terça-feira, 6 de setembro de 2022

Zombies, criminosos de guerra e oportunistas

 

1. O pacote aprovado pelo governo para apoiar as famílias na resposta à inflação custa 2,4 mil milhões de euros aos cofres do Estado, mas é patética a reação do principal partido da oposição - oportunidade para ressurgir da sombra mais um dos zombies  do passismo com expressão particularmente carrancuda! - que veio maldizer medidas financeiramente muito mais significativas do que os pífios mil milhões, que o ululante líder anunciara no Pontal.

É um pacote, que sabe a pouco? Claro que sim! Nem que custasse dez vezes mais não faltariam censuras a quem, durante quatro anos, nada mais terá a fazer que não seja dizer mal de tudo e mais alguma coisa.

É verdade que não se assegura a reposição dos rendimentos, mas tem a prudência de não pôr em causa a dívida pública. E, relativamente, ao suposto truque imposto aos pensionistas, duvido que haja quem neles preferisse o pássaro engordado em janeiro de 2024 àquele que, mais enfezado, lhes aterra na mão já no próximo mês.

2. Houve quem criticasse as palavras de António Costa a respeito de Wariamu como se o massacre da população não tivesse aí ocorrido ou melhor seria não lembrá-lo.

É uma chatice: por muito que os que fizeram parte do exército colonial se incomodem, o colonialismo fê-los de facto, cúmplices de muitos crimes. E, tendo em conta que os cometidos contra a Humanidade nunca prescrevem, mais sentido faria levar perante a Justiça os que os cometeram e prosseguiram as suas vidas como se nada de mal tivessem feito.

3. Enquanto o governo israelita aprova mais colonatos em Jerusalém, vemos o Estado português acusado de antissemitismo pela Comunidade Sefardita do Porto, que encontrou, numa lei parva dinamizada por Maria de Belém, a forma mais expedita de comercializar a naturalização de muita gente mais do que suspeita como cidadãos de portugueses.

Antissemitismo? É triste, mas fica a constatação: as vítimas do Holocausto não mereceriam descendentes que, na antiga Palestina ou, agora, entre nós, se comportam como vamos sabendo!

4. Sobre a nova primeira-ministra britânica vale a pena recordar a frase de Groucho Marx de que parece particular seguidora: “Estes são os meus princípios. Se não gostarem tenho outros”. De facto, querer imitar Thatcher depois de ter nascido numa família à esquerda dos Trabalhistas, defendido a legalização das drogas, proposto o fim da monarquia e primeiro contestando o Brexit, depois defendendo-o com unhas e dentes, é obra! 

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

O que a direita faz para justificar alianças com o Chega!

 

Começa hoje a Festa do Avante, que é acontecimento cultural muito mais relevante que qualquer um desses festivais, que por aí pululam para encherem os bolsos do genro de Cavaco Silva e de um dos herdeiros da família dona do Coliseu de Lisboa, mas merecerá destaque mediático nada comparável com eles, que tiveram equipas de reportagem a promoverem-nos em todos os telejornais, e sobretudo às marcas, que os utilizam como suporte publicitário. O que justifica a questão de saber que mérito maior terão empresas de telecomunicações ou marcas de cerveja para se verem mais promovidas na (des)informação televisiva do que um partido com mais de cem anos de História e um papel tão determinante no combate à ditadura salazarista-marcelista enquanto ela durou?

É claro que o comunista arrependido, que lançou uma fatwa contra quem nela atuasse, deverá ficar possesso com o não tê-la impedido mas, desde Zita Seabra, Chico da Cuf ou Cândida Ventura, sabemos não existirem anticomunistas mais devotos do que aqueles que, em tempos, terão empunhado a bandeira vermelha com o mesmo fervor fanatizado.

Militando noutro partido tenho em relação ao PCP um distanciamento próximo do de Daniel Oliveira, que assina uma crónica muito interessante sobre a estratégia em curso para criar uma equiparação entre o PCP e o Chega e justificar aquilo que a direita ainda não conseguiu inculcar no eleitorado, como se viu nas mais recentes eleições legislativas: se foi possível um governo do PS com o apoio do partido liderado por Jerónimo de Sousa, também faria sentido um do PSD suportado em André Ventura.

