segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Os disparates em torno de relíquias macabras

 

Nesta estação tonta (silly season) está a tornar-se entediante a repetição das estafadas expressões utilizadas pelos repórteres televisivos sobre os fogos, que os incendiários andam a espalhar a norte do Sado, aproveitando os maus humores da meteorologia e a extrema secura dos terrenos e florestas. Lá se voltam a repetir os “cenários dantescos”, os “teatros das operações” e a habitual zanga dos que gostariam de ter meia-dúzia de bombeiros a servirem-lhes de guarda-costas e um Canadair  a sobrevoá-los continuamente, para asseverarem com ridícula compostura que  “faltam meios e organização”  no combate aos incêndios.

Como alternativa as televisões optaram pelo recurso ao macabro: primeiro com o cadáver de Zédu, que alimentou a ridícula telenovela protagonizada pelas inenarráveis filhas mais velhas do defunto e tendo por motivo o seu destino final. Depois foi a exposição do frasco com o coração de D. Pedro IV, que Rui Moreira decidiu emprestar prestimosamente a Jair Bolsonaro para dele se utilizar na campanha presidencial contra Lula da Silva. Mas, antes de pô-lo numa caixa e despachá-lo para o Brasil o edil do Porto decidiu expor o despojo real e foram absurdos os testemunhos dos que se enfileiraram para o irem ver.

Caramba! Aquilo é um pequeno pedaço de carne morta conservada em formol, ou outro líquido do género, e em nada se distingue do de qualquer outra macabra relíquia, que se quisesse expor para gáudio da bacoquice dos interessados.

Eu sei de quem se desloque à exposição de cadáveres, que regularmente vai passando pelas várias cidades europeias e os apresenta esteticamente embelezados, mas não deixa de ilustrar uma atração pela morte, que nos deveria fazer refletir sobre o velho dito grego de haver gente de tudo capaz. Mas que as notícias em torno dos despojos de Zédu  ou de D. Pedro são disparatadamente grotescas, lá isso são! 

quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Os engenheiros das obras feitas novamente ao ataque

 

1. A importância que o «Público» dá às novas propostas da Sedes para acelerar o crescimento económico do país justifica que volte a lembrar aquele meu encarregado para quem não faltavam à volta os «engenheiros das obras feitas», ou seja gente, que nada fez de relevante, mas a quem não faltavam opiniões sobre como as obras deveriam ser concretizadas.

De Álvaro Beleza ou Abel Mateus nada sobra de importante, que tenha marcado os respetivos currículos como relevantes para o país, embora um e outro bem se tivessem esforçado para mimarem os egos com cargos para os quais lhes falhava manifestamente o talento. Um chegou a aspirar ser líder do Partido Socialista, mas teve de contentar-se com a pertença a um secretariado de má memória, o outro andou por cargos bancários excecionalmente bem remunerados, mas deve-se-lhe parte substancial da responsabilidade quanto às condições equívocas em que Portugal aderiu ao euro.

Agora ambos apresentam um livro com 57 ideias para duplicarem o PIB português e são um regabofe para o patronato: a redução dos direitos laborais e o incremento dos correspondentes deveres, a privatização parcial (sempre prenúncio do que se seguiria) da Segurança Social, a aceleração da destruição do Serviço Nacional de Saúde ou a construção de centrais nucleares no território português.

No conjunto o livro da Sedes é um completo desaforo, mas não duvidamos que terá ampla publicidade nos jornais e televisões, merecendo do «especialista em economia» da SIC um enlevado entusiasmo.

2. Ascenso Simões tem toda a razão, quando associa à choldra queirosiana a indecorosa campanha dos últimos dias sobre a frustrada contratação de Sérgio de Figueiredo pelo Ministério das Finanças. E associa-se ao texto do visado no Jornal de Negócios quando conclui que “a inveja faz de nós gente pequena, e isso impede que possamos sair da eterna tristeza que nos assola”.

