terça-feira, 10 de abril de 2018

Uma galeria de horrores muito útil aos donos disto tudo


As coisas são como são: em tempos que já lá vão os senhores do capital investiam em igrejas para que os sujeitados à sua exploração pensassem em pecados transcendentais e se distraíssem da injustiça da sua condição. Por isso se veio a qualificar a religião como o ópio do povo.
O século XX assustou - e de que maneira! - as sucessivas gerações de proprietários, que constataram os perigos de o poder virar para as mãos dos que dele pretenderiam sempre apartar. Criaram a ilusão consumista, que deu às clientelas dos hipermercados e dos centros comerciais  a falsa perceção de acederem a tudo quanto desejassem conquanto se vissem de bolsos suficientemente recheados. Por isso funcionaram colateralmente outras quimeras como as dos jackpots nos Jogos da Santa Casa ou os créditos «fáceis», depressa transformados em pesadelos sem fim à vista.
Não chegaram esses soporíferos para dissociar completamente os povos do desejo de se libertarem das grilhetas de um sistema, que os foi acossando com as ameaças do desemprego, da precariedade, da deslocalização ou da robotização, e os quis convencer individualmente da progressiva confirmação da regra «cada um por si e o sistema (capitalista) contra quase todos». Sem disporem de quaisquer paliativos para uma degola a que se verão submetidos.
Em muitos países do Ocidente - sobretudo a partir do último quartel do século passado - surgiu uma ferramenta poderosa a rivalizar com as anteriores: o futebol. O tempo dedicado pelas televisões a um fenómeno de massas, que é sobretudo um caso de outras «massas» (financeiras, entenda-se!) é uma obscenidade para quem se sente distanciado do tema e não vê qualquer interesse que uns quantos comentadeiros passem horas a analisar um lance, que deveria ter sido assim e foi assado, ou as tricas palacianas, que parecem apenas dizer respeito aos principais clubes, ignorando todos os demais. Não é a política de desporto, que discutem, mas uma forma de politiquice destinada a distrair os espectadores dos seus problemas reais, ocupando-lhes a mente com quanto os possa manter num estado de passiva estupidificação.
Em declaração de interesses tenho a confessar, que nunca fui sportinguista, nunca tendo sentido qualquer estado de alma em particular pelo clube de Alvalade. Mas quando, muito pela rama, vou-me apercebendo que existe uma disputa tendo de um lado Bruno de Carvalho e do outro Jaime Marta Soares, fico esclarecido. Este tipo de  narcótico mediático não tem deuses assexuados como a religião católica, ou ídolos coloridos ao jeito dos hinduístas, mas conta com icónicos protagonistas, que só podem pertencer a uma sinistra galeria de horrores.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Terá Centeno a solução para concretizar a quadratura do círculo?


O artigo de Mário Centeno, hoje inserido no «Público», ,procura convencer as hostes desconfiadas, quanto à bondade do seu modelo de execução orçamental, que possa comprovar a possibilidade de manter o país na rota do crescimento económico, da melhoria dos rendimentos das famílias e, ao mesmo tempo, da progressiva redução da sua dívida, sem o recurso à sua renegociação quanto aos prazos e juros a satisfazer  em condições conjunturais não tão benignas como as atuais.

O ministro das Finanças começa por reivindicar um conjunto de indicadores, que as direitas não conseguem pôr em causa, e o levam a considerar como constituindo o melhor desempenho económico do país em muitas décadas. Os parágrafos seguintes são citações quase textuais desse artigo, excetuando a alusão a Cristas, que é oportuno inserir, mas que, politicamente, ele se escusa a utilizar.

Em 2017, o PIB cresceu 2,7% e o emprego 3,2%, traduzindo-se num défice público de 0,9% do PIB, o mais baixo da nossa democracia.  O excedente primário fixou-se em 3%. A dívida pública caiu mais de quatro pontos percentuais.

Portugal cresceu mais do que a Europa. O emprego e o investimento cresceram o dobro da média da União Europeia. O desemprego caiu mais do que em qualquer outro país da área do euro.

No SNS, a despesa cresceu 3,5% em 2017. Mas, entre fevereiro de 2015 e fevereiro de 2018, o crescimento da despesa com saúde atingiu os 13%.  Na escola pública, em 2017, a despesa com pessoal cresceu 1,6% e com bens e serviços cresceu 5,3%. Apesar do alarido histérico de Cristas resulta, pois, falsa a  ideia de que o défice tenha sido atingido por reduções do lado da despesa dedicada ao funcionamento dos serviços públicos.

