segunda-feira, 12 de maio de 2014

IDEIAS: Cantar ou retomar a fala (II)

Pode o ato de cantar converter-se em assunto filosófico? O ensaio de Vincent Delecroix - «Chanter» - publicado na Flammmarion, tende a confirmá-lo.
Como víramos no texto anterior, no início os homens  comunicavam com uma mistura indistinta de palavras faladas e cantadas. Só gradualmente é que o canto e a fala se autonomizaram para os propósitos, que lhes foram sendo associados e que tinham a ver com a caracterização do que viam de acordo com uma perspetiva mítica ou mais racional.
Mas, na sua vontade de apreender a essência do mundo e de lhe clarificar as contradições, a filosofia nuca prescindiu da injunção mitológica enquanto preciosa ferramenta do conhecimento.
O personagem mitológico seria compreendido na sua relação com a alteridade, representando o desejo, que tanto ameaçaria quem o quisesse usufruir sem  os limites impostos pela sociabilidade.
O personagem mitológico deixaria de exprimir a voz de uma pessoa concreta, mas de um imaginário coletivo a contas com a angústia quanto ao seu devir.
Ulisses tornar-se-ia no primeiro homem moderno ao deixar-se prender ao mastro do navio para se deleitar com o canto das sereias, mas sem se lhes submeter, seguindo adiante com o seu navio. Nesse dia o homem passou a sobrepor a visão mítica do que via à força argumentativa da própria realidade.
Mas o canto continuaria a existir como fruição do que era tido como belo e para a efabulação dos mitos também eles entendidos como objetos de pedagogia ou de mera diversão. A exemplo da música, o canto contribuiria graças à dopamina para o reforço das emoções ao apelar para a expectativa quanto à nota ou harmonia seguinte, para a surpresa e a antecipação.
Temos assim a música e o canto como criadores de emoções tão básicas quanto o são a satisfação ou a frustração.
Mas, como entender então o caso de Castafiore, a divertida personagem criada por Hergé no seu álbum «As Sete Bolas de Cristal», que é uma das poucas representações femininas a aparecerem nas aventuras de Tintim? Muitas vezes ela aparece sem aparecer nas vinhetas, já que só surgem os efeitos das suas singulares interpretações operáticas através de símbolos musicais. distorcidos Um pouco como se fosse deus, lembrando como em relação a Callas ou a outras grandes cantoras de ópera se aplicou facilmente o adjetivo de «divinas».
Duas constatações podem ser feitas a propósito da Castafiore e da vinheta que sobre ela inserimos:
· canta horrivelmente mal, mas os espectadores acotovelam-se para presenciar os seus concertos;
· a equívoca utilização da palavra «formidable», que em francês tanto pode significar magnífica, como aterrorizadora;
A Castafiore constitui, pois, um contra-mito comparativamente com o canto das sereias, que abordámos no texto anterior.
Como compreender o sucesso de Castafiore sobre quem todos parecem obrigar-se a elogiar?
Explica-se no facto de o canto possuir uma espécie de polaridade: ora é sublime e sedutor, ora revela-se intragável mas beneficia do facto de a Ópera possuir um valor social.  Pode-se não gostar do que lá se vê ou ouve, mas ser-se ali visto ou ouvido confirma um estatuto de integração numa classe, que importa expor.
Às vezes dá para nos espantarmos com a seriedade, a importância, que passámos a conferir a uma atividade a princípio considerada como um entretenimento, uma diversão.
Os melómanos mais entusiastas associam o canto a uma espécie de voz interior pura em contraponto com uma voz exterior, que procura equiparar-se-lhe. Hoje deixamo-nos seduzir pela especificidade, pela alteridade de uma voz, que não precisa de ser “perfeita”. Era o que sucedia com os castratis, dos quais é justo realçar Farinelli como um dos mais conhecidos, até pelo papel que o excelente filme de Gérard Corbiau teve na sua divulgação.
A sua voz era sublime e produzia nas mulheres um efeito sexual perturbador. Mas ele personificava a intenção de se criar um Monstro só para cumprir objetivos estéticos. Como se se quisesse transformar o homem num mero instrumento.
Farinelli constituía um paradoxo, porque considerava-se que a voz pura seria dessexualizada e o resultado era manifestamente o contrário. Mas, ao mesmo tempo ninguém estranhava que, na época, interpretasse papéis viris como sucedia com Aquiles ou outros heróis míticos.
Que importava tal incongruência se, até há pouco tempo, era perfeitamente natural encontrar sopranos obesas a interpretarem papéis de jovens românticas e casadoiras?
O canto acaba por ser a expressão da nossa mortalidade ou não seja ele produzido pela expiração. Ora não se associa o momento da morte ao último sopro do que ainda vivia?
(texto baseado no ensaio «Chanter» de Vincent Delecroix), ed. Flammarion)



