quinta-feira, 23 de junho de 2022

A sageza da razão e a gritaria da ignorância

 

O regresso dos debates entre o Governo e a Oposição no hemiciclo parlamentar confirmou, uma vez mais, a diferença abissal entre a consistente Visão de contexto e de futuro de António Costa e a dos que o contestam, tanto mais evidente que a relevância numérica atribuída pelos portugueses aos mais recentes partidos das direitas não significou qualquer acréscimo na respetiva qualidade argumentativa. Todos nos lembramos da histeria polifónica de Assunção Cristas e Cecília Meireles, mas quase dá para delas ter saudades, quando ouvimos a demagogia abaixo de medíocre ali debitada por Ventura e seu lugar-tenente par(a)lamentar. E se Cotrim de Figueiredo ainda consegue mostrar alguma elegância a disfarçar a insidiosa perfídia do que fundamenta os seus propósitos, que dizer dos que lhe tomaram o lugar nas intervenções seguintes? Tudo ali é, igualmente, de uma confrangedora pobreza.

Restam as esquerdas depauperadas, ainda a lamberem as feridas do inacreditável erro, que cometeram no final do ano passado e tardam em assumir. Jerónimo de Sousa parece ainda mais velho e cansado e Paula Santos não mostra ter unhas para tocar uma guitarra, que João Oliveira ia tangendo com outra qualidade. E Catarina Martins também não capta a atenção, porque parece sair da pele de atriz para assumir a de triste fadista entregue ao fatalismo de nada conseguir mudar e só lhe restar a indignação com a própria impotência.

Resta um PSD, que se põe na figura existencial de não saber quem é, embora adivinhemos que, sem Rio, mas com Montenegro, serão aqueles que hão-se ser sempre os mesmos conservadores da desigual relação de desigualdade entre os que são seus titereiros e todos os demais, porque ninguém se torna no que não é. E quanto ao PAN e a Rui Tavares pouco haverá a acrescentar embora o último pareça o provedor da causa zelenskiana sem ponderar nos custos, que já sentimos nos bolsos e ainda mais, quando a União Europeia para lá sangrar boa parte do orçamento e por isso mesmo mais caminhar para a implosão.

Ao fim de mais de três horas de debates reconhecemos o que tem sido regra invariável desde que António Costa é primeiro-ministro: convence-nos quanto a saber bem aquilo que quer, enquanto todos os que se lhe opõem passam, entre o embaraçoso e o inconveniente, pela via sacra da sua indisfarçável vulgaridade. 

terça-feira, 21 de junho de 2022

É só inquietação, inquietação...

 

A única certeza com que entramos neste 21 de junho é a do início do verão com o solstício às dez e um quarto da manhã. Sabemos, igualmente, que este será o dia mais longo do ano, com a claridade a minguar a partir daqui até virar o ciclo em dezembro.

Desconhecemos, por exemplo, quanto tempo durará esta crise feita da inflação galopante, que nos esvazia os bolsos, e provocada por uma guerra que, dos dois lados da contenda, muitos previram curta, mas ameaça prolongar-se muito para além do tempo em que, saída das capas da imprensa escrita e da abertura dos telejornais, vai perdendo interesse e levará a que, daqui a pouco, quase mal nos lembremos dela ... a não ser pelos efeitos económicos, que continuarão a condicionar-nos.

É esse desconhecimento a limitar a ação de um governo, que muito apostava no Plano de Recuperação e Resiliência para cumprir o seu programa e afinal, a exemplo do sucedido no tempo da geringonça e, depois, no da pandemia, a viver em função do curto prazo. 

O mesmo sentirá Emmanuel Macron com a insuficiente vitória deste fim-de-semana, que anuncia o princípio do fim de mais uma dessas comuns e hábeis estratégias das direitas em tomarem o poder a partir do campo socialista - aconteceu com Blair, com Matteo Renzi e ameaça repetir-se em Inglaterra com Keir Starmer - mas com a esquerda ainda fraca, mesmo a reaprender a lição quanto à vantagem de convergir para potenciar a força e preparar futuro à medida do exigente combate contra uma extrema-direita, que voltou a progredir eleitoralmente e está a pedir meças a quem a quer devolver à chafurdice do seu redil imundo.

