quarta-feira, 9 de março de 2016

O mundo muçulmano, as mulheres e o desejo sexual

Na noite de São Silvestre centenas de mulheres formalizaram queixas à polícia de Colónia devido ao assédio, senão mesmo agressões sexuais, de que se sentiram vítimas por parte de homens maioritariamente magrebinos.
Trataram-se de violências semelhantes às verificadas na Praça Tahir no Cairo em 2011, onde se viu uma horda de homens excitados atacarem mulheres egípcias e jornalistas estrangeiras, desnudando-as e violando-as.
Do Cairo a Colónia o que revelam essas imagens? São pontuais ou revelam um mal estar mais profundo, revelador de uma atitude doentia para com os corpos femininos e para com o desejo por eles suscitado?
Kamel Daoud, escritor argelino defende esta última tese e tem sido objeto de uma enorme polémica, com alguns intelectuais defensores do politicamente correto a fazerem-no símbolo de uma certa forma de islamofobia.
Nos seus escritos Daoud considera que, na sociedade muçulmana, a mulher é negada, recusada, assassinada, velada, enclausurada ou possuída. “O sexo é a maior miséria de quantas subsistem no mundo de Alá”.
Miséria sexual, frustração, peso do Islão numa sociedade machista - eis o que Daoud enunciou como características das sociedades muçulmanas e que tanta polémica suscitaram nos que o acusaram de clichés orientalistas.
Os filósofos Pascal Bruckner e Michel Onfray apoiaram as teses do escritor, tal como o primeiro-ministro francês, que consideraram haver um sério problema do mundo árabe com as mulheres.
Ora confirmam-no as conferências em curso na Arábia Saudita organizadas na semana passada e dedicadas ao tema inacreditável de saber se a mulher é ou não um ser humano! E, nesse mesmo país, há duas semanas, uma jornalista foi condenada a dois anos de prisão por ser tida como impúdica.
As próprias Primaveras árabes revelarem esse mal estar profundo na relação das sociedades árabes com o mundo feminino, já que na Líbia, tão só derrubado Kadhafi, uma das primeiras propostas a ser consideradas foi o do regresso da poligamia. Algo também ensaiado na Tunísia, apesar dos avanços entretanto conquistados pelas mulheres durante as décadas anteriores.
Para  a escritora Fawzia Zouari importa levar por diante duas revoluções nas terras do Islão, não só a de carácter político, mas sobretudo a de cunho religioso de forma a revogar a absurdidade da maioria dos seus dogmas. E contrariar uma certa classe intelectual ocidental, que se presta a fazer de idiotas úteis ao obscurantismo islâmico ao transformarem em seus inimigos de estimação os que se esforçam por o denunciar.

terça-feira, 8 de março de 2016

O dinheiro que ela nos está a custar!

Será previsível, que a pesada herança do governo anterior se faça sentir por muito tempo no nosso quotidiano e particularmente nas notícias publicadas na comunicação social: é que, apesar de afeiçoada aos antigos donos do pote, não consegue calar totalmente as sucessivas provas da sua incompetência que vêm sendo reveladas.

Hoje já se podem fazer contas a quanto têm custado ao Estado os advogados, os assessores financeiros e os peritos em macroeconomia que, desde 2012, foram contratualizados para gerir o caso dos swaps:  mais de cinco milhões de euros. E uma parte significativa foi destinada a defender as transportadoras públicas no processo movido pelo Santander em Londres, que o banco acabou por ganhar.

Ouvidas pelo «Público» elas garantem que as orientações para estes ajustes diretos partiram da Secretaria de Estado do Tesouro, que era ... Maria Luís Albuquerque.

Esta semana ouvi alguém dizer que, se fossem pelos seus méritos e currículo associado antes da entrada para o governo, Maria Luís não poderia aspirar a outra função na Arrow Global, que não fosse a de estagiária.

Não nos passa pela cabeça, que os patrões da empresa não tenham aferido a valia técnica da sua nova empregada, que constitui a reiteração da velha tese de Peter segundo a qual as sociedades tendem muitas vezes a promover a patamares inimagináveis os que só teriam competências para funções hierarquicamente mais baixas. Mas eles não contrataram, nem esse era o objetivo, uma economista de exceção com aptidões inquestionáveis nos mercados especulativos onde operam. Pretendiam o que ela se lhes dispõe a dar: os segredos de Estado, que deveriam ficar a recato de quem com eles quer lucrar!

Que os amigos de Maria Luís insistam em andar com o pin da bandeira na lapela é só um pormenor sórdido de tão despudorada gente.