3. Luís Osório andou atento às conversas de café e concluiu que a opinião pública em nada coincide com o apressado enterro por alguns anunciado relativamente à carreira política de Pedro Nuno Santos. Porque, uma vez mais, a definição quanto à construção do novo aeroporto voltou a ser adiada para as calendas e, enquanto António Costa fica inevitavelmente associado aos que engonham e não fazem, Pedro Nuno cresce na consideração dos que admiram a capacidade de fazer, mas a quem levantam contínuos obstáculos. Daí que o jornalista preveja a forte possibilidade de, tão-só demore a resolução da indefinição quanto a essa infraestrutura, o ministro da área continue a somar apoios para vir a suceder a quem, inevitavelmente, acabará por meter os papéis para a reforma.

4. E na pertinaz tentativa de ocupar o espaço mediático, Luís Montenegro lá voltou a demonstrar a insipiência do seu discurso político feito de demagógicas críticas aos que esforçam-se por minimizar os efeitos da seca e das altas temperaturas, acautelando a segurança das populações. Optando por dizer o que julga produzir maior efeito em quem o ouça, Montenegro mantém a imagem de vendedor da banha da cobra.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Um zombie careca e uma tempestade a crescer de dimensão

 

1. A festa da rentrée  do PSD já cumpriu o calendário e depois? Ah, apareceu por lá um zombie careca, que concitou maior atenção na imprensa do que o novo líder. O que diz bem do entusiasmo por este último cujo discurso nada trouxe de novo: pior, porque limitou-se a reivindicar a total identificação com o governo, que maior dano causou à carteira dos portugueses neste século e o não esquecem, particularmente os pensionistas a quem agora quis prometer mundos e fundos naquilo que facilmente lembrou gato a querer passar por lebre. Lunático, promete ser governo daqui a quatro anos, ou seja, daqui a uma imensidão de tempo, porque até lá tanta água correrá por baixo das pontes, mesmo que a seca esteja para durar por conta das malfadadas alterações climáticas - tema maior dos dias de hoje - e sobre as quais nada se ouviu.

Até 2026  muito acontecerá e, sobretudo, espera-se que o governo faça bem o seu trabalho sem alguns dos tiros nos pés, que se têm verificado nas semanas mais recentes e  difíceis de justificar pelos socialistas mais convictos, particularmente quando têm a ver com a incapacidade para contrariar a sabotagem do SNS empreendida pelos grupos privados do setor.

2. Não é frequente a minha concordância com as opiniões de Viriato Soromenho Marques mas, do seu texto de há três dias no «Diário de Notícias», merecem ser retiradas duas citações pertinentes. A primeira versa as consecutivas provocações norte-americanas à China através de políticos democratas, que vêm-se sucedendo em visitas a Taiwan: “é frequente nos EUA, administrações em perda de apoio eleitoral atiçarem conflitos externos para inverter as sondagens, mas arriscar uma guerra com a China para não perder a maioria na Câmara dos Representantes ultrapassa todos os limites da imprudência.”

A segunda refere-se à guerra no leste europeu: “esta guerra trava-se ainda na Ucrânia, mas desde que o envolvimento da OTAN subiu para os níveis colossais atuais, passou a envolver quase diretamente as maiores potências militares do planeta.

Como sair daqui? Ou as armas se calarão com tréguas, onde todos perdem alguma coisa, mantendo, todavia, a face para uma solução negociada mais duradoura. Ou se continua a arriscar, degrau a degrau, mergulhar numa tempestade de destruição que - depois de arrasar a Ucrânia - terá o planeta como limite.”

E não vale a pena acrescentar mais nada! 

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Habituem-se!

 

Gente há - como é o caso do diretor do «Público» - que anda muito ofendida com alguns atos recentes do governo: a decisão de analisar atentamente as faturas da Endesa, a contratação de um consultor pelo ministério das Finanças, a oportuna questão da titular da Agricultura quanto ao apelo da CAP para que não se votasse no PS nas últimas legislativas. Até parece que se deveria exigir a quem pertence ao governo um comportamento tão exemplar que se lhe abrissem de par-em-par as portas do paraíso e todos os titulares ganhassem as alvíssimas asas dos anjos.

Chatice! Não é que há quem nele não se contente com o comportamento dos meninos de coro e adote convictamente a pose dos maus rapazes e mal comportadas raparigas? Depois de tantos desaforos, vistos durante os governos de maioria absoluta das direitas, só faltava que os de esquerda se portassem como parvos. Por isso apetece citar António Vitorino e dizer: “habituem-se!”. 