E fica-nos a expetativa quanto à a nova experiência de esquerda que a Colômbia agora inicia, com a eleição do presidente Gustavo Petro. Uma vez mais a América Latina volta a sinalizar caminhos novos para quem pretende um planeta mais justo e sustentável, ademais contando com a personalidade da vice-presidente Francia Mina que, além de negra, é empenhada ativista ambiental.

Começamos este inquieto estio com motivos para ficarmos atentos às realidades geograficamente dispersas, que nos afetarão aquela que deveria ser a mansidão dos dias de férias na praia.

segunda-feira, 20 de junho de 2022

Novo aeroporto? Decida-se de vez e denuncie-se quem merece sê-lo!

 

Se agíssemos racionalmente não precisaríamos de novo aeroporto em Lisboa. Para diminuirmos a pegada poluidora deslocar-nos-íamos menos de avião e aproveitaríamos melhor os recursos tecnológicos, que tornam possíveis as reuniões de negócios ou as conferências e seminários à distância. Mais: as opções turísticas tornar-se-iam mais restritas se os passageiros para destinos exóticos vissem incluídos nos preços dos bilhetes de avião o justo custo de quanto contribuem para o aumento dos gases com efeito de estufa na atmosfera.

Reduzidas ao estritamente necessário - em causa própria falo da necessidade de visitar familiares noutras geografias! - as viagens de avião diminuiriam bastante em número e exigiriam menos pistas para acomodar essa nova realidade. Seria assim exequível o cumprimento da meta de não ver ultrapassado o 1,5ºC, que os cientistas referem como o limiar a partir do qual os cenários distópicos serão mais frequentes e cataclísmicos.

É claro que esse cenário assusta quem vive do turismo de massas e se alheia dos seus danos  ecológicos. Mas é o futuro da nossa civilização, que está em causa e, mais cedo ou mais tarde - preferivelmente agora em vez de procrastinar a mudança de comportamentos - não há como passar por essa opção de força maior.

Vem isto a propósito do caos dos últimos dias no aeroporto de Lisboa e a manifesta vontade do governo em ver o maior partido da oposição a associar-se-lhe numa decisão de regime quanto à respetiva solução. Manter a decisão relativa ao Montijo, que vem do (des)governo de Passos Coelho? Alterar para Alcochete a alternativa à Portela? Ponderar noutras alternativas, que incluam a Ota, Beja ou uma qualquer outra solução, que não tenha sido até agora formulada?

Bem pode António Costa ficar sentado à espera que a nova direção do PSD adote comportamento responsável e ajude a desembrulhar um problema, que foi incrementado por esse seu antigo primeiro-ministro, quando decidiu entregar a ANA ao grupo Vinci e tornou este codecisor interesseiro numa solução, que renda o máximo pelo menor custo possível para si. Já se viu que, a exemplo do que tem sido sua prática recorrente sempre que está na oposição, o PSD contentar-se-á com a sempiterna obsessão de dizer o pior possível do que faça, ou deixe por fazer, o governo socialista.

Neste momento não sei qual será a melhor decisão embora seja sensível aos custos ambientais de uma hipótese, a do Montijo, que colide com as rotas migratórias de espécies, que transitam pelo estuário do Tejo. Mas é altura de, fazendo orelhas moucas  aos que não fazem nem deixam fazer, o governo tome uma decisão fundamentada, que acabe com este impasse de há longas décadas. Sem deixar de, incessantemente, denunciar quanto o PSD contribuiu para criar o problema e, agora, tudo faz para que ele não encontre a menos má das suas possíveis soluções.

domingo, 19 de junho de 2022

As cínicas lágrimas dos que se queixam dos populistas

 

São lágrimas de crocodilo as vertidas pelos chamados liberais a respeito do crescimento dos populismos. A verdade é que muito cuidaram de apartar as pessoas da política à conta da alienação que, televisivamente, começaram por promover em torno do futebol, das telenovelas e dos reality shows e depois potenciaram com a habilidosa gestão dos algoritmos nas redes sociais.

