segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Estar do lado dos bons, mas fechar os olhos a quem são

 

A coerência é uma coisa tramada: a civilização ocidental costuma orgulhar-se dos seus valores em nome dos quais intervém ativamente nas periferias, ou ajuíza o que lá se passa. Por isso conseguiu um consenso tão evidente na defesa da Ucrânia contra a agressão russa à Ucrânia de 24 de fevereiro. Mas tem no alfobre tantas contradições com esses valores, que sabe-se ser a verdade muito relativizada pelas circunstâncias de cada momento. Como ficou demonstrado com a invasão do Iraque.

Vem isto a propósito da morte de Ayman al-Zawahiri  em Cabul, atingido por dois mísseis disparados de um drone. Sem julgamento, nem prévia autorização do Congresso norte-americano, Joe Biden, que vem acumulando derrotas nas principais batalhas internas e externas, precisava de uma «vitória» deste tipo para iludir as fraquezas, e não se cuidou de a proclamar. Mesmo mandando às malvas aquilo que são os preceitos civilizacionais por que é capaz de bater a mão no peito.

A mesma incoerência acontece na Ucrânia sobre a qual a Amnistia Internacional publicou relatório contundente denunciando o aproveitamento de edifícios civis (hospitais, escolas, centros comerciais) para esconderijos de armamento e sede de tropas aquarteladas. De repente uma organização independente internacional deu cobertura ao argumento russo de ter por alvos da sua artilharia objetivos estritamente militares. Mesmo suscitando as colaterais vítimas civis, que o regime ucraniano julga descartáveis, quando delas faz escudo de proteção para os seus militares.

Como conclui Carmo Afonso na sua crónica de hoje “queremos estar do lado dos bons, mas temos de fechar os olhos para realmente lhes chamarmos bons.”

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