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Gente pouco recomendável

 

1. Um dos mistérios das últimas semanas teve a ver com a reação de muitos «democratas» - estou-me a lembrar por exemplo de Pacheco Pereira! - à reação de Augusto Santos Silva sobre as diatribes xenófobas de André Ventura na Assembleia da República.

O caso subiu até Belém, mas Marcelo, raposa velha, nem quis saber do que se passara, limitando-se a ouvir o ofensor aos valores constitucionais sem lhe dar o pretendido colinho. Por seu lado a segunda figura do Estado voltou agora a reiterar aquilo que continuará a fazer: tão-só ouça algo, que viole tão brutalmente a lei fundamental, logo repetirá pronta desqualificação das palavras torpes do deputado fascista.

Preparem-se os hipócritas para continuarem a condenar Augusto Santos Silva, que assim se denunciarão como idiotas úteis de quem nunca deveriam querer acolitar como cúmplices.

2. Os tempos não correm de feição a Zelensky que, com poucos dias de intervalo, vê insuspeitas entidades internacionais revelarem aquilo que mais desejaria ocultar. Começou com a Amnistia Internacional a denunciar o que se adivinhava facilmente - a adoção de civis como escudos humanos para atrás deles esconder militares e armamento julgando assim que os invasores os poupariam com a sua artilharia. Embora pressionando o suficiente para levar à demissão da responsável da AI em Kiev, Zelensky não a levou a desmentir o conteúdo do que antes denunciara.

Foi agora o FMI a publicar relatório onde se constata outro facto indesmentível: enquanto a economia russa consegue demonstrar resiliência às sanções por ele exigidas à comunidade internacional e às quais se prestaram os responsáveis da União Europeia, elas incidirem por ricochete nas populações dos 27, que enfrentam significativa inflação, a ameaça de não terem recursos energéticos suficientes para enfrentarem o inverno e uma grave recessão. Desesperado com a previsível derrota, Zelensky exige ainda mais não enjeitando cair nas mais caricatas contradições: depois de ter exigido que os países europeus não comprassem mais gás ou petróleo à Rússia, logo classificou de terrorismo a decisão de Putin em fechar-lhes a torneira.

E há enfim a publicação na Alemanha do trabalho de investigação de dois reputados jornalistas sobre a sua personalidade, e ao qual os principais títulos da imprensa estão a dar grande destaque, revelando-o como possuidor de contas em paraísos fiscais, ligação privilegiada ao oligarca Igor Kolomoisky e comportamentos tão ditatoriais quanto as do comparsa Putin com quem as afinidades eletivas serão afinal muitas mais do que sugerem as suas palavras.

Preocupantes também são os sinais vindos de além-Atlântico onde, de acordo com o insuspeito Thomas Friedman, cresce o desagrado da Administração Biden com a forma como está a gerir uma guerra, que os serviços de segurança revelam estar a evoluir desfavoravelmente.

Não sendo nenhuma das organizações, títulos da imprensa ou jornalistas em causa supostos simpatizantes de Vladimir Putin adivinha-se um crepúsculo sombrio para o autoproclamado servidor do povo ucraniano. Para nosso invernoso descontentamento, que vemos tantas pessoas inocentes a serem mortas, estropiadas ou a perderem todos os seus bens por conta dos exclusivos interesses dos dois senhores da guerra. 

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Estar do lado dos bons, mas fechar os olhos a quem são

 

A coerência é uma coisa tramada: a civilização ocidental costuma orgulhar-se dos seus valores em nome dos quais intervém ativamente nas periferias, ou ajuíza o que lá se passa. Por isso conseguiu um consenso tão evidente na defesa da Ucrânia contra a agressão russa à Ucrânia de 24 de fevereiro. Mas tem no alfobre tantas contradições com esses valores, que sabe-se ser a verdade muito relativizada pelas circunstâncias de cada momento. Como ficou demonstrado com a invasão do Iraque.