Daí o interesse em mentir sobre a posição do PCP relativamente a Putin, que dele não mereceu qualquer apoio quanto à invasão da Ucrânia. E atirá-lo para as margens de uma extrema-esquerda como se o seu respeito pela Democracia, a aversão ao racismo e à xenofobia pudessem ter algum paralelo com a do Chega no outro lado do espectro político.

Manifestamente, como socialista, não enjeito o regresso de uma convergência entre as várias esquerdas, enquanto a das direitas comporta o tenebroso cheiro do fétido fascismo.

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Don’t cry for me

 

A coincidência de duas mortes em simultâneo - a física de Gorbatchov e a política de Marta Temido - demonstra que, perante situações que justificam a pertinência da Lei de Murphy, é difícil encontrar quem esteja à altura das circunstâncias.

O último presidente da época soviética fez um diagnóstico pessimista em relação ao futuro do regime, acreditou em terceiras vias embalado pelos cantos de sereia capitalistas e abriu uma caixa de Pandora, que nunca mais conseguiu, ou quis, fechar. O resultado foi a alavancagem do capitalismo selvagem, que tantos danos causou nestes últimos trinta anos em que os trabalhadores ocidentais perderam junto dos patrões o efeito dissuasor de uma potencial alternativa capaz de os pôr em causa. A precariedade no emprego, a aposta nos baixos salários, a desindustrialização e outras malfeitorias praticadas sobre quem ficou ainda mais acantonado na parte inferior da pirâmide social, são heranças de um suposto (e falacioso) fim da História anunciado pela queda do muro de Berlim, que teve ainda por efeito a imposição de um estado comatoso a quase toda a esquerda europeia, ainda incapaz de dele emergir com o ímpeto de uma renascida fénix.

A ex-candidata a integrar o lote de sucessores de António Costa à frente do Partido Socialista, não conseguiu resistir por mais tempo a uma situação semelhante à de um enfezado guarda-redes numa enorme baliza e para a qual diversos rematadores atiravam várias bolas ao mesmo tempo. Daí ter aproveitado um fait divers, pelo qual não lhe poderia ser assacada qualquer culpa, para se pôr a milhas. Para trás deixou patente a incapacidade em levar a sério as propostas subscritas por António Arnaut e João Semedo para suster os sucessivos ataques que os grupos privados há muito direcionavam contra o Serviço Nacional de Saúde. Perante os demolidores ataques das Ordens e dos Sindicatos dos médicos e enfermeiros - quase todos enfeudados aos interesses dos defensores do lema quem quer saúde paga-a - Marta Temido estava há muito condenada. Sobretudo, porque as reconhecidas capacidades, com que chegara ao governo enquanto independente, não puderam omitir as fragilidades emocionais perante tão pérfidos e contínuos ataques.

Agora, quer na Rússia, entregue a um autocrata capitalista, quer no Ministério da Saúde onde tanto haverá a reconstruir, anseiam-se por rostos novos, capazes de trazerem soluções que, nem Gorbatchov, nem Marta Temido conseguiram implementar. 

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

Umbigos inchados, miopias singulares e desesperadas mentiras

 

1. Ao contrário de outros partidos neofascistas europeus, que conseguiram ganhar suficiente importância para serem temidos pelo potencial em chegarem ao poder, o Chega de André Ventura arrisca-se a não sair do registo de ópera bufa em que tem-se notabilizado. Perante o enorme umbigo do líder, que assume o partido como se se confundisse consigo mesmo, autarcas e deputados vão deixando-o a falar cada vez mais para si mesmo.

Terceira força política na Assembleia da República? Até quando? Tenho uma fezada, que esta legislatura já o deixará minguado por conta da defeção progressiva de alguns dos seus parlamentares.

2. Confirmando a miopia das lentes por que olha para os concidadãos, Emmanuel Macron quis alertá-los para a iminência do fim da era da abundância. Atónitos, os que se sentem representados pela esquerda, questionam: qual abundância se boa parte dos seus eleitores nunca viram essa promessa senão por binóculos de grande alcance?