Resta ainda referenciar alguns dos escritórios de advogados, que têm lucrado com uma decisão insensata, e está a revelar-se caríssima para os cofres públicos. Só a Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados abocanhou quase 400 mil euros desse bolo, cabendo à Cardigos & Associados bem mais do que meio milhão.

Uma e outra são do tipo de empresas facilitadoras dos negócios, que passam muito ao largo da atenção do comum dos mortais, mas que acabam por o prejudicar de uma ou outra forma. 

A Europa não aprende nada com os erros

A viragem estratégica da Europa relativamente à crise dos refugiados tarda em fazer-se com a Grécia a ser torpedeada por quem mais devia ser sujeita a sanções por não cumprir as quotas a que estava moralmente obrigado na repartição do esforço com esse fluxo de desesperados.

A incapacidade em corresponder aos problemas suscitados pelos erros do passado, quando se deixaram cair os líderes laicos do Médio Oriente, e a sua substituição por outros religiosamente conotados com um Islão cada vez mais radicalizado, explica as guerras civis, que tantos mortos e destruição tem causado no Iraque, na Síria, na Líbia ou no Iémen.

Em vez de favorecer a separação do Estado e da religião como um requisito fundamental dos padrões civilizacionais, que se exigiriam como obrigatórios por todo o planeta, a Europa deixou-se embeiçar pelas chamadas «primaveras». Estas mais não foram do que pretextos para delas se aproveitarem os que já tudo faziam para destruir os frágeis equilíbrios criados por ditaduras, apesar de tudo capazes de garantir direitos básicos às populações e, sobretudo, às mulheres, que foram as grandes perdedoras de toda esta sucessão de catástrofes.

Não contente com os erros passados a União Europeia quer-se valer agora da ajuda interesseira da ditadura de Erdogan, quando ela vem acumulando um conjunto inquietante de prepotências fascizantes, que a deveriam tornar parte do problema e não da solução. Hoje em dia as diferenças de Erdogan em relação à cleptocracia saudita ou aos assassinos do Daesh só se medem numa questão de amplitude de horror.

O resultado de todas as tibiezas europeias só pode ser uma continuação sem fim deste drama imigratório e da ascensão de movimentos neonazis como o que este fim-de-semana conseguiu eleger um deputado na Eslováquia graças ao discurso repelente contra quem tanto apoio está a necessitar nesta altura.

segunda-feira, 7 de março de 2016

Plano B, uma ova!

É um facto que existem forças europeias dispostas a tudo para prejudicar o governo português. A notícia do «Der Spiegel» deste fim-de-semana, que foi explorada em todos os telejornais da SIC e da SIC Notícias - previa-se que Mário Centeno iria ser pressionado pelo Eurogrupo a mudar de políticas económicas desde já em contradição com o orçamento em vias de ser aprovado! - revela bem o quanto a corrente austeritária na União Europeia teme que a estratégia do governo português, apoiado por toda a esquerda parlamentar, resulte.

Se o excessivo voluntarismo do Syriza  e  subsequente falta de determinação de Tsipras redundou numa derrota momentânea, deu a essas forças da direita ocidental a convicção em como, apertando o garrote, os que mais se dispõem a resistir-lhes acabam por levantarem a bandeira branca da rendição. Por isso mesmo podemos compreender que os seus objetivos surtem algum efeito, quando analisamos a subida das taxas de juro da dívida soberana nesta segunda-feira, ademais agravada por causa da apreciação negativa da Fitch acabada de conhecer.

O que poderá derrotar essas tentativas externas, que Passos Coelho e o seu coro de ressonância na comunicação social logo procurarão secundar, é a capacidade da equipa de António Costa apresentar resultados da execução orçamental, que contradigam as profecias apocalíticas dos seus detratores. E os indicadores, que começam a ser conhecidos relativamente aos dois primeiros meses do ano são animadores, fazendo pensar na forte probabilidade de ser totalmente desnecessário um Plano B por muito que Moscovici ou Dijsselbloem o sugiram.

Explica-se, assim, a frouxidão progressiva da atitude comportamental de Passos Coelho nos atos públicos em que, diariamente, aposta em se dizer presente. Adivinham-se-lhe as insónias proporcionadas pelo medo de ver António Costa ser bem sucedido onde ele lhe previra o fracasso...