Vem isto a propósito da morte de Ayman al-Zawahiri  em Cabul, atingido por dois mísseis disparados de um drone. Sem julgamento, nem prévia autorização do Congresso norte-americano, Joe Biden, que vem acumulando derrotas nas principais batalhas internas e externas, precisava de uma «vitória» deste tipo para iludir as fraquezas, e não se cuidou de a proclamar. Mesmo mandando às malvas aquilo que são os preceitos civilizacionais por que é capaz de bater a mão no peito.

A mesma incoerência acontece na Ucrânia sobre a qual a Amnistia Internacional publicou relatório contundente denunciando o aproveitamento de edifícios civis (hospitais, escolas, centros comerciais) para esconderijos de armamento e sede de tropas aquarteladas. De repente uma organização independente internacional deu cobertura ao argumento russo de ter por alvos da sua artilharia objetivos estritamente militares. Mesmo suscitando as colaterais vítimas civis, que o regime ucraniano julga descartáveis, quando delas faz escudo de proteção para os seus militares.

Como conclui Carmo Afonso na sua crónica de hoje “queremos estar do lado dos bons, mas temos de fechar os olhos para realmente lhes chamarmos bons.”

domingo, 7 de agosto de 2022

O Luísinho das feiras

 

Quem não sabe imita os que pareceram saber. Eis o que o atual líder do PSD parece subscrever com a volta a Portugal, que anda a dar sem ser de bicicleta, mas parando de feira em feira.  Se o Paulinho das feiras conseguiu sucesso à conta de tal estratégia, por que não repeti-la?

E, no entanto, em tudo quanto diz não revela um nisquinho de ideia consistente para o país limitando-se a prodigalizar-se nos exercícios de retórica em que os advogados são tão pródigos. Que importa, se outro modelo, também pode ser seguido: o de repetir muitas vezes as mesmas tretas na esperança delas parecerem ganhar algum sentido!

O Luisinho das feiras esquece-se, porém, de uma evidência: se o original ainda pode ter algum mérito, a sua contrafação não passa de fancaria! 

Ana quem?

 

A mediocridade das nossas televisões ficou mais uma vez demonstrada - mas seriam necessárias reiteradas provas? - com o tratamento dado à notícia da morte de Ana Luísa Amaral. Ao preteri-la como notícia de abertura, atirando-a para meio dos telejornais, depois dos escândalos da Igreja Católica e dos problemas nos hospitais, os diretores de informação comprovaram a sua prioridade ao incentivo dos instintos primários dos espectadores, que se ajuízam mais interessados em histórias de alcovas e sotainas, em vez de lhes dar o ensejo de conhecerem e darem a devida importância a um nome maior da nossa cultura, de cuja obra poética muito teriam a aproveitar.

Uma das causas da decadência deste povo peninsular tem sido a alavancagem dos seus mais arreigados defeitos em vez de lhe procurarem aprimorar as qualidades. Dão-lhe cultura pimba, hooliganismo futebolístico e histórias de faca e alguidar e tem-se a garantia de se troglodizarem o suficiente para acabarem por achar natural o voto no Chega. E quer-se maior demonstração do que se está a passar em Itália? Depois de anos a fio de berlusconização das televisões e aí temos um dos países mais influentes da Europa a enredar-se nas falácias das extremas-direitas? 

sexta-feira, 5 de agosto de 2022

E ela continua a mover-se ...

 

Enquanto ateu assisto da bancada aos sucessivos escândalos, que têm vindo a lume sobre os abusos sexuais na Igreja Católica,  mas não estranho, que a imposição de algo tão antinatural como é a obrigatoriedade da castidade aos seus sacerdotes redunde em perversas consequências. Querendo impor valores absurdos aos prosélitos as religiões sujeitam-se ao progressivo descrédito de quem lhes deteta as incongruências, podendo levar essa consciência até pôr em causa o essencial: será que o tal Deus, que exigiria essa castidade aos padres, existe de facto? E, a nele manter a crença de se tratar de um ser perfeito, como compreender que, na capacidade para estar em toda a parte, assista impavidamente aos crimes praticados pelos que exigiria serem castos, não pecando por atos nem por omissões?