Em 2017, houve mais 430 milhões de euros de contribuições sociais e mais 450 milhões de receitas correntes do que o previsto no Programa de Estabilidade (PE) de 2017, sem que tenha havido lugar a alterações nas taxas dos principais impostos, isto é, sem aumento do esforço fiscal  das famílias e das empresas portuguesas. A redução da fatura com juros face ao orçamentado, menos 455 milhões de euros, explica também a melhor execução orçamental de 2017.

O investimento público cresceu 25% em 2017. O Estado investiu mais 682 milhões de euros do que em 2016. Em suma, o défice ficou mil milhões de euros abaixo do previsto há um ano no Programa de Estabilidade. Metade deste resultado deveu-se à menor despesa em juros, a outra metade foi possibilitada pelo crescimento económico.

Onde podemos manifestar algum ceticismo relativamente ao que Centeno defende é quando, na parte final do artigo, veste a farda de presidente do Eurogrupo para fazer um silogismo a propósito da queda percentual do peso da dívida soberana, que ainda está por demonstrar: “Se em 2017 cumprimos essa redução com mais despesa na saúde, mais despesa na educação e menos despesa com juros, devemos manter esse equilíbrio no futuro. Para o conseguir, temos de manter a trajetória de redução da dívida, manter o esforço de racionalização e de eficiência da despesa pública.”

Compreende-se então o objetivo do texto: confrontar os parceiros de maioria parlamentar com a definição de parâmetros, que ele nunca permitirá ver ultrapassados, mesmo que à custa de uma firme contenção das expetativas  por eles exigidas. No seu dizer “para que os resultados não sejam efémeros” o governo não se afastará da rota, que até agora confiou a tal homem do leme. Restará esperar pelo que decidirá quem o comanda, se e quando ventos contrários vierem substituir os que por ora parecem só soprar na popa. É que se Centeno já transformou muitos impossíveis em concretizações capazes de surpreenderem os mais céticos, lá virá o tempo em que comprovaremos se descobriu mesmo a panaceia para a quadratura do circulo constituída pela dívida excessiva e pela necessidade de mais e melhor investimento público. A dúvida continua a justificar-se...

Até quando seremos obrigados a contribuir para as estratégias do Pentágono?


Datado de 6 de abril, o artigo «Europa abre-se à livre circulação da máquina de guerra» é muito pertinente nos alertas, que lança sobre a crescente militarização da União Europeia e da NATO com consequências previsivelmente muito gravosas para os povos do nosso continente.

José Goulão alerta para a submissão dos governos europeus aos ditames do Pentágono, que anda a exigir o financiamento de obras públicas necessárias para uma melhor movimentação de efetivos militares nos seus territórios. A tradução de tais orientações, vindas de além-Atlântico, encontraram tradução no documento «Plano de Ação para a Mobilidade Militar» distribuído em 28 de março transato aos governos europeus membros da NATO. Nele se refere a urgência na adaptação de pontes e vias férreas, que não apresentem capacidade de carga suficiente para comportarem com as máquinas militares da organização. O mesmo documento não restringe essas futuras movimentações militares aos requisitos da «ameaça russa», porque também podem servir para esmagar levantamentos populares e outros «distúrbios de índole social» em qualquer dos Estados-membros.