DOCUMENTÁRIO: «24 horas em 1913» de Sylvain Bergère e Benoit Gautier

Este é o ano em que estamos a comemorar o centésimo aniversário do início da I Guerra Mundial, pelo que têm surgido documentários a abordar esse tema das múltiplas formas possíveis. Uma delas é a de olharmos para o que era o quotidiano e a arte de viver nos anos imediatamente anteriores a esse acontecimento e que possam ser considerados como modelos sacrificados pelos efeitos do conflito.
Vivia-se então a Belle Époque e a paixão pelo estilo. Cidades como Paris abrem-se para o comércio e para o consumo de que os grandes armazéns acabam por ser o símbolo anunciador.
Inventa-se o turismo com os locais de férias a tornarem-se acessíveis por comboio, por navio ou, sobretudo, através do automóvel.
Aparecem os produtos de beleza criados por uma nova indústria em expansão e novas marcas (L’Oréal, Guerlain, Nivea) internacionalizam-se a par com a alta costura, que é divulgada pela publicidade, pelo teatro, pela literatura, pelo cinema, pela pintura…
Ninguém suspeita da iminência do desastre.
O documentário recorre a filmes amadores, atualidades, fotografias, documentos e tesouros de arquivo para ilustrar a extraordinária inventividade desses primeiros anos da segunda década do século XX.



TEATRO: mais uma proposta imperdível, a do Teatro Elétrico com «Menos Emergências» no Meridional

Anteontem manifestava aqui o meu entusiasmo pela peça em cena no Teatro do Bairro, intitulada «Depois da Revolução», e já outra se me revela com o mesmo padrão de qualidade e de capacidade para surpreender.
«Menos Emergências», o novo projeto de Ricardo Neves-Neves com o Teatro Elétrico, em exibição nas instalações do Meridional até ao próximo domingo, dia 18, confirma o que temos constatado nos últimos anos: num país onde o governo se demite do seu papel de fomentador da criatividade dos seus artistas, estão a surgir novos atores e encenadores cujo talento e inventividade nos andam sucessivamente a surpreender.
As três peças de Martin Crisp aqui mostradas dão-nos a classe burguesa no seu esplendor, a comentar a vida alheia através do recurso abundante aos lugares comuns. Mas o que pareceria ser uma sucessão de diálogos de chacha, depressa se converte numa inesperada sucessão de revelações com o seu quê de surreais, mas em que se mantém as entoações com que são proferidas. Há algo da provocação Dada no que aqui vemos interpretado.
Temos pois comentários sobre um casal desavindo, em que a mulher depressa se terá arrependido do compromisso conjugal e decide sair de casa, mas acaba por não o fazer, porque - questionam os que dialogam sobre ela -, por que haveria ela de o fazer?
Há depois a história do psicopata, que assassina um numeroso rol de vítimas, algumas das quais crianças, mas que nada no seu passado poderia explicar o seu gesto. Porque tivera uma educação excelente, uma vida excelente, uma família excelente, e assim por diante.
E há a história final, que quase parece talhada para o nosso presente. Onde se diz convictamente que “as coisas estão a melhorar”, como se se precisasse de dizê-lo para acreditá-lo. E logo temos quem corrobora e exemplifica: “a luz está mais brilhante”. E temos então a história de um casal que tem um iate, e navega nele até ao oceano, quase se chegando à orla. E lá temos os personagens a questionarem-se sobre o que haverá para lá dela, nessa orla muito parecida com a «saída limpa» da troika. Nada, concluem!
Estas histórias, aparentemente anódinas, dizem muito mais sobre todos nós do que a ligeireza de tom com que são interpretadas, pressupõe. É que somos muito facilmente embalados pela musicalidade desses diálogos feitos tantas vezes de clichés, mas que nos levam até revelações sobre o que ali se passa à nossa frente, que nos põe atónitos a perguntar se ouvimos bem quanto foi dito: então o Bobby ouve vozes na cabeça? Então foram quatro as crianças assassinadas pelo psicopata? Então o Bobby (será o mesmo?) não atende o telefonema dos pais, porque só se movimenta arrastando-se escada acima?
Aos dez atores em cena acrescenta-se a orquestra e um coro com dezenas de vozes, que transformam o espetáculo numa espécie de superprodução feita decerto com muito empenho por gente jovem, que não baixa os braços e continua a dar luta às contingências criadas por um poder inculto e incompetente.
Os espectadores vão fazendo os possíveis por apoiar esse admirável esforço: a exemplo do que víramos no Teatro do Bairro, também o Meridional estava cheio durante as representações deste fim-d-semana!



