domingo, 26 de julho de 2026

O Banho de Realidade

 


O Público cita um dado que vale toda uma análise geopolítica: sessenta por cento dos norte-americanos têm agora opinião desfavorável de Israel e apenas trinta e sete por cento a mantêm positiva. Em 2022 era ao contrário — cinquenta e cinco por cento de opinião favorável, quarenta e dois de negativa. Uma inversão de quase vinte pontos em quatro anos, medida pelo Pew Research Center. A percentagem dos que veem Israel de forma "muito desfavorável" triplicou no mesmo período.

O número não caiu do céu. Traduz dois processos que convém ler em conjunto.

O primeiro é interno e atinge o próprio eleitorado de Trump. O homem que prometeu tirar a América das guerras alheias meteu-a numa nova — a campanha militar contra o Irão, lançada em fevereiro ao lado de Israel. Boa parte do eleitorado MAGA votou nele precisamente para o contrário: para não ver os Estados Unidos a enterrar-se noutro pântano do Médio Oriente. O banho de realidade foi duplo. Viram a qualidade de vida piorar, os preços dos combustíveis dispararem — a principal preocupação dos americanos durante a guerra, segundo o mesmo Pew —, e viram-se traídos na única promessa que lhes importava: a de ficar em casa. Os corpos de soldados que regressam agora discretamente, sem honras nem câmaras, vão dando o sinal fúnebre dessa traição. Nada corrói mais depressa a fé de um eleitorado nacionalista do que caixões que ninguém quer mostrar.

O segundo processo é global e mais profundo. O isolamento de Israel deixou de ser causa de minorias militantes para se tornar sentimento maioritário. Não apenas nos Estados Unidos: numa sondagem do Pew em trinta e seis países, a opinião desfavorável atinge uma mediana de sessenta e sete por cento. A tese do genocídio em Gaza, que há dois anos era denunciada como exagero de ativistas, consolida-se hoje no discurso de organizações internacionais, de tribunais, de governos. A causa palestiniana ganha apoiantes onde antes só encontrava indiferença. Entre os democratas americanos, oitenta por cento veem Israel desfavoravelmente. Entre os jovens de ambos os partidos, a maioria condena Netanyahu.

É uma mudança de época. Durante décadas, criticar Israel nos Estados Unidos era suicídio político e o lobby pró-israelita ditava os limites do dizível. Esses limites ruíram. A juventude não os reconhece, e a juventude é o futuro do eleitorado.

Israel, por seu lado, parece não se importar — os seus dirigentes repetem que os de fora não podem compreender. É a arrogância do costume, a mesma que confunde impunidade com força. Mas a história mostra que o pária que despreza a opinião do mundo apenas adia o momento em que a conta chega. E chega sempre.

O banho de realidade tem esta virtude: é frio, é desconfortável, mas acorda. Uma parte da América começa a acordar. O mundo, esse, já está de olhos bem abertos — e o que vê em Gaza não o deixará voltar a adormecer tão cedo.

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