Epitáfio por quem tanto nos prejudicou

Este é o último fim-de-semana em que temos Cavaco Silva como Presidente. Razão para o «Público» dedicar dez páginas da sua edição dominical à procura de respostas para o facto de acabar com reputação tão baixa o político, que mais eleições ganhou na História da nossa Democracia.
Convenhamos que, apesar de ouvir gente muito respeitável, como por exemplo Pedro Adão e Silva, o dossier nada adianta ao que sabemos e até esquece um argumento de peso para explicar o «sucesso» de Cavaco: mais do que mesquinho e tacanho, ele foi de um oportunismo inigualável quando deixou os socialistas tratarem da adesão à então CEE e compreendeu o fluxo ininterrupto de subsídios, que viriam dela. Motivo para a tal viagem de carro até à Figueira da Foz para aí ser ungido como líder laranja.
Depois, e graças já então a uma comunicação social, que tratava de inventar os mais despudorados boatos sobre a probidade de Mário Soares e de outros políticos de esquerda, conseguiu firmar-se no poder, beneficiando ainda das divisões internas dos socialistas que contribuíram para o sucesso efémero do PRD.
A gestão desses fartos dinheiros europeus alimentou toda a corte cavaquista, que aspirou a tornar-se dona disto tudo, apesar de oriunda do lado mais arrivista e cripto-fascista da pequena burguesia salazarenta.
Se Cavaco sai da função presidencial com a popularidade pelas ruas da amargura é porque coincidiu neste segundo mandato com outro notável filho da mesma subclasse social com a mesma ambição e falta de escrúpulos.
É que, para quem não nasce em “berço de ouro”, só existem duas opções: ou identifica-se com os interesses de quem partilhou a sua origem posicionando-se à esquerda para exigir maior justiça social e mais equitativa distribuição de rendimentos; ou procura avidamente todo o tipo de trampolins que lhe permitam acotovelar os seus iguais e alcançar posições para as quais dispensa a demonstração de qualquer mérito ou talento.
Tal como Cavaco, Passos Coelho corresponde a esta segunda categoria de indivíduos. E se o primeiro até teve um percurso académico de alguma valia - mesmo que a fama dos seus trabalhos científicos não tenha equivalido a sua substância -, o atual líder da Oposição sempre se mostrou estudante medíocre e gestor de empresas mais do que duvidosas.
Para a direita, que se reivindicava de um príncipe  - Sá Carneiro - da estirpe do aconselhado por Maquiavel, o ter-se visto representada por Cavaco e por Passos Coelho só podia resultar na tempestade perfeita.
Imitando os republicanos americanos a quem Trump deixou atordoados com problemas de identidade e de descredibilização, a direita portuguesa levará muito tempo a encontrar resposta para voltar a ser aquilo que agora não é! Mesmo que se proclame regressada à social-democracia ou à democracia cristã!
P.S. É certo que todas as críticas ao comportamento de Maria Luís Albuquerque se justificam. No entanto, ouvi-las da voz de Manuela Ferreira leite, que foi para o Banco Santander depois de ser ministra das Finanças, ou de Marques Mendes cujo escritório de advogados é especialista em fazer lobby por grandes grupos económicos e financeiros, tem o seu quê de obsceno.

domingo, 6 de março de 2016

A reeleição de Kim Jong Coelho

Talvez possamos ter doravante algum descanso quanto às aparições diárias de Passos Coelho nas televisões em pose de primeiro-ministro. Já sem o alibi de uma campanha eleitoral interna, que outras razões para ele surgir senão como o líder de uma Oposição cada vez mais enfraquecida?
A sua reeleição à frente do PSD teve um resultado norte-coreano, que foi entusiasticamente saudado pela SIC - mas a realidade manda clarificar que só o elegeram 22161 militantes dos 50491 que estavam recenseados. Significa isto que 1110 foram às urnas para votarem nulo ou em branco e mais de 55% nem sequer se deram a tal incómodo.
Acentua-se assim a progressiva solidão de um corredor de fundo, que teve ímpeto ganhador, quando venceu as diversas resistências a que chegasse à liderança do PSD e o manteve enquanto cumpria o ditado popular de alumiar duas vezes a cadeia que tinha o poder.
Agora que só lhe resta um lugar na primeira fila da bancada do Parlamento, os amigos vão dele fugindo como peste, cada um tratando das suas vidinhas como foi o caso de Maria Luís Albuquerque.
A votação de ontem significa isso mesmo: Passos já só convence 45% dos próprios militantes do PSD. E, no discurso de vitória, acolitado por gente já mais do que desacreditada (Calvão Silva ou Fernando Seara) deixou escapar o que lhe vai na alma, ao reconhecer o início de um ciclo que durará vários anos. É que já nem sequer ele acredita numa viragem que lhe devolva a inebriante sensação de ser o dono do pote.
Ele sabe que o seu tempo já se esgotou, mas teima em iludir essa evidência.

Um ponto de viragem?