domingo, 11 de maio de 2014

POLÍTICA: ter uma Visão própria ou reagir à do (des)governo?

No «Eixo do Mal» o Daniel Oliveira emitiu uma excelente pista para explicar a razão, porque o Partido Socialista liderado por António José Seguro não consegue entusiasmar os seus potenciais apoiantes mesmo que as sondagens o tendam a aproximar da maioria absoluta em 2015, uma possibilidade não tão improvável quanto alguns querem fazer crer.
Segundo o colunista do «Expresso» o líder socialista não tem uma visão própria para o futuro do país limitando-se a ir reagindo aos “sucessos” e dissabores do governo, caindo por isso nas emboscadas, que os spin doctors do PSD e do CDS não deixam de ir armadilhando com a conivência tácita do inquilino de Belém.
E, de facto, essa é uma das duas grandes diferenças entre o Partido Socialista de hoje e o da liderança anterior: em 2005, quando foi consagrado primeiro-ministro com a maioria absoluta, José Sócrates sabia bem ao que ia. Tinha o projeto de criar um país mais moderno e desenvolvido, que obrigava a apostas sérias no investimento na Educação (os Magalhães e o inglês desde o ensino primário), na Requalificação dos Recursos Humanos (Novas Oportunidades), na Investigação Científica, nas Energias Renováveis e na Reforma Administrativa (o Simplex). Nas exportações havia que procurar novos mercados para além dos que tradicionalmente as orientavam para os países da União Europeia e por isso não hesitava em promover o relacionamento com a Venezuela de Chavez ou com a Líbia de Kadhafi. E poderíamos prosseguir uma exaustiva descrição de tudo quanto de bom se estava a promover para que o país deixasse a imagem salazarenta do «pobres mas honrados», mas o texto ganharia então uma dimensão, que não se justifica para salientar o essencial: ao contrário do seu antecessor, desconhece-se o que António José Seguro quer para o país.
Como socialista - e sei que esta sensação é partilhada por muitos, mas mesmo muitos militantes de quotas em dia! - preferira que António José Seguro tivesse sido um defensor inabalável da herança anterior o que o colocaria agora na mais convincente posição de propor a retoma do projeto entretanto quase destruído pela política de terra queimada da atual coligação. Só teria tido, então, de demonstrar aquilo que é uma evidência cada vez mais óbvia para a maioria dos portugueses com dois dedos de testa: que a crise de 2009 nada teve a ver com o “despesismo” ou com excessivo investimento público, mas com os mesmos fatores externos, que agora são tão aleatórios a propiciar juros baixos quanto então os levavam a valores super especulativos (muito embora essa suposta aleatoriedade possa ser contornada pela lógica da fuga ou não de capitais para os tais países emergentes) .
Mas a outra grande diferença de Sócrates para António José Seguro reside em quem os secundava ou secunda. Enquanto o anterior primeiro-ministro tinha consigo gente de grande qualidade intelectual e irrepreensível competência técnica, que raramente cometeu trapalhadas como as deste (des)governo, é com preocupação que se encara a possibilidade de alguns dos atuais porta-vozes do Largo do Rato chegarem a  ministros ou a secretários de Estado.
Que serão bem melhores do que os de passos coelho ou de paulo portas não tenhamos dúvidas. Mas não nos podemos contentar com padrões tão rasteiros quantos os deixados por cratos, cristas e companhia. Porque, depois do cataclismo que tem destruído a economia nacional, a construção torna-se muito mais difícil e exigente do que a perspetivada por José Sócrates, quando teve de remover os escombros deixados por durão barroso e santana lopes.
Torna-se, pois, desejável que o PS venha a ter maioria absoluta em 2015, mas convirá que Seguro saiba congregar em torno de si os melhores. E, como se viu na lista para as europeias, se isso foi visível nos primeiros sete ou oito candidatos, tornou-se muito mais questionável para os que se lhes seguiram...