Que tenham conseguido transformar boa parte da população numa massa abúlica, ademais capaz de, como é próprio dos ignorantes, radicalizarem-se nas suas «certezas», tem de lhes ser reconhecido como um enorme sucesso, porque conseguiram escamotear o essencial: serem as desigualdades a tornarem as sociedades tão férteis em frustrações e ansiedades. E por isso, com papas e bolos—somados a uns perigosos bufões do tipo Ventura! - enganam os tolos, que se esquecem de residir na luta de classes a resposta para as suas pouco subtis necessidades. 

sexta-feira, 17 de junho de 2022

Alucinações anarco-liberais

 

Foi há pouco mais de dois anos e meio, que nos foi dado a conhecer uma alucinada criatura que, de olhos esbugalhados, exultava com a conquista de um lugar parlamentar para o partido a que, então, presidia. Guimarães Pinto, como então ficámos a saber se chamava, deve-se ter assustado com o que o esperava e cuidou de logo passar a incumbência a Cotrim de Figueiredo, que conseguia configurar-se mais conformemente com os padrões comportamentais de um deputado da República.

Dois anos depois eis que o breve idílio com uma juventude tonta na atração por uma certa anarquia social - e por isso permeável aos cantos de sereia vindos das direitas! - resultou numa mão-cheia de novos deputados, entre os quais viemos a reencontrar a mesma delirante criatura, agora aureolado da fama quanto a ser um iluminado capaz de ver no ultraliberalismo a solução para o seu futuro pessoal e o de uns quantos amigos tão-só os reconheçam como imaginativas marionetas dos que querem que as coisas continuem a ser como são na distribuição de rendimentos, se é que não se consiga que mais desiguais ainda se tornem.

Confesso que não vi o discurso que Guimarães Pinto proferiu esta semana na Assembleia da República, mas ele é todo um programa do logro que constitui esse partido para essa juventude, momentaneamente para ele atraída. Mas é preciso descaramento para acusar de xenófobos os que querem obstaculizar uma ainda maior gentrificação das nossas principais cidades, donde são varridos os habituais moradores para darem lugar aos que têm dinheiro para comprarem apartamentos a valores por metro quadrado inalcançáveis para quase todos os cidadãos nacionais. Indignando-se com quantos exigem políticas de habitação, que facilitem o acesso a habitação digna  aos jovens portugueses - como se praticam nos países da Europa do Norte, que os «liberais» tomam como falacioso modelo -, Guimarães Pinto deu-lhes uma alternativa à medida da configuração das suas atoleimadas meninges: que vão morar para o interior, como se lá encontrassem os empregos estáveis, que nas urbes só como precários encontram, porque direitos laborais é coisa que ele os associados execram.

Não sei que outras lerdas ideias ainda viremos a ouvir do insólito deputado, mas prometo ficar-lhe mais atento. Quanto mais não seja para aferir até onde pode chegar a inépcia desse tal pensamento «liberal», criativo na sua publicidade, mas a valer zero em consistência política. 

quinta-feira, 16 de junho de 2022

O culpado da crise na Saúde é o suspeito do costume

 

Se existem enormes carências em médicos para integrarem os sistemas mais ou menos públicos de Saúde - notícia em Portugal, mas também em França, no Reino Unido, em Itália e outros países ocidentais! -, é porque está em causa a razão de fundo, que mais tem sido escamoteada pelos telejornais nos últimos dias: os grupos económicos entenderam-no como setor de atividade onde os lucros podem ser imensos e tudo têm feito para que se cumpra a regra em tempos enunciada como desejável por um deputado das direitas na Assembleia da República ao anunciar um mundo em que quem ter saúde a deverá pagar.

É o selvagem neoliberalismo que justifica estas circunstâncias e precisa ser empenhadamente combatido.

A resistência com que, mesmo em governos socialistas, se encararam os contratos de exclusividade (inexistentes desde 2009) e, em contraponto, se deixaram proliferar as empresas de tarefeiros, foi estratégia, que contou ainda com a oposição dos Ministros das Finanças em autorizarem a contratação de especialistas. Todos eles, intencionalmente ou não, abriram uma estrada de tijolos amarelos às empresas privadas, cujos hospitais e clínicas atraíram grande parte dos insuficientes médicos, que a Ordem autorizou a formarem-se.

Daí que a solução não seja a de se criarem planos de contingência ou para o verão como o anunciou Marta Temido ou fazer acordos com as maternidades privadas para que o Estado ainda mais as financie, transferindo-lhes as verbas, que tanta falta fazem para que a Saúde universal e tendencialmente gratuita seja o direito constitucional respeitado para todos nós, cidadãos a viver neste cantinho à beira-mar plantado.