O grande desafio, que se coloca ao presidente francês e seus colegas do Conselho Europeu é como livrarem-se do grande molho de brócolos em que se envolveram ao aderirem impensadamente aos interesses norte-americanos. Porque, enquanto os ucranianos e os russos pagam os custos da guerra em sangue, e a generalidade dos europeus no esbulho das suas carteiras, a Casa Branca poderá congratular-se por, uma vez mais, ver a economia singrar à conta da alavancagem dos lucros do tal complexo industrial-militar para o qual já Eisenhower alertava.

3. Um dos maiores mistérios sobre o que se passa nessa guerra é como gente com aparentes dois dedos de testa se deixam levar pela propaganda de Zelenski a propósito da central nuclear de Zaporijia. Em suma: se os russos estão a ocupá-la, que ganhariam em ataca-la, sobretudo se, como o denunciaram fotografias de um técnico aí a trabalhar, a aproveitam como escudo de proteção para os seus tanques e outros stocks militares? Que interesse teriam os invasores em destruírem um equipamento primordial na capacidade de causar mossa ao inimigo - não esqueçamos, que vem dali boa parte da energia, que chega ao resto da Ucrânia e em vias de ser transferida para a Crimeia e o Donbass?

Compreende-se o desespero do comunicador-mor de Kiev com a possibilidade de ficar às escuras em boa parte do país ainda sob o seu controlo e por isso desespera por uma intervenção internacional, que desmilitarize a central, mas adivinha-se que anda a tomar os sonhos por ilusórias realidades. Putin é suficientemente execrável para não se coibir com escrúpulos relativamente aos males causados aos que teimaram em desafia-lo! 

domingo, 28 de agosto de 2022

Uma nova classe social em ascensão?

 

São noções básicas da História: depois de uma sociedade dividida entre senhores e escravos, aristocratas e servos da gleba, burgueses e operários - definidas por sucessivas quedas de impérios e grandes revoluções -, podemos estar à beira de uma nova mudança, com a superação de todos quantos defendem e se sentem acomodados no sistema capitalista, por quem se apressa a ditar a este último um merecido dobre de finados.

Bruno Latour prevê que possa surgir uma nova classe ecológica incumbida de exigir um tipo de sociedade capaz de garantir a sobrevivência da civilização humana.

A propósito dessa hipótese o filósofo francês dá um exemplo lapidar: aquando da Revolução Francesa era na burguesia que se sentia o orgulho de ter por si a Razão nela fundamentando-se o mérito de sobrepor-se à decadente aristocracia. Pelo contrário, nos dias de hoje, a burguesia - seja a do topo feita de especuladores financeiros e de oligarcas, seja a dos pequenos empresários iludidos pela possibilidade de um ascensor social que, afinal, nunca pára no piso em que estão - tornou-se irracional comportando-se como uma avestruz assustada com o que sabe estar iminente. A História demonstra que uma classe assustada pelo seu devir não consegue evitar a sua irreversível queda.

A ainda muito heterogénea classe ecológica - aquela que prefiro considerar como aderente aos ideais de um urgente ecossocialismo! - encara aquilo que a Ciência demonstra, procura entendê-lo para formular e exigir o advento de um outro tipo de sistema económico e social. Que será o único viável, o da última oportunidade de sobrevivência antes da catástrofe!

Agora só falta que os ventos da História, em formato de vigoroso furacão, erradique do poder quem nele apenas busca manter as coisas tais quais estão. Ilusória ideia, porque as mudanças climáticas, acabarão por puxar o tapete a quem as não enfrenta com a exigível sagacidade.

sábado, 27 de agosto de 2022

A urgência de aterrar em Gaia

 

Não me encontro totalmente no pensamento de Bruno Latour em quem me desagrada a relativa secundarização, que faz do marxismo. Mas não deixo de lhe encontrar pertinência no julgamento da época da queda do muro de Berlim em 1989 como o do desencontro da História humana com a que deveria ser a direção seguinte. Sendo já evidente a relevância dos riscos ambientais por que iria passar o planeta nos anos seguintes, faria todo o sentido pensar essa aparente convergência de mundos desavindos de acordo com a  alteração dos modelos de produção orientando-os no respeito da necessária sustentabilidade dos ecossistemas. Em vez dessa lúcida perceção do que estava em jogo operou-se uma absurda negação, traduzida na ascensão da fraude neoliberal, que conseguiu, em três décadas, acelerar exponencialmente a aproximação da ameaça distópica, tornando previsível a possibilidade de um  próximo apocalipse.