sábado, 10 de maio de 2014

POLÍTICA: Os números que desmentem a propaganda

Não é difícil encontrar na rua ou nas redes sociais quem emita a possibilidade de, apesar de tudo quanto tem feito nestes três anos - mais apropriadamente dever-se-ia dizer “desfeito” do muito que de positivo lhe deixara o governo de José Sócrates - passos coelho vir a ganhar, se não as eleições europeias de 25 de maio, pelo menos as legislativas de setembro do próximo ano.
Até a cada vez mais irritante Clara Ferreira Alves (cuja sanha ao Partido Socialista começa a parecer um caso patológico) não passa uma semana sem perspetivar essa hipótese no canal Q ou no “Eixo do Mal”.
E, no entanto, a realidade dos números vai-se sobrepondo à forma como vão sendo objeto de manipulação propagandística por parte dos altifalantes do poder.
Começando pelo caso emblemático do desemprego que teria descido para os 15,1% no primeiro trimestre de 2014 de acordo com os números do INE. Ora, de facto, aquele organismo registou uma diminuição do número de desempregados para 788,1 mil indivíduos, mas outros e elucidativos dados apresentados no mesmo estudo bastam para arrasar a propaganda do governo:
· a redução de 61,8 mil pessoas na população ativa;
· a redução de 42 mil pessoas com trabalho;
· o total de 313,9 mil pessoas inativas, que desistiram de procurar trabalho, apesar de o não terem, e terem deixado de contar para a estatística
Mas, além de enfrentarem uma elevada taxa de desemprego e de precarização dos seus postos de trabalho, os portugueses também estão assoberbados de impostos. Eis os números que comprometem o foguetório governamental:
· até Março entraram para os cofres do Estado mais 366,8 milhões de euros de receita de impostos do que no mesmo período do ano passado. 294,8 milhões vieram do IRS.
· no primeiro trimestre, a receita desse imposto totalizou 3298 milhões de euros (mais 9,8% em termos homólogos), aproximando-se do valor obtido com o IVA (3596 milhões de euros), que se mantém como o imposto onde o Estado vai buscar mais receita.
E, que dizer do silêncio sobre o “êxito” das exportações no 1º trimestre deste ano, que apenas cresceram 1,7% em comparação com o de 6% para as importações, num agravamento significativo da balança comercial do país, onde as vendas internacionais só passaram a cobrir 81,9% daquilo que o país compra ao estrangeiro.
Quem é que ouviu algum ministro ou comentador a soldo do governo voltar ao tema do “milagre económico” relacionado com tais exportações?
Sobram, pois, as razões para algum otimismo quanto à inevitável condenação eleitoral de passos coelho e de paulo portas. É que é possível enganar muitos, durante algum tempo. Mas, qual azeite, a verdade vem sempre o de cima. E com números destes, decerto que tal se verificará...