Não tenho tido grande disponibilidade para acompanhar as reações de quem se posiciona à direita sobre o novo emprego de Maria Luís Albuquerque. Sei que Manuela Ferreira Leite ou Camilo Lourenço  já a criticaram e que Luís Pedro Nunes considera que este pode ser o fim da picada para Passos Coelho. Teria gostado de ouvir o José Gomes Ferreira ou o João Vieira Pereira a darem o seu parecer sobre quem tanto defenderam, mas, se o fizeram, não os ouvi até por ser cada vez mais rara a passagem de imagens da Sic ou da Sic Notícias no meu televisor.
Houve, porém, algo a ressoar-me de uma das exceções a essa regra e que foi a do programa conduzido por Aurélio Gomes ter realçado a incompatibilidade cada vez mais notória dos portugueses em relação a tanta falta de vergonha como a evidenciada pela anterior ministra das Finanças. Aquilo que, até há não muito tempo, ficava remetido para as críticas durante as conversas de café, transmutou-se em formas de indignação bastante mais veementes.
Andando há várias semanas à espera que as sondagens comecem a fazer sobressair o bom trabalho do Governo e a péssima atitude pass(ad)ista na Oposição, aguardo pelas próximas para aferir se, finalmente, os portugueses se desafeiçoam de vez de quem os deixou com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma...

sábado, 5 de março de 2016

Não é só na América, que há Trumps!

Creio que foi o João Galamba quem, no «Sem Moderação» (Canal Q) desta semana, classificou Donald Trump como o típico candidato de uma sociedade pós-verdade. Porque começa a ser inquietante esta tendência dos eleitores em votarem em quem lhes mente com tanta facilidade, comportando-se com a falta de padrões éticos minimamente exigíveis a quem aspira desempenhar cargos públicos.
A América dos códigos morais extremamente austeros, que tornava inelegíveis, ou passíveis de impugnação, os políticos que se atrevessem a mentir á opinião pública, transformou-se numa feira de horrores onde se é tanto mais votado quanto se for mais boçal e fraudulento. Pelo menos no campo republicano, já que, entre os democratas, ainda nada de semelhante se produziu. Por isso mesmo será interessante constatar se, no final desta campanha para as Primárias acontece a confirmação dos vaticínios de alguns comentadores, que colocam a séria possibilidade da implosão do partido de Abraham Lincoln.
A tal acontecer - e desejo tanto que isso suceda! - poderemos dar por findo este processo, quase levado até ao paroxismo, de uma sociedade que premeia a mentira e nega qualquer sentido ao factual.
Por cá também contamos com tal tipo de gente que apoia os Trumps locais: um dia destes, num «Opinião Pública» da Sic Notícias, um energúmeno recuperava boatos, já mais do que desmentidos na sua veracidade, sobre as supostas atividades ilícitas de João Soares quando quase morreu num acidente aéreo em Angola e acabava a dar vivas a Salazar.
Com biltres desta dimensão, que nos resta senão fazer todos os possíveis por os contrariar nessas convicções em que tanto querem crer e fazer crer?
Mas estes mesmos biltres são capazes de apoiar Passos Coelho apesar de todos os danos por ele praticados durante quatro anos contra a generalidade dos portugueses e até acharem muito bem que Maria Luís Albuquerque vá vender informações que deveria estar impedida de comercializar, tornando-se alta funcionária de um dos mais asquerosos abutres da especulação financeira na City.
Precisamos de uma barrela enérgica a certas cabeças, que estão cheias daquilo que, às vezes, se lhes cola às solas dos sapatos. E só muitos anos consecutivos de uma outra política, mais competente e asseada, tornará isso possível...
Importa pois dar à direita a merecida travessia no deserto...