Se pouco de socialismo têm havido nas políticas dos sucessivos governos do meu partido - onde tem primado a ideologia dessa coisa insonsa, nem carne, nem peixe, que é a «social democracia» -  ainda mais lapidar verdade é na Saúde, para desgosto de António Arnaut se acaso pudesse ver a embrulhada em que se converteu aquilo que sonhou como uma das mais decisivas vitórias da Revolução de Abril.

Se a pandemia demonstrou as virtudes do SNS no seu melhor, o business as usual tende a asfixia-lo de vez se, com esta ministra ou sem ela, António Costa não pegar a sério na sua salvação e tardar nas medidas, que se impõem.

segunda-feira, 13 de junho de 2022

Entre o pindérico e o parvo

 

1. Como de costume a saborosa crónica de hoje de Carmo Afonso no «Público» é merecedora de atenta leitura por tratar da condecoração atribuída por Marcelo Rebelo de Sousa ao enfermeiro, que mereceu elogios de Boris Johnson por o ter tratado, quando esteve com covid.

Conjetura a articulista: “vamos supor que o enfermeiro Luís tinha prestado os seus cuidados de saúde a um operário inglês. Nada feito. Não haveria condecoração. E se os tivesse prestado ao primeiro-ministro de um pequeno país africano? Estamos a entrar em matéria muito embaraçosa, mas diria que não; também não haveria condecoração nenhuma.” Porque há quem seja pindérico, quando os supostamente poderosos nos dão atenção até valorizando a escolha de Obama por um cão de raça lusa. Por isso mesmo a conclusão tem a ver com o comportamento de Marcelo e dos que se prestam a tão indecorosas figuras: “não basta sermos pobres, também tínhamos de ser parvos.”

2. Confesso que não gosto de hip hop. Ainda menos do que da pop e do rock, que, por esta altura, levam multidões aos festivais, e enchem os bolsos aos Covões, aos Montezes & Cª. Mas daí a estabelecer uma relação causa-efeito entre aquele género musical e o aumento da criminalidade, como o faz um relatório policial conhecido por estes dias, parece um exagero. A música, mesmo má, não justifica que se lhe atribuam razões, que a sociologia demonstra situarem-se noutras direções politicamente menos convenientes. Que irão, inevitavelmente, dar à incontornável luta de classe, que o nosso tio Carlos tanto enalteceu.

3. As conclusões do inquérito sobre os acontecimentos de 6 de janeiro de 2021 no Capitólio de Washington indiciam maior responsabilidade de Donald Trump no comportamento da turba ululante e golpista do que se percecionava. Ele promoveu aquela que constituía a única hipótese de manter-se na Casa Branca e prosseguir a deriva dos Estados Unidos para uma realidade ainda mais fanatizada do que a atual.

Seria desejável que daqui resultasse o impedimento de voltar-se a candidatar ao cargo em 2024, porque, acaso vença, pode-nos devolver a ainda mais tenebrosa perspetiva quanto ao futuro da nossa civilização. 

sábado, 11 de junho de 2022

O que será, que será?

 

O que terá levado Rui Moreira a querer-se protagonista dos noticiários ao promover a saída do Porto da Associação Nacional de Municípios e a exigir a Marcelo um travão ao recém-aprovado Orçamento de Estado para o ano em curso? É a pergunta feita por São José Almeida no «Público» e para a qual aventa várias hipóteses como resposta: “Quer ser candidato a Presidente da República? Ou antes deseja posicionar-se como candidato a presidente do Futebol Clube do Porto? Quer mostrar que é duro para estar à altura de substituir Pinto da Costa? Quer ser presidente da eventual futura região, tornando-se o novo vice-rei do Norte? Quer provocar a antecipação do debate sobre regionalização?”

Manda a verdade constatar que, recordando Rui Rio como antecessor, a segunda cidade do país elege facilmente edis vaidosos, com tiques autocratas e julgando-se com capacidades que vão muito além dos mitigados talentos.

Para já Marcelo e a ministra, que cuida da regionalização, puseram-no no devido lugar. Moreira chegou a este fim-de-semana prolongado a lamber as feridas dos agravos com que se viu merecidamente fustigado. 

quinta-feira, 9 de junho de 2022

Ainda não é a lei que queremos ver aprovada!

 

A eutanásia voltou à Assembleia da República para ser aprovada em parâmetros muito aquém dos exigidos pelos que, a meu exemplo, nada têm a ver com os preconceitos religiosos de quem recusa considera-la um direito fundamental: o de dispor do seu próprio corpo, quer na vida, quer quanto ao momento de a fazer cessar.