POLÍTICA: Ainda há quem não saiba se vai ou em quem votar?

A duas semanas das eleições europeias soam a estranho as dúvidas verbalizadas por muitos quanto a irem ou não votar e, caso a tal se disponham, em quem deverão confiar o seu voto. Chegando a pôr a hipótese de anularem o boletim ou deixarem-no em branco.
E, no entanto, ouvindo-os dá para perceber o quanto estão insatisfeitos, ou mesmo indignados, com o quanto a vida dos portugueses tem sido massacrada por três anos de desgovernação da coligação de direita.
Daí o meu espanto: se estão assim tão insatisfeitos ou indignados não será normal, que o manifestem através do seu voto? Por muito que se desgostem com António José Seguro, com Jerónimo de Sousa ou com a dupla Catarina Martins / João Semedo, não os considerarão muito menos nocivos do que passos coelho ou paulo portas?
É verdade que não ando particularmente entusiasmado com a liderança do meu partido, na qual não votei, mas posso-me dar ao luxo de me deixar levar pelos humores servindo de idiota útil aos que ganhariam com a minha abstenção ou voto inutilizado?
No dia 25 de maio temos a oportunidade de começarmos a ajustar as contas com quem tanto mal nos tem feito! E derrota-los nas urnas deverá ser a primeira fase de uma luta bem mais difícil, que será a de ajudarmos a reconstruir o que eles se limitaram a destruir!


TEATRO: “Depois da Revolução» no Teatro do Bairro

Eu vi este povo a lutar para a sua exploração acabar! Foi há quarenta anos, nos meses que se seguiram à madrugada do tal dia inicial inteiro e limpo, que prometia todas as ilusões!
Nesse distante verão de 74 pudemos ver no Villaret uma celebração do clima de esperança de então, que tinha o nome de «Liberdade, Liberdade» e era interpretado pela Maria do Céu Guerra, pelo Luís Lima, pelo João Perry, pelo Carlos Carvalheiro e por um conjunto de músicos entre os quais avultava o Júlio Pereira. Dos seus muitos temas musicais sobressaía o Coro da Primavera do Zeca Afonso que, quando chegava ao refrão (Ergue-te ó Sol de Verão/ Somos nós os teus cantores/ Da matinal canção/ Ouvem-se já os rumores/ Ouvem-se já os clamores/ Ouvem-se já os tambores) parecia acrescentar ainda maior vontade à ânsia de querermos um mundo novo a sério.
Reencontrámos o mesmo tema em «Depois da Revolução», a excelente peça criada por Luísa Costa Gomes, Bragança Gil e António Pires, que ainda pode (e deve) ser vista até dia 18 no Teatro do Bairro. E ele surge exatamente a sugerir o mesmo, quando os atores se abeiram dos espetadores para melhor lhes incutir o rompimento com esta abulia em que andamos mergulhados e cumpramos a terceira lei de Newton: uma ação de força equivalente à reação com que o atual poder tem destruído os direitos constitucionais de que nos julgávamos perenes detentores.
«Depois da Revolução» é a peça que melhor celebra o 40º aniversário do 25 de abril, ao contar com duas dezenas de atores e instrumentistas para, mediante canções, extratos de discursos e coreografias, transmitirem a ambiência dos períodos de medo, quando imperava a tirania, e da exaltação das esperanças após o seu derrube. Por isso mesmo, embora sejam convocados protagonistas do pós-25 de abril (pinheiro de azevedo, Vasco Gonçalves), também aparece o senhor Guillotin por causa da sua proposta igualitária para a administração da “justiça” ou a inefável jonet dos nossos dias.
E uma das abordagens curiosas sobre a forma como a festa virou desilusão é a da influência do maoísmo nas hostes da extrema-esquerda. Para além da representação impressiva do seu folclore de então - a lembrar filmes do tipo «Destacamento Vermelho Feminino» -  transmite-se explicitamente a ideia do comprometimento dessa forma de fazer política com o sucesso da direita, que viria a integrar depois muitos dos principais militantes da aparente ideia de uma revolução a todo o vapor. Olhando hoje para gente como helena matos, josé manuel fernandes, agostinho branquinho ou, o mais lapidar de todos, durão barroso, somos obrigados a reconhecer algum sentido em quem, nesses idos de 74 e 75, associava os movimentos de extrema-esquerda, e o MRPP em particular, a manobras facilitadas e financiadas pela CIA.
E, no entanto, eu pecador me confesso: também  acreditei na mistificação, que foi a Grande Revolução Cultural, e me fiz prosélito da sua aplicação à realidade portuguesa. Ainda assim o erro, justificado pela imaturidade do teenager que ainda era, não me afastou do marxismo e do seu objetivo final: o de uma sociedade mais justa e igualitária, sem esta obscena diferença de qualidade de vida entre a exígua elite e a grande maioria dos demais cidadãos. E, por isso mesmo, só posso lamentar o divisionismo, que ainda hoje impede a esquerda de se unir em torno do máximo denominador comum entre todas as suas expectativas políticas e sociais, para que se ponha ponto final nesta odiosa realidade em que vemos tanta gente a sofrer.
«Depois da Revolução» emite essa mesma vontade de ver ultrapassados os divisionismos, mas confronta-nos com a responsabilidade em consegui-lo: porque somos nós quem deve pegar na “canção” e fazermo-nos intérpretes da sua imposição sobre todas as outras.
Podemos concluir que se «Liberdade, Liberdade» era a celebração de uma vitória, que se revelaria efémera, «Depois da Revolução» pode ser vista como o apelo a voltar a fazer dela o nosso objetivo!