sexta-feira, 4 de março de 2016

Por uma agenda política efetivamente de esquerda

Ontem o “Ação Socialista” convidou Rui Tavares (dirigente do Livre) para ser seu diretor durante um dia e ele aproveitou para inserir uma entrevista com Yanis Varoufakis, o ex-ministro grego das Finanças, que tantos amargos de boca causou ao sinistro Schäuble. O pretexto foi o de saber mais alguma coisa sobre o DiEM25, movimento político transnacional, apostado na democratização da União Europeia.
Para o entrevistado é uma fantasia pensar-se que, a nível da organização que reúne 28 países europeus, as coisas poderão continuar a  ser como são. A menos que se consiga levar por diante uma revolução política capaz de lhe resolver as subcrises, que a perpassam, ela pura e simplesmente desaparecerá. Por isso mesmo, Varoufakis afirma que, “apesar de todas as dificuldades, há que por de pé essa revolução política para salvar o projeto europeu.”
Ao contrário do que, por exemplo, defendem os comunistas, Varoufakis considera contraproducente o colapso da União Europeia, lembrando o ocorrido no século passado, quando a desintegração dos impérios - alemão, russo, austro-húngaro - conduziu à ascensão do fascismo, do racismo e de outras monstruosidades a eles associáveis.
Importa, pois, desenvolver os elos entre os povos, que o internacionalismo garante. Algo totalmente diverso do que significa globalização:  “O que está a ser globalizado são essencialmente os mercados financeiros e os fluxos de capitais. O processo de globalização não está a ser um processo de solidariedade internacional. Os capitais e as mercadorias circulam livremente pelo mundo, ao passo que as pessoas estão barricadas por detrás de vedações e arame farpado. O internacionalismo baseia-se na liberdade de circulação das pessoas, na solidariedade e na comunhão entre seres humanos de todo o planeta, o que tem pouco a ver com os capitais serem capazes de atravessar jurisdições com toda esta facilidade.”
O que hoje está a acontecer um pouco por toda a Europa é uma atitude anti-internacionalista dos governantes: querem mais fronteiras e menos solidariedade.  Ora é precisamente o contrário, que deverá constar da agenda política de todas as forças de esquerda.

A quem servem os conselhos da drª Teodora?

 Comecei a manhã de ontem por dedicar algum do meu tempo à audição da drª Teodora Cardoso na Assembleia da República para verificar até que ponto sustentaria a argumentação do parecer contra o orçamento do governo, que dizia pejado de riscos.
Quando começaram a falar os deputados da direita a minha televisão voltou a repetir uma estranha avaria cada vez mais frequente nos últimos tempos: seletiva, quando é uma Cecília Meireles ou algum Cristóvão Norte a falar, logo se silencia, só readquirindo a  normalidade quando é algum dos deputados das várias esquerdas a falar.
Não posso, pois, comentar as intervenções dos representantes do PSD ou do CDS, porque só pude deles reter a gesticulação enfática, algo ridícula quando dissociada do que estavam a dizer.
Das intervenções que ouvi gostei particularmente das proferidas por Paulo Trigo Pereira e por Paulo Sá.
Ironicamente elegante o deputado socialista por Setúbal pôs em causa a qualidade do parecer no qual identificou várias omissões. Quanto ao deputado algarvio do PCP, que me encheu deveras as medidas, disse sem sofismas, o que era necessário clarificar: que o Conselho criado em 2011 para dar as mordomias de que a drª Teodora usufrui com mais alguns protegidos nada tem de independente e visa apenas influenciar as políticas económicas do país num rumo tão neoliberal quanto possível. Por isso mesmo foi tão compreensiva com Passos Coelho e agora tão crítica com António Costa.
Não é difícil concluir que alguns destes Conselhos independentes estão a custar caro aos contribuintes sem nada fazerem em seu favor. Acabar com eles é uma medida de poupança bastante aconselhável, difícil de tomar a curto prazo, mas facilitada lá mais para meio do ano, quando se desmentirem as previsões catastrofistas agora emitidas e tão enfatizadas pelos órgãos de comunicação a soldo da clique austeritária.

quinta-feira, 3 de março de 2016

A geringonça que dá mostras de não o ser!