Trata-se de uma questão civilizacional como tantas outras, que têm avançado timidamente, mas passam a ser entendidas como inquestionáveis. Salvo para os ultraconservadores norte-americanos, que estão a reverter a da interrupção voluntária da gravidez, mas não suspeitam de quanto esse inusitado ataque civilizacional poderá pôr em causa a vitória eleitoral, que parecia estar-lhes ao alcance nas intercalares de novembro. Sobretudo se a indignação provocada por este ataque for devidamente alavancada pela causada pelos muitos crimes provocados pela facilidade com que se compram armas na maioria dos Estados da União.

Marcelo que, uma vez mais volta a estar na primeira linha dos que contrariam uma maré cada vez mais viva - depois de ter contribuído para a morte e danos físico-psicológicos causados nas mulheres durante anos condenadas ao recurso dos abortos clandestinos! -, não ignora que a História avança em seu desfavor. Por mais uns anos quererá que a ação dos Almas Grandes, relatados por Miguel Torga num elucidativo texto que, há vinte anos, o Bando levou à cena no Vale dos Barris em Palmela - com o saudoso Horácio Manuel a protagoniza-lo! - se faça na clandestinidade dos hospitais ou das casas onde médicos e enfermeiros incorrerão em complicações profissionais e judiciais apenas por darem a última satisfação a amigos e conhecidos para quem o sofrimento, mesmo suavizado pelos míticos cuidados paliativos, não justifica as semanas ou meses adicionais em que não volta a ser possível o usufruto da vida plena tal qual o fora anteriormente.

Daqui a uns quantos anos - tal qual sucede hoje com o aborto! - consideraremos aberrante uma legislação penalizadora, que obriga o interessado a sofrer o longo calvário imposto por gente hipócrita, acolitada em partidos de direita e ordens profissionais por elas tomadas de assalto.

A ver o tempo a correr em meu desfavor ainda espero imitar a mãe do antigo primeiro-ministro Lionel Jospin que, um dia, decidiu ter tido vida muito rica e estar cansada o suficiente para dela se despedir. Sem ter de justificar a decisão com outra coisa, que não fosse a vontade em escolher o momento dessa morte. O que cumpriu - por coincidência na mesma altura em que o Bando apresentava a peça em causa em Palmela! - com a ajuda da filha, a socióloga Nöelle Chatellet que, ao contrário do irmão, apoiou a mãe sem qualquer tibieza e a acompanhou nos seus últimos instantes de vida.

Também eu quero ter o direito de dizer basta e receber o apoio necessário para que o passamento ocorra sem outra dor, que não seja o de, tal qual a avó Josefa de José Saramago, reconhecer a vida como algo tão bonito de que dá tanta pena prescindir. Mas da qual me despedirei sem outro estado de alma, que não seja a de - na companhia de quem sempre tenho amado! - ter valido a pena. 

terça-feira, 7 de junho de 2022

Depois de Jorge Sampaio tem sido o que se sabe!

 

1. Há dias sofri assombroso susto: não é que concordei com a prosa de João Miguel Tavares numa crónica em que propunha  a Joana Vasconcelos o pagamento do próprio bolso do museu dedicado à sua obra se é tanta a vontade em assim se promover, mesmo levando em conta que os prestimosos Carlos Moedas e Isaltino Morais se mostrem tão dispostos a nele investir o dinheiro dos respetivos munícipes. E, de facto, embora tenha apreciado «A Noiva» ou o «Marilyn», nunca vi essas e outras obras da conhecida artista senão como conjunturais sucessos de um efeito de moda condenado a datar-se a prazo reduzindo-se depois à inevitável menoridade estética.

Agora temi ver-me de novo identificado com o Tavares a propósito do que disse dos fúteis comentários de Marcelo aos jogos da seleção de futebol antecipando-se em rapidez aos do próprio selecionador. Se é para isto que temos um presidente para que nos serve?, questiona com pertinência.

O problema é que a resposta a essa questão coloca-nos em posição diametralmente oposta quanto a quem precisaríamos ter como presidente: o Tavares aproveita para fazer uma declaração embevecida a Cavaco Silva cujo artigo da semana passada o terá deixado nas nuvens. Eu continuo a crer que Marcelo me impediu de ter em Belém aquele que para a função estava devidamente talhado, dando-lhe a substância e a gravitas, que o atual titular nunca lhe propiciou. Falo naturalmente do professor Sampaio da Nóvoa, que consagraria um código de valores e uma visão de futuro para o país, que poucos conseguiram sintetizar com a sua clareza e acuidade.