O Pentágono já não se contenta em exigir que cada Estado europeu aplique 2% do seu Orçamento na Defesa, garantindo assim vida farta para as empresas do tal complexo industrial-militar tão precocemente denunciado como perigosíssimo pelo antigo presidente Eisenhower. Agora exige a criação de um «Schengen militar» em que a NATO intervirá mais facilmente em situações como as que se verificam atualmente na Catalunha tão só os independentistas decidissem transformar a sua luta pacífica contra a ditadura espanhola numa insurreição popular.
O general Ben Hodges, que liderou as forças terrestres na Europa, é um dos gurus deste iminente atentado ás soberanias dos povos europeus, tendo defendido em 2015 a livre circulação dos exércitos da NATO pelos países a ela pertencentes, sem o estorvo das leis nacionais nem dos procedimentos alfandegários. Convertida em voz do dono, a Comissão Europeia já deu indicações aos seus membros para que identifiquem as alterações necessárias para essa livre circulação de exércitos multinacionais e cuidem do seu financiamento, muito embora se abra alguma possibilidade para uns subsidiozinhos, que facilitem o cumprimento do objetivo.
Azevedo Lopes, ministro do atual governo, participou no Conselho do Atlântico Norte de 8 de novembro transato em que se discutiram as habilidades necessárias para contornar esses impedimentos legais, assim como terá estado na reunião de 15 de fevereiro em que se criou um Comando Logístico destinado a exequibilizar essas intenções belicistas.
Significa isto que, depois de termos sido chamados a resgatar o sistema financeiro, ainda temos de pagar as intenções agressivas do Pentágono em nome de um eixo euro-atlântico, que não faz qualquer sentido. Se Trump quer satisfazer os amigos, que ganham fortunas à conta de produzirem armamento militar, que não conte com os «trouxas» europeus, que se dão à degola em nome de absurdos conceitos geopolíticos. Embora o governo que apoio se tenha comprometido a respeitar os Tratados  a que o país está vinculado, continuo a defender a dissolução definitiva da NATO ou a sua substituição por organização similar, que congregue os países da União Europeia, mas se liberte do espartilho imperialista, incapaz de olhar para este lado do Atlântico de outra forma que não seja a de sua mera colónia.

sábado, 7 de abril de 2018

Burra? Nem por isso. Mas desonesta...


1. Perante a insistência de Assunção Cristas em manter um tom de arruaceira nos debates parlamentares com o primeiro-ministro  - julga ser essa a melhor forma de se dissociar do PSD em cujo eleitorado pretenderia captar as simpatias, que lhe permitissem justificar a liderança do CDS para além de 2019! -, há quem se interrogue se os argumentos utilizados com tão rebarbativa retórica espelham a sua profunda ignorância ou, ao invés, uma indecorosa desonestidade.
A meu ver, a dúvida não se justifica. Ao longo da breve carreira política Cristas sempre revelou a capacidade que certas pessoas inteligentes possuem para investirem esse talento na vigarice intelectual, que as possa beneficiar sem manifestarem o mínimo escrúpulo quanto aos danos, que causem à sua volta O problema é essa estratégia redundar em resultados mitigados, pois as sondagens mostram a renitência dos potenciais eleitores em deixarem-se ludibriar pelo seu conto do vigário.
Quem pode crer que existe atualmente mais austeridade do que no tempo em que ela era ministra de um governo, que cortava salários e pensões e não tendo pejo em defender o aumento dos descontos dos trabalhadores para a Segurança Social para que os patrões vissem diminuído esse esforço? Porque a memória não é tão curta quanto ela desejava serão poucos os que acreditam ser hoje maior a carga fiscal do que a de então, compreendendo perfeitamente que, se há mais gente empregada, os impostos decorrentes aumentem significativamente. E se o consumo aumenta também o IVA conhece correspondente incremento. Quem tem dúvidas que, se as receitas dos impostos aumentaram em absoluto, elas reduziram-se, ainda que insuficientemente, para todos quantos as tinham visto significativamente aumentadas quando Vitor Gaspar era tido como o suprassumo da barbatana pelos comentadeiros agora descoroçoados com a defeção do seu herói de então?
Claro que Assunção Cristas sabe bem isto. O problema é faltarem-lhe outros fundamentos, que lhe deem credibilidade. E podemos imaginá-la, insone, a adivinhar o discurso, que terá de fazer no dia seguinte às próximas legislativas. É que, até lá,  não se perspetivam grandes razões para se sentir minimamente otimista.
2. Pacheco Pereira mostra bem a verdadeira face de impenitente conservador, quando defende para a Cultura algo de muito semelhante ao que Rui Rio aplicou na cidade do Porto e que quase reduziu a produção cultural a um vasto campo de ruínas. No entanto, no meio de tanta atoarda defendida no último «A Quadratura do Círculo» realçou algo que é evidente, mas inaceitável numa perspetiva ética: as sociedades tendem a desculpar as direitas do seu envolvimento em casos de corrupção, porque essa seria sempre a sua natureza. Mas, quando o suspeito é quem estava alinhado à esquerda, a indignação é bem maior, justificando elevadas penalizações. Como se o que se desculpa à direita fosse tido como imperdoável quando atribuído a alguém de esquerda.
Os exemplos verificados no nosso país são bem ilustrativos desta constatação: nas redes sociais José Sócrates ou Armando Vara são diabolizados com uma intensidade, que não se compara com as bem mais mitigadas referências a Dias Loureiro, a Duarte Lima, a Miguel Macedo ou a Marques Mendes. E, no entanto, comparando uns com outros, os indícios demonstrariam serem estes últimos os causadores de esbulhos mais significativos nos bolsos dos contribuintes.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O processo contra Lula: mais uma machadada nas ilusões reformistas