O que exaspera a direita é a consistência da atual maioria governamental, que não dá mostras de tremelicar como previam os inventores da expressão «geringonça«. Quer da parte do PCP, quer dos Verdes, quer do Bloco de Esquerda, repetem-se declarações quanto à perspetiva de um acordo duradouro, que abranja toda a legislatura.
É isso mesmo que Mariana Mortágua diz na sua entrevista de hoje ao «Público» em que dá conta dessa ilação intuída cada vez mais pela grande maioria dos portugueses: “Hoje em dia começa a haver a perceção que este acordo é estável, sólido e, independentemente de haver diferentes posições, não está sempre tudo em causa, a cada momento, mesmo que pensemos de forma diferente”.
Toda a esquerda tem a consciência da necessidade de dar uma resposta firme à mudança de paradigma, que a direita estava a querer impor no imaginário português com o recurso a uma novilíngua capaz de incrustar no imaginário da população um conjunto de valores e conceitos, que só a ela interessava  disseminar. É isso que Mariana Mortágua reconhece nessa mesma entrevista: “Estava a haver uma mudança de regime, a propagar-se de tal forma que já era aceite como a nova e única normalidade. Este Governo permitiu oxigenar a nossa democracia. Reintroduzir conceitos que, no debate político, tinham desaparecido. Houve uma lavagem cerebral, cultural, social muito forte.”
É por isso que a aprovação do Orçamento não se justifica apenas como instrumento para melhorar a vida dos mais desfavorecidos, mas também para recuperar alguns dos mais relevantes valores democráticos: “ A importância deste Orçamento não é só a de repor rendimentos e começar a ser uma reposição da normalidade, da nossa Constituição, tentar recuperar direitos que estavam perdidos, que corriam o risco de ser esquecidos na história, de tirar gente da pobreza, porque vai tirar gente da pobreza. Permitiu--nos lembrar que ainda vivemos numa espécie de democracia em que é possível novos discursos.”
É por isso mesmo que Mariana Mortágua reconhece a forte probabilidade de um futuro mais risonho: “Permitiu a muita gente ter esperança, uma abertura que fosse às reivindicações sociais, criar um novo ciclo de mobilização social, de esperança no futuro. Isso é importante, se queremos fazer algo de diferente e de melhor ainda para a frente.”
E, porque já é uma das economistas mais promissoras da nova geração, faz todo o sentido o que ela diz a respeito da necessidade de agir eficazmente sobre o sistema bancário nacional: “Assistimos, nas negociações do Orçamento, a uma pequena amostra do que é a pressão europeia e aquilo a que assistimos foi feio. Foi a Comissão Europeia a pôr notícias diretamente nos jornais para pressionar o Governo português em Portugal. Aquilo a que assistimos são argumentos que mudam conforme os dias e argumentos técnicos que são manipulados para conseguir um fim político se reconhecêssemos no balanço dos bancos, o real valor dos seus ativos, todos estavam falidos. A banca é um bem público. Só há duas formas de resolver o problema. Ou há uma limpeza, o que implica perdas e recapitalizações. Ou o sistema financeiro é salvo — é disso que muita gente está à espera — por uma nova bolha especulativa. Mas vai ser outra vez salvo de forma fictícia, porque a economia está estagnada. Temos de perceber o que fazer de um sistema bancário que não só se tornou inútil, como um problema para a economia. Este é o debate que se está a ter internacionalmente.

Pedro sem o lobo à vista...

O tema começa a ser recorrente, mas a insistência com que a direita o faz vir à colação assim obriga a retomá-lo: a única estratégia de quem é contra o atual governo - partidos da oposição e órgãos de comunicação social, que lhes servem de altifalante - passa por manter a atmosfera de medo sobre o futuro próximo.
Qual Pedro da história com o lobo, o homónimo que aparece todos os dias na televisão em pose de primeiro-ministro, ameaça com raios e coriscos como se ao céus estivessem plúmbeos e a anunciar tempestades terríveis. Ora, quando surge uma ou outra nuvem mais escura no horizonte, ela é logo notícia de abertura nos telejornais da SIC para que Passos Coelho faça dela o devido aproveitamento.
Veja-se o sucedido com a Moody’s que, na semana transata, deu um parecer positivo à aprovação do Orçamento no Parlamento: como tal notícia contrariava a estratégia de intimidação da direita, logo se cuidou de ir entrevistar uma das suas técnicas para que se desdissesse e reiterasse o discurso anterior.
O que os cabecilhas dessa estratégia sabem é que, sendo a economia muito influenciada pelas expetativas, quanto mais sombrias as enunciarem, repetindo tais falácias até à exaustão, maiores dificuldades terá o governo em executar o seu Orçamento.
Repetem, assim, a manobra de renovar a contínua propaganda feita de mentiras para criar cenários em claro desajuste com as realidades.
Anteveem assim ter o mesmo sucesso, que os levou a iludir milhares de eleitores, empobrecidos durante os quatro anos anteriores e levados a acreditar nas trapaças sobre o crescimento em aceleração e a redução do desemprego, votando neles a 4 de outubro.
O problema para Pedro é que o lobo provavelmente nunca chegará e ele já não possui os instrumentos da governação para falsear os indicadores do INE, como foi a gestão fraudulenta da execução orçamental no ano transato.
Consiga Mário Centeno comprovar a consistência do seu Orçamento e o Pedro passará a ser olhado com comiseração por quem ainda se dá ao trabalho de o ouvir. É que, num tempo, em que os “lobos” andam com a vida cada vez mais dificultada - há um coro quase unânime a desacreditar os fundamentos em que assentam as “análises” austeritárias dos técnicos da Comissão Europeia ou do FMI - o mais provável é nem sequer conseguirem aparecer no nosso burgo.
A execução rigorosa e  exigente do Orçamento agora aprovado criará a dinâmica de aceleração da mudança do cenário macroeconómico reconduzindo o país às expetativas interrompidas durante o tenebroso mandato passista. Se começará mitigada, quando ganhar a velocidade de cruzeiro retirará toda a argumentação, que a direita ainda insiste em apresentar.
A curiosidade será, então, a de saber com que novos protagonistas e com que reorientação ideológica ela quererá recuperar a credibilidade perdida junto dos portugueses. Mas esse é cenário para perspetivar a longo prazo. Por agora armemo-nos de paciência para os muitos alertas de «lobo à vista», que ainda ouviremos nas próximas semanas...

quarta-feira, 2 de março de 2016

A bombar rapidamente na direção da irrelevância

Não costumo ligar aos fóruns dos espectadores ou dos ouvintes das televisões e das estações radiofónicas por os adivinhar condicionadas por quem tem tempo e dinheiro para neles suscitar uma aparência de opinião pública sem conformidade com a realidade.