Vivendo perto de uma igreja espanta-me a multidão, que a frequenta todos os domingos, olhando para ela com a tentativa de compreender o que leva tanta gente a acreditar em algo que não passa pelo crivo fundamental da verdade científica. Ora, num século em que a Ciência terá avassaladora importância à medida que os problemas climáticos e a mudança dos paradigmas relacionados com as necessidades de alimentar e dar condições de conforto aos quase oito mil milhões de viventes, não se vislumbra qualquer possibilidade de comprovar a existência de uma qualquer entidade divina. Se Vinicius de Moraes anunciou que Deus já morrera de cancro, eu presumo antes que ele nunca existiu. Por isso aos ainda crentes, que ainda não aderiram à lógica racional de dispensarem esse suposto privilégio de ter fé (quantas vigarices tiveram sucesso ao longo da História da Humanidade com a ingénua aceitação dos dogmas debitados pela suposta autoridade dos seus perpetradores?) resta questioná-los sobre até quando evitarão colocar a si mesmos a hipótese de terem passado as suas vidas a lavrarem em inexplicável logro?

Se Galileu quase foi queimado no seu tempo por proclamar que a Terra move-se, cinco séculos depois ela continua a girar... mesmo havendo quem o não queira reconhecer!

quinta-feira, 4 de agosto de 2022

Um modelo de Democracia com muito pouco de exemplar

 

A lição já poderia ter sido aprendida em 1933, quando da História recolhemos o exemplo da chegada dos nazis ao poder através de eleições. Ou em tantas ocasiões posteriores, quando se viu gente sem qualidades à luz dos valores democráticos, chegar ao poder nos respetivos países. Recentemente não faltam exemplos disso estar a verificar-se com inquietante progressão - nos EUA de Trump, na Turquia de Erdogan, na Hungria de Orban, na Rússia de Putin e até na Tunísia tal qual se vem atualmente afirmando a ditadura de Kaïs Saïed.

Daí que já teria sido tempo de pôr em causa este tipo de democracia - em tempos crismada de «burguesa» -, que enaltece as liberdades fundamentais, mas deixa as opiniões do espaço público virem filtradas pelo total domínio da imprensa por quem tem interesse em manter as ilusões quanto ao mercado livre equivaler a prosperidade, quando crescem as desigualdades sociais e a avaria irreparável do tão glosado elevador social.

Nesse sentido pode-se questionar onde existe mais democracia - nos Estados Unidos onde a miséria grassa numa percentagem crescente da população, que não tem direito ao ensino, à habitação, à saúde, sequer à sindicalização para defender os seus interesses, ou no modelo capitalista de Xi Jingping onde a melhoria de qualidade de vida é inegável e não é tão chocante a diferença de rendimentos entre os muito ricos e o resto da população.

Há corrupção na China dita comunista - que o não é de facto! - decerto que sim. Mas que dizer da importância dos lobbies na sociedade norte-americana, que influenciam transversalmente todas as principais áreas de atividade e garantem rendas maximizadas para os mesmos do costume?

Vem isto a propósito da provocação de Nancy Pelosi, que muitos se apressaram a considerar muito corajosa, quando replica aquilo que aconteceu décadas a fio com a intromissão ocidental numa parte da Europa, onde acabaria por esgotar-se a paciência dos russos com o evidente cerco, que se lhes estava a fazer.  Mas, a não ser o complexo industrial-militar que garante um fluxo prometedor de encomendas vindas de Taipé, mesmo que garantidas pelo fluxo de dólares para lá transferido pela Casa Branca, não se vislumbra a quem aproveita esta bravata. Porque os próprios taiwaneses sabem que a geografia é tramada e o seu abocanhar pelo regime de Pequim é uma questão de tempo. O que foi compreendido há muito tempo pelos sucessores de Chang Kai-chek, que por isso se viram arredados do poder pelas réplicas locais de Zelenski, com a demagogia de um nacionalismo baseado na exigência de terem costas quentes do tio Sam para evitarem o inevitável. E assim se vai tornando cada vez mais perigoso um planeta, que vive na eminência de conflitos potencialmente apocalíticos. 

segunda-feira, 1 de agosto de 2022

Os momentâneos paradoxos do nosso tempo

 

Há paradoxos do nosso tempo, que o jogo dialético das contradições, tenderá a resolver. Um deles é o da ascensão da extrema-direita europeia, que já governa na Hungria e na Polónia e prepara-se para o fazer em Itália, advogando exatamente o contrário do que exige um planeta a contas com as alterações climáticas. Somadas às medidas implementadas nas respetivas legislações, que tenderão a melhor oprimir e explorar os proletariados, que lhe servem de principais votantes. Os idiotas úteis são-no mesmo sem que o possamos propriamente evitar, porque piores cegos são os que não querem ver aquilo que se escarrapacha à frente dos seus olhos.