A recusa do habeas corpus solicitado pela defesa de Lula da Silva não constituiu surpresa, mas não deixa de suscitar a devida indignação, por confirmar a continuação do golpe de Estado iniciado com a destituição de Dilma Roussef. A burguesia brasileira, quase toda de pele branca imaculada, viveu atormentada nos últimos anos pela possibilidade de replicar-se contra si o que o chavismo implementou na Venezuela ou os cocaleros na vizinha Bolívia: a tomada do poder político por quem, proveniente das camadas sociais mais desfavorecidas, daria à representação do poder político o merecido peso da mestiçagem da sua população.
Racismo é, de facto, um dos principais fundamentos do boicote sistemático que os meios de comunicação pertencentes a essa elite branca continuamente impregnam nas mentes enfatizando um Brasil ideal em que a propriedade se mantém, incólume, nas suas mãos, e os mestiços e os crioulos, mais não servem do que para serem espoliados das mais valias dos seus trabalhos (desde os de operários às das tão comuns bábás!), enquanto pior sorte se reserva aos índios, destinados à extinção para que as suas exíguas reservas sejam totalmente espoliadas das riquezas existentes no subsolo ou para aumentar as áreas das culturas de soja  exportáveis para o mercado europeu.
Lula já deveria entendido, que seria ilusória a estratégia de se integrar no universo fechado dessa elite por muito que lhes poupasse o livre curso dos seus negócios. O cheiro do operário, que foi, é nauseabundo para quem é tão exigente nos perfumes com que inibe a sua própria podridão ética. A História é fértil em exemplos de quem seus inimigos poupa, às suas mãos morre. Ora Lula esqueceu que, mesmo eleito presidente e melhorando significativamente o rendimento dos seus apoiantes, nunca conseguiria dessa forma evitar que fosse preparada em banho-maria a fervura, que agora o levará à prisão. Há quarenta e cinco anos já Allende morrera por tal ilusão.
É essa a razão porque vale a pena incomodar os preconceitos dos que, julgando-se de esquerda, e até se dizendo sociais-democratas no âmago, continuam a acreditar nas transições reformistas para uma sociedade em que a desigualdade de rendimentos entre as suas diferentes classes e subclasses se operará de forma pacífica e perante a complacência dos que, para tal desiderato, terão tudo a perder.
Como diria a Bíblia há um tempo para tudo: quase sempre o esforço é o de ir mudando lentamente as coisas nos pequenos passos, que consolem esses «moderados» e lhes deem a ideia de ser essa a via seguida. Mas, quando a luta aquece e as condições propícias se criam - sobretudo quando a indignação é tanta, que uma pequena faísca pode incendiar toda a pradaria (Mao dixit), há que não hesitar. Existirão sempre Palácios de Inverno para serem invadidos e conquistados.
No Brasil a prisão de Lula significará mais um passo atrás numa evolução, que se julgara mais avançada. Mas quem pode ignorar as leis da Natureza, que impõem ação de igual força como resposta a uma reação, que terá tendido a recuar momentaneamente a rota da História?

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Não é à direita que se justificam apreensões a respeito de Mário Centeno