Mas, hoje, circunstancialmente, ouvi uma interveniente reclamar contra o aparecimento quotidiano de Passos Coelho em pose de primeiro-ministro como se ainda conservasse legitimidade para assim se comportar. E o que ela expressava era o enfartamento, que essa constante intrusão no seu quotidiano lhe provocava.
Quando será que Passos Coelho compreende que mete nojo o que é demais? Por quanto tempo ainda julgará ganhar algum apoio com maus truques saídos da parca imaginação dos seus spin doctors e de que o ridículo «bombar» é só mais um grotesco exemplo?
Por ora ainda tem o argumento de andar na campanha eleitoral para um Congresso onde não conhecerá, por ora, quem o confronte. Mas, e depois? Que motivos terão as rádios e as televisões para o não largarem?
Bastarão indicadores positivos da governação de António Costa para Passos Coelho ficar tão só como aquele célebre general encerrado no seu labirinto sem saída...

O fenómeno Sanders não perde fôlego

Há uns anos se me dissessem que, entre a noite dos Óscares e a da Super Terça-feira  nas primárias norte-americanas, preferiria esta última, não acreditaria. Porque na época era bem mais cinéfilo do que o sou hoje e as eleições na Terra do Tio Sam só captariam a atenção no desiderato de novembro, quando os escolhidos pelos dois partidos teriam o confronto final.
Este ano é diferente, porque há Bernie Sanders. E se apostava que ele estaria por esta altura a atirar a toalha ao chão por não conseguir medir-se em financiamento para a campanha com a de Hillary, as projeções desmentem essa inevitabilidade com a vitória previsível no Vermont (o seu Estado) e as mais inesperadas no Minnesota, no Colorado e no Oklahoma. Tal como sucedera nos Estados onde as eleições decorreram nas semanas anteriores foram os jovens e as mulheres a apoiarem-no numa campanha em que ele não tem pejo em se revelar socialista e com Wall Street e os seus gananciosos negócios na mira. Perante a constatação de ter consigo quem representa o futuro da América, Sanders será o precursor de uma transformação previsível no seu cenário político nas próximas décadas.
Não admira que se conheçam agora sondagens, que o dão como fácil vencedor se encontrar Donald  Trump no confronto final.
Vivemos, pois, uma grande mudança ideológica nestes dias  em que nos julgávamos condenados a viver na vil tristeza das governações da direita. Quando já se fala de pós-capitalismo e nenhum guru  encontra fórmulas mágicas para reavivar o que já não tem conserto, Sanders (tal como Corbyn em Inglaterra) vem recolocar o socialismo na agenda por ser a única ideologia que, assegurando uma redistribuição da riqueza, devolverá às economias os meios de investimento para garantir os tão urgentes empregos…