Do mesmo modo vemos muitos jovens  a deixarem-se atrair por um tipo de discurso que, entre nós, tem paladinos nos deputados da Iniciativa Liberal. Acreditando na falácia da meritocracia julgam possível enriquecer com facilidade e alcançarem o tipo de vida como a que veem em certos filmes e séries televisivas em que o glamour é feito de prazer constante sem ter de trabalhar. E, no entretanto, frustram-se num quotidiano feito de empregos precários, salários de miséria e continuada dependência dos pais de cujos ninhos não conseguem emancipar-se.

É um facto que a classe dominante tem tido um êxito retumbante ao disseminar um tipo de (des)informação audiovisual, que distancia os que vivem da força do seu trabalho das mensagens políticas, que melhor serviriam os seus interesses.

Até quando? Ser-lhes-á, de facto, necessário um banho de realidade para  compreenderem o logro em que se deixaram enlear. Com a provável consequência de uns quantos fanatizados ficarem a reclamar contra quem - os emigrantes, a “peste grisalha” entre outros - deveriam tomar como seus aliados em vez de inimigos. Alguns deles perder-se-ão irreversivelmente para extremismos de que nunca conseguirão libertar-se. Mas tenhamos esperança de serem muitos mais os que ganham algum tino e decidem mudar de vida optando pelas companhias, que melhor os ajudarão a superarem as fronteiras das suas realísticas ambições. 

sexta-feira, 29 de julho de 2022

O nunca por demais lembrado exemplo de Ehrlich

 

Uma das respostas mais estúpidas que, amiúde, é dada por quem me lê os textos, e se incomoda com a crença neles manifestada sobre o irreversível fim do capitalismo, substituído por uma sociedade socialista mais igualitária e justa, é não haver exemplo histórico bem sucedido de tal utopia. Falhou na União Soviética e em todos os países do leste europeu, tornou-se numa terrível tragédia no Camboja, continua a não resultar em Cuba ou na Venezuela, e travestiu-se noutra forma avançada de capitalismo na China. 

Para esses críticos está bem de ver o que daqui resulta: teremos de rendermo-nos à evidência de nos contentarmos com «reformas« no capitalismo, porque nenhum outro sistema económico e ideológico melhor alimentará a população mundial, mesmo que seja o principal instigador do dióxido de carbono na atmosfera do nosso exaurido planeta. A utopia socialista seria tão só isso: uma quimera sem viabilidade.

Foi a pensar nesse tipo de pessoas, que José Mário Branco recorreu ao exemplo do médico alemão Paul Ehrlich, que investiu denodados esforços na descoberta da cura da sífilis, terrível doença, que a tantos afetava na viragem do século XIX para o século XX. No seu laboratório ele ensaiou centenas de hipóteses de tratamento nunca desistindo após o fracasso de cada um deles. Até, finalmente, conseguir o seu objetivo à 914ª tentativa. Questionava o nunca por demais recordado autor do FMI: quantas vezes tentámos nós mudar de vida?

Mudar de Vida é também o título do filme em que ele recorda este exemplo, que deverá estar sempre na nossa mente quando um desses provocadores antissocialistas vier com a sua mentecapta ladainha. Porque, evocando o conhecido poema de Brecht, um mundo melhor será possível se os imprescindíveis não se deixarem tolher pelo desalento. Porque existem leis científicas, que ganham dimensão de axiomas e uma delas é não haver descanso para a luta de classes enquanto subsistirem as tão gritantes diferenças entre os que tudo têm e os que mal conseguem sobreviver! 

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Para vencermos só faz sentido unirmo-nos!

 

Fazem sentido as cinco lições debitadas por Manuel Loff sobre as causas, que justificam a forte possibilidade das extremas-direitas europeias ganharem o poder nos respetivos países como nunca mais voltara a suceder desde a Segunda Guerra Mundial.