Se o «empréstimo» assumido pela troika foi de 78 mil milhões de euros, já ascende a mais de 20% desse valor o dinheiro investido nos últimos dez anos no sistema bancário para que não tenha entrado em rutura. BPN, BES, Banif e CGD constituíram um insuportável sorvedouro de dinheiros públicos, que o Banco de Portugal calcula corresponder a 9,1% do PIB.
Por quanto mais tempo isso se repetirá - agora com o Novo Banco - é resposta a que Mário Centeno não quis responder quando o interrogaram sobre tal situação na Comissão Parlamentar. Mas teme-se que não fique por aqui e que o fundo abutre, que comprou os despojos do Grupo Espírito Santo, continue a garantir apetecíveis retornos do seu reduzido investimento à conta do dinheiro dos contribuintes.
É essa predisposição para priorizar os interesses da banca relativamente aos dos portugueses, cujo voto lhe renderam a pasta ministerial e, colateralmente, a presidência do Eurogrupo, que justifica algumas apreensões em relação às vantagens de ver prolongada por muito mais tempo a carreira política do ministro das Finanças. No Parlamento Europeu Marisa Matias já questionou se Centeno influenciaria o Eurogrupo ou se seria este a consolidar a sua ideologia marcadamente influenciada pela admiração pela financeirização das sociedades de acordo com os modelos anglo-saxónicos. Exprimindo idêntica desconfiança Daniel Oliveira publicou um texto muito pertinente sobre se teria sido para a governação condicionada pelas cativações de Centeno que a «Geringonça» se teria formado. É que os efeitos na Saúde ou na Cultura tornam-se assaz ruidosos, tanto mais que explorados pelas direitas, que não têm pejo em se aproveitarem de situações, que elas próprias armadilharam quando estiveram no (des)governo.
Não hajam dúvidas quanto à  importância de Centeno nestes últimos dois anos e meio. Foi a sua competência na utilização de estratégias de gestão das circunstâncias, que permitiram os sucessivos brilharetes conseguidos desde que substituiu Maria Luís Albuquerque. Mas há alguma razão, quando alguns comentadores, como Pedro Marques Lopes, defendem que as políticas impostas por ele aos seus colegas de governo não diferem muito das que o PSD tomaria se fosse aquilo que alguns (poucos!) desejariam que fosse e não aquilo que sempre acabou por revelar ser a sua verdadeira identidade.
Foi de facto na cartilha social-democrata, que Centeno fundamentou o trajeto da economia nacional do seu desequilíbrio orçamental até ao superavit, que já se prefigura num horizonte muito próximo. À conta dessa conduta o país saiu do radar dos políticos do Norte da Europa, que nos caricaturavam de uma forma, que muito justamente nos indignou.
O problema é que o planeta move-se e a realidade muda de acordo com tendências, que fazem-nos duvidar das vantagens de manter Centeno como ministro na próxima legislatura ao contrário do que, precipitadamente, veio sugerir Ana Catarina Mendes. É que, se a conjuntura potenciou o engenho até agora demonstrado, os principais problemas vividos a nível europeu - o enriquecimento acelerado de uma minoria à custa do empobrecimento da maioria, o alheamento quanto ao problema real da inevitável diminuição do volume e da qualidade do emprego, sobretudo para as camadas mais jovens da população - não se resolvem com Uniões Bancárias nem outras políticas de diluição das soberanias nacionais numa instituição burocrática ditada pela vontade de alemães e holandeses.
A luta de classes, ora assume a perversa característica de dar imerecido fôlego a populistas de extrema-direita, ora se manifesta em lutas frequentemente inorgânicas, que se devidamente organizadas e canalizadas no sentido adequado, podem estremecer os alicerces do desnorteado capitalismo europeu. Chegará o momento em que António Costa ficará confrontado com duas vias possíveis: ou ceder a Centeno coligando-se inevitavelmente com o PSD de Rui Rio, ou assumir-se verdadeiramente como socialista e mostrar coragem na opção, que implique a melhoria significativa da qualidade de vida dos cidadãos, de modo a que se cumpram as suas expetativas  quanto ao direito ao trabalho, à saúde, à educação, à cultura e à habitação. É claro que a eventual maioria absoluta poderá ser transitório paliativo, mas de efeitos apenas retardadores do ponto de viragem em que uma decisão ideológica bem definida terá de ser tomada.
É que, embora os estarolas das direitas tendam a expressar-se de forma semelhante - demorará bastante a que gerações sucessivas formadas na Católica, na Nova de Lisboa ou na Faculdade do Porto, por professores incapazes de se libertarem da lógica do datado e esgotado neoliberalismo! - as críticas fundamentadas de quem pensa o futuro próximo à esquerda do Partido Socialista fazem todo o sentido valendo a pena atentar no que vão escrevendo José Reis, José Castro Caldas, Ricardo Paes Mamede ou João Rodrigues nos abundantes textos de opinião, que continuam infelizmente a ser pouco conhecidos por quem se vê contaminado pelos Zés Gomes Ferreiras, pelos Camilos ou pelos Vieiras Pereiras, que por aí abundam.
A propósito de Mário Centeno, João Rodrigues concluía um artigo com esta justa desconfiança a seu respeito: “o emprego criado concentra-se em sectores de baixos salários como o turismo e a construção, correspondendo a um processo, indissociável do euro e acentuado pela Troika, de regressão estrutural, ou seja, de especialização crescente em sectores com menor potencial de inovação e de ganhos de produtividade, garantindo um lugar subalterno de Florida da Europa. Mário Centeno é um problema crescente internamente. A questão não é pessoal, mas sim política. Talvez também tenha sido por isso que Jean-Claude Juncker apodou de sábia a sua eleição para a presidência do Eurogrupo”.