terça-feira, 1 de março de 2016

O que nos ensinam os irlandeses

As eleições irlandesas deste fim-de-semana quase passaram despercebidas nas nossas televisões, que apostaram grande parte dos seus noticiários nos assaltos violentos na Grande Lisboa e na polémica sobre a eutanásia. E, no entanto, vale a pena olharmos para o sucedido nesse país da União Europeia por se confirmarem as tendências verificadas noutras eleições, entretanto ocorridas na Grécia, na Espanha e em Portugal.
Em primeiro lugar os eleitorados estão dispostos a penalizar as receitas austeritárias. Muito embora os líderes, que assumiram essa cartilha e a venderam com recurso à demagogia mais despudorada, conseguirem ter a votação relativa mais elevada, ela já é insuficiente para prosseguirem com a receita da TINA.
A exemplo de Passos Coelho e de Mariano Rajoy, Enda Kenny ficou a lamber as feridas do divórcio evidente entre a maioria dos cidadãos e a linha de rumo do seu governo. E de pouco lhe valeu a diabolização da situação portuguesa, porque os irlandeses “ofereceram-lhe” um resultado com menos soluções do que a ocorrida em Portugal a 4 de outubro transato.
Mas o resultado irlandês também confirma o que aqui tenho reiteradamente escrito: quando a esquerda da matriz socialista, representada pelos Trabalhistas, aceita servir de mordomo à direita para que ela cumpra o seu programa, as consequências estão à vista: tal qual o Pasok grego, o Labour irlandês cai abruptamente na sondagem das urnas e torna-se irrelevante para o futuro imediato dos seus cidadãos. Francisco Assis, Álvaro Beleza e todos quantos torceram o nariz à viragem do PS à esquerda bem podem refletir nesta demonstração lapidar do que significariam as suas ideias levadas à prática.
Mas se o Labour fica a contas com a necessidade de virar de página e perder a vergonha de se assumir de esquerda, verifica-se com o Sinn Fein aquilo que impede a Espanha de vir a ter um governo semelhante ao de Portugal: tal como o Podemos, o partido mais à esquerda do espetro político irlandês mantém uma postura sectária em que só lhe interessa chegar ao poder, quando conseguir tornar-se no Partido mais votado e ditar as suas condições efetivas para o exercer. E, pela forma como as coisas evoluem - com a forte probabilidade de se repetirem as eleições a curto prazo! - ilude-se com a hipótese de tal acontecer já ao virar da esquina.
O pragmatismo, que Catarina Martins e Jerónimo de Sousa mostraram em Portugal, e pelo qual serão decerto premiados pelos seus eleitores, que estavam fartos de se remeterem a mero protesto inconsequente e veem melhorar a sua qualidade de vida, ainda falta à esquerda não socialista. Em vez de pensarem no favorecimento imediato das franjas da população mais causticadas pela austeridade, apostam no fútil dogmatismo. Também eles têm muito a aprender com o que se está a passar no cantinho mais ocidental da Europa.


Quem é o dono do meu corpo?

Todos conhecemos a história do rei que ia nu. Todos assim o viam e ninguém o comentava até que a inocente criança deixou todos em suspenso ao verbalizar o que todos sabiam.
O que se passou com a bastonária da Ordem dos Enfermeiros lembra inevitavelmente essa história: ela traduziu em palavras o que há muito se sabe pelas mais variadas formas, mas permanece hipocritamente silenciado.
E, pela segunda vez em poucos dias, lá vieram as virgens ofendidas defender a sua honra supostamente posta em causa, depois de, pelo mesmo processo inquisitorial, quase se ter pedido o fogo da Inquisição para os responsáveis pelo cartaz do Bloco de Esquerda sobre a paternidade modernaça de Jesus.
Mal vai a esquerda, quando se deixa intimidar pela verborreia acintosa da direita. Nesse sentido Alfredo Barroso, que foi um dos poucos a levantar a voz em defesa do direito à liberdade de expressão, colocou a questão nos seus devidos termos. É que, em vez de se deixar acobardar a esquerda tem de ripostar com igual ou ainda maior determinação: porque é que os católicos se ofenderão com um cartaz, que traduz a veracidade bíblica? Será que a ofensa é da generalidade dos crentes dessa religião ou eles estão a ser manipulados pela Conferência Episcopal e por alguns deputados do CDS para se sentirem ofendidos?
Da mesma maneira, quando é que se acaba com a mistificação de serem os cuidados paliativos a solução miraculosa para que se justifique prolongar o sofrimento de alguém?  Seremos surdos aos ais desesperados dos que, nos quartos dos hospitais, sofrem dolorosamente e só imploram por quem lhes alivie de vez essa tortura? Será que as famílias deverão estar condenadas a verem a deterioração progressiva dos que amam sem nada poderem fazer?
A direita e os interesses corporativos da medicina privada estão interessados em prolongar ao máximo a precária sobrevivência dos doentes terminais: interiorizaram a tal ponto a defesa da Saúde como um negócio, onde imposta obter tanto lucro quanto possível, que a obrigatoriedade desses cuidados paliativos surge como uma parcela não negligenciável dos seus rendimentos.
Se eu me vir acometido de uma doença incurável, que implique um fim de vida marcado pelo sofrimento e pela degradação física, que direito tem a sociedade em privar-me do direito a uma morte assistida? Quem dá a outrem a decisão sobre se devo viver ou se devo morrer’ Quem é afinal o dono do meu próprio corpo?
Compreende-se o sururu causado pelas palavras da bastonária dos Enfermeiros: é que os defensores do statu quo sabem perdida de antemão a guerra em que se meteram, mas mostram-se dispostos a vender cara a derrota em cada batalha. Por isso viram nas declarações dela a oportunidade para travarem um processo, que seguirá o seu curso natural com um ou outro abrandamento momentâneo.