Ser moderno passou a equivaler-se a consumir muito, seguir as modas, esquecer quaisquer preocupações com a equidade distributiva dos rendimentos coletivos. Os yuppies e seus sucedâneos converteram-se no absoluto contrário do que deve ser a máxima aspiração do ser humano: buscar a realização como pessoa dentro de um tipo de civilização sustentável.

Hoje cresce em muitos a convicção da inviabilidade de conjugar capitalismo, mais ou menos reformista, com a continuidade da civilização humana. Daí que se discutam conceitos como economia circular, decrescimento e outros modelos de organização social, que viabilizem a contenção do aquecimento global dentro de parâmetros aceitáveis para manter a esperança num futuro viável para as gerações vindouras. Porque, a manterem-se as propostas da generalidade das forças políticas ainda dominantes, é para o abismo que, irreversivelmente, nos encaminhamos.

Dissociando-se das posteriores divagações lunáticas do criador do termo (James Lovelock), Latour propõe que voltemos a aterrar em Gaia, agindo a contrario de tantas civilizações antigas, que viram chegar os sinais da sua destruição e não os souberam contrariar a tempo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Escolhas que só ao Diabo cabe!

 

Estamos nesta época em que são demais os que olham para a realidade a preto-e-branco, apontando uns como bons e outros como maus de uma fita que melhor justifica a opção pela rejeição de todos, mesmo com nuances, que se confiram circunstâncias atenuantes a quem as faz, objetivamente, por merecê-las.

Vide as eleições angolanas: não há ali quem se aproveite, mas se o MPLA é mau demais, que dizer dos sucessores do criminoso Savimbi? Pelo sim, pelo não, formulem-se votos para que o vencedor ecoe alguns dos valores da sua matriz original, quando o fundaram alguns dos mais valorosos intelectuais angolanos. Porque a corrupção é um facto nuns e uma ânsia gananciosa nos que se lhes opõem, tudo estando por fazer para distribuir pelo povo as muitas riquezas de um vasto território até agora esbulhado pela sua indigna elite.

Refira-se, igualmente, esta guerra entre os EUA e a Rússia em território ucraniano e tendo a NATO como fiel escrava das estratégias imperialistas do Pentágono. Putin é, de facto, um político execrável, mas será o comunicador-mor de Kiev melhor adornado de qualidades? As suas contas em paraísos fiscais, a forma como ilegalizou partidos da oposição e legislou contra os direitos dos trabalhadores ucranianos dizem muito sobre a sua escala de valores, que incluem a exigência de imposição de um racismo antirrusso à escala europeia sem lhe importar se muitos dos que querem vir para ocidente têm a mesma estima por Putin, que ele aparenta ter.

Uma das entusiastas quanto à imposição dessa condenação de todos os russos por igual é Sanna Marin, a primeira-ministra finlandesa, por estes dias transformada em santa por umas quantas feministas da treta só por ser mulher e imitar Boris Johnson naquele tipo de festas ultra explorado pelos populistas de extrema-direita nas redes sociais.

Pessoalmente continuo a exigir dos nossos políticos uma gravitas, que justifica a antipatia por Marcelo Rebelo de Sousa, cujo estilo continua a ser o de um populista atoleimado. Nesse aspeto as extremas-direitas comportam-se dentro da lógica do elogio das suas supostas públicas virtudes, quando se lhes conhecem os privadíssimos vícios.

A contestada primeira-ministra finlandesa anda a aprender uma lição, que lhe deveria iluminar a evidente imaturidade: não lhe basta aderir entusiasticamente à NATO ou execrar os russos como um todo para se fazer amar pelos concidadãos de direita. Por ser mulher e ilusoriamente parecer de esquerda, será sempre um alvo a abater!