terça-feira, 3 de abril de 2018

A Palavra aos Leitores (I)


Jaime Santos continua a ser um dos mais ativos críticos do que neste blogue se vai publicando.  A respeito do post sobre a perigosa jogada de Theresa May reagiu assim:
“Pois, só que o meu caro avança em alternativa com um conjunto de explicações bem mais inverosímeis. Não lhe falta imaginação... MST limitou-se a colocar perguntas. O meu caro atravessa-se e dá-lhes resposta…
De novo, trata-se de despachar o óbvio com racionalizações. O problema das conspirações é que elas exigem votos de silêncio de muita gente. Acredita que isso é realmente possível?
Perante a incompetência demonstrada por Theresa May e Johnson, torna-se difícil de conceber como terão eles a perfídia para tão vasta maquinação... Não conseguem negociar um Brexit de jeito, já reproduzir um agente químico russo e utilizá-lo para eliminar duas pessoas escondendo tal crime de toda a gente, isso não é problema de maior... E o MI6 lá estará para dar a devida ajuda…
Perante tal hipótese, convenhamos, a explicação alternativa, da responsabilidade russa na tragédia (ou do roubo à Rússia do dito agente químico) leva a palma no que diz respeito ao princípio da parcimónia... Só que a máxima de Guilherme de Occam não é muito popular nas pessoas nos extremos do espectro político, bem sei…
Não há, claro, provas cabais conhecidas de que tenha sido a Rússia a responsável pelo atentado, ou mesmo que o agente químico seja proveniente de lá. Mas também não há nenhuma razão para pensar que o Governo Russo não continue a agir da mesma forma, que mistura irresponsabilidade e incompetência, como agia o governo da URSS... As potências imperiais a comportarem-se como potências imperiais…
Convinha finalmente que se lembrasse que Putin tem dado cobertura a Le Pen, Salvini e outros, que não são propriamente recomendáveis. Se calhar, ele não fez nada e acha apenas que basta dar-nos a corda com que nos enforcaremos...
Mas, mesmo que isto seja só assim, é triste o tempo que muitas pessoas que se declaram muito progressistas perdem ao defender tal pessoa e o seu regime…”
Obviamente que se da leitura do meu texto pode ficara  impressão de terem sido os medíocres Theresa May e Boris Johnson os «cérebros» dessa maquinação penalizo-me pela ideia errada assim transmitida. Do que não duvido é da existência de eminências pardas por trás de muitos dos regimes, de que só vemos os testa-de-ferro. E sim, a possibilidade do MI5 e do MI6 estarem em permanente concertação com a CIA para mobilizar os incautos eleitores europeus em torno de fake news judiciosamente distribuídas por «jornalistas» a eles avençados.
Não estamos a inventar nada que não esteja devidamente demonstrado em irrefutáveis factos históricos, que só confirmam muito do que podemos ler nos romances de John Le Carré.
Quanto a Putin o Jaime apressa-se a ver em mim um seu defensor ideológico, apesar de poder constatar em muito do que aqui se escreve uma posição crítica sobre as suas opções ideológicas. Mas isso não me impede de compreender muitos dos seus atos a exemplo de um jogador de xadrez que, confrontado com um jogo adverso, recorre à astúcia possível para evitar o xeque-mate.