Infelizmente, depois de duas décadas em que tivemos em Belém duas figuras prestigiadas - Mário Soares e Jorge Sampaio - os seus sucessores têm sido o que se sabe...

2. Outro erro de casting para a função - Boris Johnson - salvou-se por agora da humilhação de ser corrido de Downing Street sem a sonhada glória de ser idolatrado como émulo de Winston Churchill.

Não perde, é claro, pela demora: o sino do Big Ben continuará a soar-lhe como um dobre de finados pela sua pecadora alma! 

segunda-feira, 6 de junho de 2022

Muitos sessenta euros a voarem para longe das nossas carteiras

 

1. Normalmente costumo encher o depósito do carro, quando o ponteiro chega a meio. Até há pouco gastava à volta de 50 euros na operação, agora vai muito para além dos 60. Eis um sobrecusto imediato da guerra, que prossegue no leste-europeu e para o qual os políticos da NATO não cessam de atirar mais lenha para queimar. Bem pode Kissinger dar conselhos avisados ou Macron alertar para o óbvio, que logo são destratados abaixo de cão por um ex-comediante, que ganhou notoriedade global neste momento histórico anteriormente cingida ao seu interno palco. Agora, diariamente, ouvimos-lhe as preleções televisivas sem direito ao contraditório embora nos questionemos quanto mais têm aumentado as suas contas offshore, de que não voltámos a ouvir falar depois do consórcio internacional de jornalistas as ter encontrado entre os chamados Pandora Papers.

Tendo em conta que 60 também foram os euros gastos cá em casa se contabilizarmos a nossa parte dos 250 milhões levados por António Costa a Kiev para lhos meter no bolso e demonstrar que não está menos com ele do que o estarola ao comando da NATO, mais os 50 milhões deixados em Varsóvia para ajudar o reconhecidamente pouco democrático regime, aí tutelado pelo gémeo sobrevivente da fratria dos Kaczyński, convenhamos que a guerra está-nos a ficar demasiado cara. Para não falar da fatura mais pesada nas compras no supermercado do costume.

Agora é um secretário de estado norte-americano que quer um aumento das nossas despesas militares muito para cima dos 2% para dar satisfação aos fabricantes de armamento do sinistro complexo militar contra o qual atempadamente Eisenhower nos avisou. Como escreve Carlos Matos Gomes num seu artigo sobre o assunto “os cidadãos europeus deviam perguntar aos políticos como justificam o aumento de despesas militares! É que o dinheiro “pode” fazer falta para necessidades reais, para ameaças reais resultantes de desastres ambientais, de pandemias, de envelhecimento da população, de empobrecimento, de migrações, de fome…”

2. À luz da urgência climática a decisão até devia ser saudada, mas o fecho da refinaria da Galp em Matosinhos é questionada pelo economista Ricardo Cabral à luz da justificação, que a fundamentou há dois anos: dava prejuízo. Agora que o contexto se alterou e a atividade geraria lucros que compensariam lautamente esses prejuízos, Cabral pergunta se não existirá um forte arrependimento na administração da empresa por a ter tomado ademais contra os interesses do país que viu dificultado o fornecimento de produtos refinados necessários à atividade de outras indústrias. Razão para a pergunta pertinente com que se conclui o artigo: fica (...) a questão sobre se a alegada eficiência da gestão privada da Galp não é um mito que destrói valor aos acionistas (e ao país)?

3. Acabou o Jubileu de Isabel II e tudo aquilo cheirou a mofo tão longe anda a decadente Inglaterra das grandezas imperiais passadas, sobretudo tendo em conta que irlandeses, escoceses e até galeses andam desejosos de se livrarem da sua tutela colonial. Por tudo isso a festa lembrou o conhecido romance de Steinbeck sobre os rios que, antes de definitivamente secarem, dão a ilusão de um súbito fulgor como se ainda tivessem a possibilidade de ressuscitarem. Os monárquicos, que ainda se ufanam de curvarem-se perante tão decrépita instituição, deveriam convencer-se de não haver água que volte a passar duas vezes pelo mesmo local do curso do rio, não havendo possibilidades de ele se encaminhar para as páginas passadas da Historia da Humanidade. 