A primeira dessas lições ensina-nos, que elas só o conseguem pela mão das direitas como se viu na Hungria e na Polónia, e está em vias de suceder em Itália. Por cá não podemos esquecer que o tenebroso Ventura chegou à ribalta por convite de Passos Coelho no que constituiu uma das mais tóxicas manifestações do seu legado enquanto (des)governante.

A segunda é a dela fazer-se acompanhar de uma nova ordem neoliberal, que ilustra os maiores desvarios do capitalismo selvagem tudo privatizando e sonegando quaisquer direitos a quem trabalha.

A terceira é a de enfatizar o suposto choque de civilizações, agora transformado na ameaça global de um sul subdesenvolvido apostado em alterar demograficamente as características morfológicas das populações cristãs do ocidente e em mandar às urtigas os seus «valores» identitários.

Ao mesmo tempo tudo isto sucede quando os partidos tradicionais sugerem conhecer  um irreversível processo degenerativo, que os desacredita quanto à capacidade de proporem algum futuro viável e esperançoso.

E há enfim a constatação de crescer a extrema-esquerda proporção em que mingua as esquerdas a sério, silenciadas e difamadas pela comunicação social a soldo dos que patrocinam essa dinâmica política Daí, que se deva olhar para o exemplo do Chile, da Colômbia ou da França, onde a convergência das várias esquerdas implicaram a derrota das diversas direitas nas mais recentes eleições. Razão para considerar um logro os que dizem definitivamente encerrada a experiência da dita geringonça. Os tempos atuais demonstram que, contra as estratégias do campo contrário, as esquerdas só têm possibilidades reais de mudarem as nossas vidas, convergindo em vez de se digladiarem estupidamente.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

O entusiasmo de dar tiros nos pés

 

Cinco meses passados sobre o início da guerra na Ucrânia nem os abrunhosianos mais antiputinistas conseguem mostrar algum otimismo quanto ao resultado final do conflito. E até haverá os que lamentarão não terem visto Zelenski assinar um acordo, que vinculasse o seu governo à neutralidade relativamente à NATO e assim tivesse evitado toda esta sucessão de horrores. Agora, os europeus enfrentam galopante inflação e escassez de gás natural, enquanto os russos acumulam superavits na balança comercial, veem o rublo valorizar-se e a inflação contida em índices  equivalentes aos deste lado do continente.

Ao mesmo tempo os responsáveis políticos, que mais entusiasmo mostraram no apoio à Ucrânia, já estão com as malas feitas para despedirem-se dos cargos (Boris Johnson, Mario Draghi), perderam as eleições entretanto organizadas (Macron), ou sabem-se derrotados tão-só elas se verifiquem (Scholz, Biden, Trudeau). O que Putin conseguiu foi suscitar um tal caos, que facilita a total orientação da economia russa para a Ásia e o Médio Oriente, ao mesmo tempo que torna irrelevante uma União Europeia cujo dinamismo dependia de mercados abertos e energia barata, precisamente aquilo de que abdicou com os sucessivos pacotes de sanções, afinal verdadeiros tiros nos próprios pés.

Os malefícios pós-modernos

 

Apesar de, indubitavelmente, de esquerda e, por isso mesmo assumindo simpatias por muitas das chamadas causas fraturantes, contrario tentações misóginas, racistas e homofóbicas, alimentadas por uma educação ainda iniciada na época do Estado Novo. Mas uma coisa é ter a noção dessa íntima e permanente contradição entre o velho e o novo, outra a de ser considerado fidalgal inimigo pelos ativistas de muitas causas na moda. Com vocação inquisitorial, esses fanáticos causam males maiores do que os almejados benefícios como o defende o cientista David Marçal num texto de opinião hoje inserido no «Público»: “O pensamento pós-moderno, e o ativismo que dele decorre, nunca demonstrou qualquer utilidade para os oprimidos que afirma defender. Pelo contrário, tem o dom de tornar pessoas razoáveis e tolerantes em adversários, que se veem catalogadas como racistas ou homofóbicas simplesmente por não professarem o credo pós-moderno.”

Sensatez e racionalidade é o que se exige a quem pretenda traduzir em ganhos civilizacionais as ideias e valores que defende.