António Pereira concorda com as críticas aqui inseridas contra as direitas, que insistem nas suas fórmulas ultrapassadas e desenvolve a tese da sua urgente adequação aos novos tempos:
“Como bom catalisador, o tempo, faz vir ao de cima a imensa sujeira que o CDS e o PSD nos quiseram impor, e que teimam ainda fazer crer que é uma boa ideia, repetindo a mesma receita que a IURD e outras utilizam, capitalizando junto dos seus adeptos, simpatias que apenas se suportam na cegueira de uma realidade que teimam não querer ver. O fanatismo faz-lhes mal e a permanência na mesma cartilha sem revisão, revela quão distraídos andam. Modernizem-se, e aprendam a saborear todos os pequenos avanços que a sociedade Geringonçada lhes proporciona, restaurando o poder de compra, o emprego, e as demais e saborosas recuperações, efectuadas na vida nacional. Deixem de ter medo da ESQUERDA que apenas deseja ser útil, num país já cansado de uma Direita macilenta e empoeirada que tem os olhos a apontar os sapatos, por ter a cabeça pesada. Os modelos políticos precisam também de ser profundamente revistos, adaptando-se à modernidade de um terceiro milénio e de uma nação que esgotou as fórmulas anteriores e deseja sentir-se liberta dos conceitos esclavagistas de ontem e quer preparar-se para explorar o riquíssimo Universo Exterior, com um grau de competência que os Velhos do Restelo cimentaram na prática governativa e precisa urgentemente ser erradicado.”
No mesmo sentido, José Alagador considera inevitável o banho de realidade a que Marcelo terá de se sujeitar:
“Marcelo só tem que se render à evidência... Os portugueses não são burros, e por isso já se aperceberam que a atual governação é aquela que melhor lhes defende os direitos... Quanto ao PSD/CDS estamos conversados, já sabemos o que pode vir daqueles partidos, mais do mesmo em relação ao que nos deram enquanto governaram de 2011 a 2015: mais cortes nos rendimentos (vencimentos e pensões), mais pobreza, mais emigração, enfim para essa desgraça já bastaram aqueles 4 anos…”
Igual reação é a de Américo Venâncio, que manifesta um otimismo sobre o futuro da atual maioria parlamentar capaz de exceder o meu.
“Não quer mas tem de querer. O Presidente não pode fazer alterar a vontade do eleitorado, nem com beijos nem com selfies nem com muitas coisas mais... O eleitorado é soberano e vê-se muito bem que o dr costa com a sua maneira de fazer politica e com os resultados que tem tido vai ganhar com maioria e mais a mais com uma oposição toda esfrangalhada e o maior descredito que há memoria nas hostes da direita. Posto isto é inevitável a maioria. Penso que o PS, mesmo com maioria vai continuar aliado aos seus companheiros de esquerda, que tão bom resultado tem tido, apesar das picardias que de vez em quando existem, o que e natural e ate salutar. O dr Costa tem dito que continua com eles e eu acredito que sim ate porque esta em causa a PAZ social. Em equipa que ganha não se mexe Creio que de uma vez por todas vão conseguir MUITOS BONS RESULTADOS.”
Inicia-se neste formato uma rubrica sobre os comentários dos nossos leitores aos textos aqui publicados e que já vinha sendo ensaiada em ocasiões anteriores.