POLÍTICA: as perguntas de João Galamba a uma marilú pespineta

BANDA SONORA: A "Barcarolle" de Offenbach por Anna Netrebko e Elina Garanca

sexta-feira, 9 de maio de 2014

IDEIAS: Cantar ou retomar a fala (I)

Vladimir Jankélévitch diz que quem fala sozinho arrisca-se a passar por louco, mas o que canta só para si - como se fosse um pássaro, sem se dirigir a ninguém em especial! - é tido como alegre e simpático. O que não deixa de ser estranho já que o canto é mais impúdico do que a palavra falada.
De facto, está tacitamente aceite que a fala é destinada à comunicação já que se aceita a natureza puramente expressiva do canto, sempre ligado a um sentimento de se ser. Por outras palavras, enquanto comunicamos verbalmente com outrem, temos as autodefesas necessárias para lhe esconder algo que não lhe queremos revelar, enquanto, ao cantar, estamos a exprimir-nos a nós próprios  como se se tratasse da primeira tonalidade da nossa existência.
E de facto o canto constitui um dos mitos mais antigos da civilização ocidental como se depreende do exemplo que se segue: na «Odisseia» de Homero o canto surge como parábola, como metáfora, quando Ulisses faz com que os seus marinheiros fiquem ensurdecidos com cera do mel das abelhas a tapar-lhes os ouvidos e ordena que o prendam ao mastro do seu navio para conseguir ouvir, e ao mesmo tempo resistir, ao canto das sereias.
Será, pois, uma estratégia sem perigo, porque ele conhece a sorte destinada aos que não conseguem resistir a precipitarem-se para os braços dessas sereias: encontram inevitavelmente a morte.
Ulisses consegue, assim, neutralizar o poder de sedução do canto e torna-se no primeiro melómano. Preso ao mastro do navio, ele está como se sentasse na plateia de uma sala de concertos a ouvir uma orquestra. Mas essa cena também estabelece a distinção entre os remadores, que estão a trabalhar, e Ulisses, o único beneficiário do seu prazer musical. Uma situação, que mereceu de dois filósofos alemães - Theodor W. Adorno e Max Horkheimer - um estudo assaz interessante (“Ulisses ou Mito e Razão”) - ao identificarem essa contradição entre o Senhor, que goza os seus prazeres sem risco, enquanto os outros, os remadores, continuam presos às suas correntes sem qualquer compensação.
O navio, que se irá pouco a pouco afastando desse perigoso local, é uma representação da racionalidade a afastar-se gradualmente do mito. Como se a Razão precisasse de cotejar o mito, como forma de o superar.
Ulisses será, então, o primeiro homem moderno, ao dissociar-se do pensamento mítico (que era cantado) para avançar no sentido do progresso. O avanço do navio simbolizará o seu direcionamento para esse futuro racional ainda que à custa do trabalho árduo dos seus remadores.
A Razão, ainda assim, é vista como um desencantamento, uma saída do universo mágico em que o canto das sereias corresponde a uma espécie de língua primitiva, original. A História e a Cultura têm um papel fundamental nesse desencantamento em relação a algo de fantástico.
