovstal e no seu envio para a retaguarda da frente russa. Não houve, pois, resgate à chucknorris como alguns pretendiam, nem a garantia que a acusação de neonazis não os faça incorrer em penas pesadas senão mesmo capitais. O entusiasmo de alguns pelo heroísmo do batalhão Azov deve ter arrefecido momentaneamente: isto de ir à guerra implica o inevitável dar e levar.

5. Nove milhões de pessoas morreram em 2019 por causas atribuídas à poluição, segundo um estudo da revista The Lancet Planetary Health.

Feito um parêntesis às causas ecologistas por obra e graça da pandemia e da guerra na Ucrânia, só podemos concluir que a sua urgência apenas se agrava.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Fanáticos são só os outros?

 

No essencial estou plenamente de acordo com o que Carmo Afonso tem escrito na última página do «Público», mormente em relação à guerra na Ucrânia. Nomeadamente em relação ao que possa ser defendido ou contrariado por quem se posicione politicamente à esquerda e sabe que, quer Putin, quer Zelenskii, representam fações distintas de uma mesma direita, ambas de duvidosas credenciais democráticas - algo que não é necessário demonstrar em relação a quem manda no Kremlin, mas convém lembrar para quem, em Kiev, ilegalizou quem, no Parlamento, representava 44% do eleitorado do seu país. Por isso concordo quando a colunista escreve: “Não existe nenhum reduto de esquerda nesta guerra e não é costume que isto aconteça. É natural então que a esquerda esperneie tanto à procura de uma posição onde se sinta confortável. Essa posição não será encontrada. A esquerda não pode ambicionar encontrar uma posição que combine com aquilo que não existe: um lado nesta guerra com o qual se possa identificar politicamente.”

Daí que reste à esquerda “condenar a invasão, como se condenam os crimes violentos, mas não pode aderir à narrativa da luta pelos nossos valores ou da luta pela democracia. Não é na Ucrânia que os valores que a esquerda defende estão a ser defendidos ou atacados: eles são, ali, um não assunto.”

Não falta, porém, quem quer conciliar valores “democráticos”, e até “socialistas”, com a narrativa abundantemente propagandeada por um dos lados do conflito, silenciando, deturpando ou relativizando o que provém do outro lado. Faz por isso todo o sentido o que Vitor Belanciano escrevia ontem no mesmo jornal e se ajusta, como uma luva, aos que ouvem os telejornais dentro do seu pensamento mágico: “A maioria das pessoas só ouve o que quer ouvir. Procuram o reforço, não a dúvida. Fecha-se a porta à discrepância, ao saber mais, à omnipresença do heterogéneo que faz da vida algo com ambiguidades, nuances e arestas. Sem questionamento e disponibilidade para escutar outros motivos, os nossos argumentos tornam-se crenças, lugares-comuns, preconceitos ou dogmas. Prestamos atenção e atribuímos credibilidade ao que nos credita. Evitamos o que nos ponha em causa.”

Muito embora olhem os islamitas e outros radicais como um bando de fanáticos incapazes de olharem para um lado da realidade e para o seu reverso, mostram-se incapazes de compreender quanto da mesma cegueira facciosa  subsiste dentro de si...