domingo, 1 de abril de 2018

A grande, mas perigosa, jogada de Theresa May


Se houve alguma veracidade nas suspeitas da interferência russa no Brexit e na eleição de Trump, é caso para considerar que Vladimir Putin deverá estar a dar tratos à cabeça de como se terá redondamente enganado com os putativos aliados que escolheu.
No entanto a descoberta da sabotagem protagonizada pela Cambridge Analytica e financiada por alguns dos bilionários norte-americanos mais interessados na vitória das extremas-direitas ocidentais como forma de deitar abaixo o periclitante edifício das instituições democráticas assegurando maiores lucros com ditadores populistas entretanto empossados, justifica a suspeita dessa suposta ciberguerra vinda dos lados de Moscovo ter igual espessura (ou seja nenhuma!!!) à da existência de arsenais de armas químicas no Iraque de Saddam Hussein.
Tudo no caso Skripal cheira a esturro e importa que por ele nos não deixemos iludir.
Comecemos por uma primeira constatação: este “oportuno” atentado ocorre na mesma altura em que são crescentes os sinais de nervosismo da direita inglesa quanto à possibilidade de Jeremy Corbyn ganhar as próximas eleições. Há poucas semanas inventaram a tese dele ter sido espião a soldo da Checoslováquia nos tempos do Pacto de Varsóvia. Quase por certo congeminada na sede do MI-6, essa difamação mais não constituiu senão uma remake de outras acusações similares em tempos formuladas contra outros grandes dirigentes trabalhistas: Harold Wilson, Michael Foot e Neil Kinnock.
Daí, como reconhece Miguel Sousa Tavares no «Expresso», a ânsia do governo inglês em agitar a ameaça russa como forma de credibilizar uma suspeita, cujo fundamento está longe de estar demonstrado. Recordemos que até o Supremo Tribunal inglês recusou tomar como hipótese a responsabilidade russa no sucedido apesar das pressões de Theresa May para que a  subscrevesse.
Na sua coluna desta semana diz MST: “É estranha a importância dada ao caso Skripal (…) em contraste com o primeiro ataque cibernético demonstrado às democracias ocidentais. É curiosa esta prioridade vinda de um Governo que só está em funções devido à vitória do Brexit e com um ministro dos Estrangeiros, Boris Johnson, que foi o seu principal defensor e que agora compara Putin a Hitler e o Mundial de Moscovo aos Jogos Olímpicos de Berlim de 1936, mas que se cala sobre a vergonhosa hipótese de o seu querido Brexit ter sido afinal pior do que o roubo das joias da Coroa. E é curiosa esta inflamada - e bem sucedida - busca de solidariedade dos parceiros europeus, por parte de quem se prepara para orgulhosamente dispensar tais parceiros.”
As direitas que pressionam o governo para que expulse diplomatas russos (e que teria por imediata consequência a inoperacionalidade da nossa embaixada em Moscovo reduzida a menos dos atuais três elementos quando a retaliação sobreviesse!) revelam a característica que o mesmo comentador atribui aos grandes deste mundo, responsáveis pelo quanto ele está tão perigoso: “O mundo não é apenas mais perigoso hoje porque temos armas com uma capacidade de destruição como nunca tivemos e focos de conflito espalhados e criados voluntariamente por toda a parte. É-o também porque os grandes do mundo nunca foram tão destituídos de valores e de vergonha”
No mesmo semanário Daniel Oliveira alinha na mesma lógica, explicando o caso com as conveniências conjunturais de Theresa May: “Mata três coelhos de uma cajadada: mostra que o Reino Unido não está isolado depois do Brexit; obriga a União Europeia a uma resposta descoordenada; e livra-se da suspeita da influência russa que ensombrou o referendo e que, por causa do caso Cambridge Analytica, voltou a dominar o debate público”
O governo russo age bem ao exigir ao Foreign Office o ónus da prova: é que o argumento de se tratar de um químico inventado na Rússia nada comprova. O que impediria os laboratórios dos serviços secretos ingleses de o replicarem e testarem de forma a criarem uma crise internacional, que só beneficia o indefensável governo de sua majestade?

Um permanente morticínio em terras da Palestina


Em maio de 1948 setecentos e cinquenta mil palestinianos foram expulsos das suas casas e terras para que se criasse o Estado de Israel. A setenta anos de distância os descendentes não se conformam com o esbulho de que foram vítimas as suas famílias e insistem em exigir o retorno ao território, que já foi seu.
Se os acordos de Oslo poderiam criar justas expetativas de criação de uma nova realidade em que os dois povos pudessem conviver pacificamente em outros tantos Estados, quiçá capazes de fomentarem sinergias vantajosas para uns e para outros, os radicais de ambos os lados encarregaram-se de tornar impossível essa desejável solução.
Numa fogueira, que já arde com grande intensidade, ainda há quem vá acrescentando mais óleo para a alimentar. Netanyahu com a criação de sempre mais colonatos e muros de segregação (no sentido estrito e no figurado), Trump com a mudança da embaixada para Jerusalém e o Hamas com formas de luta, que se traduzem em fazer dos habitantes de Gaza carne para canhão de uma guerra, que é simultaneamente contra os israelitas, mas também contra a Autoridade Palestiniana.
A dezena e meia de mortos desta semana, vitimados por balas israelitas só acrescenta nomes a um vasto rol de vítimas, que não haverá forma de travar. Neste caso bastou o exército israelita assassinar um camponês, que andava a apanhar salsa para que a indignação de jovens palestinianos se manifestasse. A racionalidade está ausente de um morticínio permanente, que continuará a enlutar as famílias da região. Sobretudo, porque o regime sionista ainda não percebeu que, mesmo ganhando sucessivas batalhas, o resultado final da guerra tenderá a derrubá-lo. A menos que, por pressão interna e externa, surja uma nova liderança mais clarividente capaz de retomar a esperança de paz declarada inexequível depois do atentado, que vitimou Rabin em 1995.