Jean Jacques Rousseau já propusera que o canto esteve ligado ás origens da Humanidade e que tudo quanto ocorrera desde então mais não fizera do que corromper a inocência absoluta desse passado mitificado, desnaturalizando-o. O canto teria, assim, degenerado em fala fazendo o ruído ascender à harmonia.
Se se tratava de uma linguagem perfeita, o canto foi substituído por uma oralidade falada cada vez mais complexa. A progressiva aquisição das palavras torna-se num adeus permanente ao canto.
(Texto baseado no livro «Chanter ou reprendre la parole» de Vincent Delecroix, ed. Flammarion)


BANDA SONORA: «Sangue Bom» de João Afonso

Um dos albuns de audição obrigatória, acabado de lançar. A música de João Afonso para as palavras de Mia Couto e José Eduardo Agualusa.

FILME: «Vida Ativa» de Susana Nobre

A estreia do filme de Susana Nobre no City Alvalade vem recuperar a memória de uma das mais emblemáticas medidas implementadas na Educação pelo governo de José Sócrates e que a atual coligação destruiu totalmente de acordo com a sua estratégia de só deixar no seu rasto a terra queimada.
Muito embora a realizadora não seja tão objetiva quanto a verdade dos factos mereceria - existe uma notória vontade em se dar bem com o Diabo e com o Bom Deus - o filme é suficientemente explicito na demonstração de duas das maiores qualidades inerentes a um programa, que sempre mereceu de crato um ódio de estimação: o estímulo dado a homens e mulheres há muito afastados dos bancos das escolas para acrescentarem conhecimentos e competências àqueles que muitos anos de trabalho já tinham garantido, com notórios benefícios na sua ambição e autoestima. E a vontade explicita do então poder político para não ostracizar do mercado do trabalho nenhum cidadão, criando-lhe as condições para se adaptar a novos requisitos de integração profissional.
Como sucedeu com todas as inovações implementadas pelos governos de Sócrates, a direita agitou-se nos jornais, nas televisões e nas redes sociais para sabotar o seu sucesso, acusando-o falsamente de facilitismo e de ineficácia.
Pode-se dizer que o programa das Novas Oportunidades foi o exato oposto do «ensino de excelência» tão admirado por durão barroso e certamente que, embora o não confessando, por crato. E as consequências estão aí: milhares de cidadãos já tão desesperançados quanto a encontrarem lugar no mercado de trabalho, que já desistiram de o procurar, e uma rápida quebra nos níveis de competências e conhecimentos, que se chegaram a perspetivar como imprescindíveis para um país mais moderno e desenvolvido.
O interesse do filme de Susana Nobre reside nessa abismo de realidades: uma que era esperançosa e otimista graças ao governo anterior e outra, deprimentemente dramática, causada por quem, infelizmente, lhe sucedeu.