Trabalhar menos... ou para quê?

 

Ouço Bruno Latour, filósofo francês muito na moda, a alertar para o facto do atual sistema de produção também ser o da destruição ambiental, que pode pôr em causa a continuidade da civilização humana. E ninguém o pode contestar quando, todos os anos, consumimos muito mais recursos do que o planeta consegue regenerar.

Neste contexto a atual discussão em torno da semana de quatro dias de trabalho arrisca-se a ficar pelas generalidades quando o importante continua a ser o “pequeno” detalhe  de ser urgente uma total reformulação das razões porque, como e para quem produzimos bens de consumo.  Até porque, sem que os eruditos consigam perceber porquê, vem acontecendo uma revolução além-Atlântico protagonizada por quem decide deixar de trabalhar, porque a compensação dele recebida não vale o esforço nem sobretudo o que se perde por dele fazer o principal investimento do tempo disponível.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Cavaquetes ao ataque

 


Que enlevo o de  João Miguel Tavares depois de ler o último texto de Cavaco Silva! Mas, quando julgávamos que os ecos dos «cavaquetes» do «Público» ficariam por aí - sensatamente Manuel Carvalho quedou-se nos bastidores! - eis que David Pontes vem fazer coro com quem Marcelo mandou discursar no primeiro 10 de junho subsequente à sua vitória para o primeiro mandato presidencial! E o diretor-adjunto do jornal da Sonae não faz a coisa por menos: rastreia as reformas empreendidas pelo político de Boliqueime - o expurgo das veleidades de esquerda na Constituição, a privatização acelerada do que ainda restava nacionalizado - e lamenta não ver em António Costa o mesmo ímpeto em prol dos suspeitos do costume.

Os meus mais diletos amigos questionar-me-ão porque continuo a assinar o matutino em causa, mas que fazer quando as alternativas são as da Cofina ou as da galinácea criatura?

Em Portugal o tempo não está para leitores de jornais que prezem a objetividade e sintam frágil o estômago para as diatribes das direitas. Ou tomando por referência o professor Nobre Correia mais vale preferirmos o que de melhor se publica além-fronteiras...

quarta-feira, 1 de junho de 2022

Qual o pescoço em que se aperta o laço?

 

Os pacotes de sanções contra a Rússia de Putin vão-se sucedendo e a sua prometida crise económica, social e financeira continua por demonstrar. Pelo contrário, a contragosto, a imprensa ocidental vai reconhecendo os avanços lentos, mas consolidados, dos seus exércitos em Luhansk e no Donbass, ao mesmo tempo que o proscrito rublo revela uma resiliência, que parece falhar ao euro para o qual se preveem taxas assustadoramente mais altas.

Paradoxalmente, também nós, a ocidente, vamos pagando os custos de um conflito sem fim à vista, mas onde os humanos e materiais vão ganhando dimensão avassaladora. Para já temos a inflação a 8% traduzida na sensação de estarem hipotecadas as expetativas de consolidarmos as dignas condições de vida, que deveríamos usufruir como direito fundamental.

Não sobram dúvidas quanto a quem será chamado a pagar a destruição de um país que, seja lá quando for!, chegará exangue à mesa das negociações, e terá devastadas as infraestruturas, as fábricas e campos de cereais, bem como provavelmente o acesso ao mar Negro. A Ucrânia, apressadamente integrada na União Europeia, ser-lhe-á fava indigesta, traduzida num encargo demasiado pesado, sobretudo porque o motor alemão tenderá a gripar ao já não dispor da energia barata vinda da Federação Russa, nem contar com ela - e quiçá com a China se se mantiverem as tentações impulsionadas pelos ultratlantistas! - como destino natural das suas exportações. Podemos conjeturar as dificuldades futuras das instituições sedeadas em Bruxelas, Estrasburgo e Frankfurt para equilibrarem orçamentos pressionados por uma conjuntura de que só os Estados Unidos e a China beneficiarão.

Rendidos ao bullying  mediático, que reduz a guerra a um circo maniqueísta, que justifica a expressão de uma psicologia de massas assente nas emoções, mais do que na razão, a Comissão Europeia e o Conselho Europeu vão apertando o nó de um laço, que julgam estar metido no pescoço de Putin mas, a prazo, tende a apertar-se no deles. E, infelizmente, no nosso...